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"Mansão Stone, Manhattan"
— Você está perdendo o controle, Dominic — John cuspiu, sua voz cortante como uma lâmina. — Não vou permitir que a sua irresponsabilidade destrua o nosso legado. Eu dei um sorriso zombeteiro, batucando minha caneta Montblanc na mesa de mogno. O velho era previsível. Meu pai, John Stone, mantinha aquela postura rígida e autoritária que sempre me irritou. Sentado do outro lado da mesa, eu apenas observava. Ele me olhava com o mesmo olhar penetrante que eu via toda vez que me encarava no espelho, e era exatamente por isso que nos odiávamos. Éramos espelhos um do outro, lutando pelo domínio da Stone Enterprise, uma guerra fria que definia a nossa existência. Thomas Miller, nosso fiel escudeiro e executivo, estava ao lado, calado, sentindo a temperatura da sala subir. A discussão estava prestes a explodir. — Eu sei. Por isso Thomas está aqui. Meu objetivo não é remediar o problema, é garantir que o juiz olhe para o caso e não encontre mérito algum. — Então traga alguém que não perca — ele retrucou, fixo em mim. Thomas pigarreou, interrompendo nosso duelo de egos. — Um conhecido indicou uma advogada do interior do Texas. Estela Anderson. Nunca perdeu um caso. Soltei uma risada sarcástica. — Uma advogada de interior, Thomas? — Inclinei a cabeça, deixando meu desdém evidente. — Ganhar casos em uma cidadezinha de interior não é talento; é falta de concorrência. Provavelmente o juiz é tio dela e o promotor vende tortas na esquina. Em Manhattan, ela seria devorada antes do primeiro café. Se for tão eficiente assim, aposto que é visualmente trágica. Duvido que seja sequer apresentável. — Ela é a peça que falta — Thomas insistiu, imperturbável. — Dra. Anderson é jovem, brilhante e possui a imagem perfeita. Ela humaniza o que a mídia chama de "monstro de concreto". É nossa apólice de seguro moral. Ela passa uma imagem mais humana e empática que qualquer um de nós. Juntando isso ao seu histórico impecável, as chances de ganharmos o caso de danos ambientais são enormes. John assentiu, a satisfação evidente em seu olhar. Thomas continuou: — Estou observando o desempenho dela há meses. É sem igual. Precisamos ter ela ao nosso lado. Thomas Miller, acrescentou outro ponto à lista muito confiante em tudo que dizia: — O júri verá uma corporação multibilionária acusada de poluir um rio. Se colocarmos um dos nossos sócios de terno de dez mil dólares lá, seremos o vilão perfeito. Revirei os olhos. Aquilo tudo era um tédio corporativo. Thomas continuou sua ladainha de relações públicas, argumentando sobre como ela seria a "cara" ideal para o júri enquanto eu me recostava na cadeira de couro, impaciente para encerrar aquela reunião. John, obviamente, comprou a ideia. A imagem sempre foi o vício dele. — Traga a garota, Thomas. Se ela for metade do que diz, será o rosto bonito da nossa absolvição. — Ok! Vou até lá para garantir a eficácia da abordagem e para demonstrar a seriedade da nossa proposta. Vou observar o desempenho dela de perto em seu ambiente atual. Isso minimizaria qualquer risco. — De acordo, Thomas. Sua discrição e eficiência são inestimáveis. — Respondeu John. Thomas se levantou, já calculando a logística da viagem, pronto para embarcar rumo ao Texas para observar a tal "joia". Eu não me dei ao trabalho de disfarçar o meu desinteresse. — Façam o que quiserem — eu disse, levantando-me para encerrar aquele teatro. — Se ela tiver cérebro suficiente para decorar o roteiro e não tropeçar no próprio sotaque, eu aceito a aposta. Quero ver se esse talento compensa a falta de sobrenome. Thomas saiu apressado, alegando compromissos urgentes. John e eu seguimos para a sala de jantar. O ambiente, ostentando antiguidades de valor incalculável e obras de arte que eu mal me dava ao trabalho de olhar, era tão gélido quanto um mausoléu. O calor humano nunca foi uma variável na equação da minha família. John assumiu a cabeceira da mesa. Sônia, minha mãe, estava em seu lugar habitual: beleza impecável, submissão absoluta e vazia como um manequim. Contudo, o poder real naquela mesa residia em Mary, minha avó. Aos noventa anos, a velha era a única peça no tabuleiro que meu pai respeitava. Uma estrategista à moda antiga, apegada a tradições obsoletas e obcecada em manipular a vida de todos nós como se fôssemos extensões de sua própria vontade. Ao redor da mesa, tios e primos ocupavam espaço, movendo-se como parasitas, disputando em silêncio por um status que, no fundo, sempre pertenceu a mim. E eu me certificaria de que assim permanecesse. A conversa, previsível e medíocre, girava em torno do ranking social de Manhattan. Futilidade. Mary, impaciente atropelou minha mãe e focou o laser em mim: — Dominic, onde pretende encontrar uma noiva digna se continua descartando todas as candidatas que selecionei? O tempo é um ativo que não nos permite desperdício. Dei um sorriso desprovido de qualquer calor, o tipo que eu usava para encerrar conversas antes que começassem. — Eu não descarto, Vovó. Eu avalio. E a maioria não tem as qualidades necessárias. — O problema é a tua régua, Dom — John rosnou, o olhar pesado, tentando uma imposição de autoridade que ele sabia que não funcionava comigo. — O último affair gerou um ruído na mídia que não pretendemos repetir. Minha mãe tossiu, uma tentativa patética de mitigar a tensão. Ela arrumou uma mecha de cabelo, congelada na pose de dama perfeita, aterrorizada demais para contestar fosse quem fosse. Eu observava aquele teatro com um desdém clínico. Eles acreditavam ser a família perfeita; eu via apenas uma teia de controle, futilidades e fraqueza. Exigir que eu me casasse? Eu, um dos homens mais influentes de Manhattan, no auge do meu poder, subjugado a um casamento? Eles não tinham ideia do preço que custaria tentar me controlar.






