Mundo ficciónIniciar sesiónEu precisava de uma tática para ganhar tempo. Fugir do assunto, como eu sempre fazia. O que infelizmente alimentava a narrativa de solteirão irresponsável que meu pai adorava usar contra mim nas reuniões do conselho.
Eu precisava de uma mentira eficiente. Algo que os calasse por um tempo até eu retomar o controle total da situação. — Vovó — interrompi, baixando o tom de voz para conferir uma gravidade calculada, temperada com uma dose precisa de frustração fingida. — Eu já tenho uma namorada. Estava esperando o momento oportuno para apresentar a família. Mas já que vocês insistem em tentar gerenciar minha vida privada com essas pretendentes medíocres, acabaram de estragar a surpresa. A notícia detonou no centro da mesa como uma bomba. O silêncio que se seguiu foi quase prazeroso. Mary, apegada ao seu patético papel de casamenteira oficial da elite de Manhattan, arregalou os olhos, claramente ultrajada por ter sido deixada de fora. — Como assim? — ela desdenhou fazendo um escândalo. — Que namorada é essa que você escondeu como um segredo sujo? Não me diga que voltou para aquele modelo de quinta categoria. — Não é a Nicole, Vovó — respondi, mantendo o rosto impassível. — É alguém de um nível diferente. Acontece que ela é extremamente reservada, avessa a esse espetáculo de fofocas que vocês chamam de vida social. Mas eu a apresentarei... no devido tempo. Internamente, eu sorria. Comprei silêncio e desviei o radar da minha avó. Recostei-me na cadeira, sentindo o peso da tensão deixar a sala. Eu não tinha namorada alguma, é claro, mas Manhattan é grande o suficiente para eu manter essa farsa por meses, ou até que eles encontrassem outra vítima para o escrutínio da família Stone. Após o jantar, a família se dispersou para a sala de estar, mergulhando de novo em conversas vazias que eu tanto desprezo. Eu já estava pronto para me retirar quando senti o peso do olhar do meu pai em mim. Ele girava o uísque no copo com calma, de quem está prestes a dar o bote. Ele não tinha engolido a minha história. Com um gesto seco, ele indicou o escritório privativo. Entramos e, antes mesmo que a porta se fechasse, ele disparou, sem qualquer cortesia: — Eu sei que é mentira seu moleque inconsequente. Você não tem namorada nenhuma. Você acha que pode mentir para essa família seu merda. Mantive o rosto impenetrável, embora a pressão começasse a incomodar. — Eu já disse. Estava esperando o momento certo. Não imaginei que vocês estivessem tão desesperados a ponto de desenterrar pretendentes para mim. — Respondi aumentando o tom de voz. John arqueou a sobrancelha, aquele olhar frio e avaliador, que parecia escanear cada fraqueza minha. — O que estamos discutindo aqui é o futuro da Stone Enterprise. E o futuro não se garante apenas com contratos, Dominic. A linhagem precisa de continuidade. Os acionistas querem estabilidade, querem ver um homem com algo a perder, não um solteirão que gasta bilhões com modelos insignificantes. — Sua voz baixou, tornando-se perigosamente controlada; o tom que ele usava para destruir adversários. Senti meus dentes rangerem. A arrogância dele em tentar pautar a minha vida como se eu fosse um estagiário me irritava profundamente. Mas John Stone não tinha terminado de brincar de Deus. Ele se inclinou sobre a mesa, os olhos fixos nos meus. — Escute bem, Dominic: se você não estiver casado em três meses, eu te deserdo. Vou tirar tudo de você. Cada centavo, cada ação, cada privilégio. Estou cansado dos seus jogos. O impacto daquelas palavras foi como um soco no estômago, embora eu não tenha deixado um músculo sequer do meu rosto trair o choque. Ficar sem nada? Perder o império que eu comando? Isso era simplesmente impensável. — Ou você se casa nos próximos noventa dias com uma mulher aceitável e garante um herdeiro, ou será apagado da história desta família — ele continuou, a voz firme. — Você está beirando os quarenta, Dominic. É o único homem da nossa família, nessa idade, que ainda não se casou e nem teve filhos. Pense na empresa. Seja racional. O silêncio que se seguiu no escritório era pesado. Minha raiva foi rapidamente substituída por uma frieza analítica. — Você acha que pode me tratar como um dos seus empregados, não acha? — Levantei-me lentamente, cada centímetro do meu corpo exalando uma fúria contida, mas cortante. — Pois bem. Você quer um casamento? Você terá. Encarei meu pai diretamente nos olhos, deixando meu orgulho ferido transparecer em um sorriso frio e desafiador. — Espero que você esteja pronto para assinar a transferência do controle total da Stone Enterprise para o meu nome nesse mesmo prazo. Porque eu estarei casado. E você pode ter certeza disso, ou eu não me chamo Dominic Stone. Não esperei por uma resposta ou pelo olhar de fúria do meu pai. Girei sobre os calcanhares e atravessei o escritório com passos pesados. A porta rangeu antes de eu golpeá-la com força. O estrondo da batida ecoou pelo corredor, selando o destino que eu mesmo acabara de traçar. Agora, eu tinha um império para salvar e apenas três meses para encontrar uma mulher que aceitasse o inferno que era viver ao meu lado. TRÊS MESES para transformar uma mentira em um fato consumado ou ver o meu mundo desmoronar.






