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07 de Janeiro — 10:32

Sábado

Não sei por que meu pai me ligou mandando ir até a empresa, é final de semana. Pensei em não ir, mas tenho certeza que ele viria até minha casa e eu não preciso que o mesmo fique aqui, não quero ninguém vindo.

Franzi o cenho ao ver Clara sentada no sofá da sala do meu pai, a mesma encarava o nada.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntei fechando a porta. Minha irmã me olhou com uma cara nada boa. — O que foi dessa vez, Clara?

— Não me chama assim. — Esbravejou. Sorri debochado me jogando ao seu lado. — Eu disse que você ia começar a perder as coisas que gosta, eu falei para você, Rafael, mas não me escutou. Você nunca escuta. — Me olhou negando.

— Do que você está falando? — Perguntei confuso.

— Você não se lembra de ter vindo até a empresa ontem? Estava totalmente bêbado. — A olhei perdido. Eu estive aqui ontem? — Mas é claro que não lembra. — Riu sem ânimo. — Às vezes parece que eu sou a mais velha. — Negou passando as mãos no rosto. — Você está ferrado, Rafael. Eu sinto muito mesmo pelas coisas terem que ser assim.

— Do que você está falando, Clara?

— É ótimo ver que não se atrasou dessa vez. — Meu pai nos interrompeu. Estava muito sério e com uns papéis nas mãos. — Pode sair, Clara.

— Boa sorte. — Minha irmã sussurrou saindo da sala.

Meu pai apontou para a cadeira em sua frente, me levantei sentando na mesma e encarei seus olhos irritados.

— Não está bêbado hoje? Que novidade. — Debochou cruzando os braços.

— Vai logo ao assunto. Do que Clara estava falando? — Respirei fundo.

— Vou ser rápido com minhas explicações. — Arrumou sua postura. — Eu te dei todas as chances de mudar como nos prometeu, Rafael, te dei um voto de confiança e disse que seria o último, disso você se lembra, não lembra?

— Sim. — Minha voz saiu baixa, arrastada.

— Pois bem, eu recebi mais multas suas. — Jogou os papéis em minha frente. Encarei os mesmos engolindo a seco. — Reclamações de barulho, semáforos ultrapassados, alta velocidade, contas de estragos a comércios. Já está passando dos limites, agora não vou mais passar a mão na sua cabeça, não quero ouvir mais desculpas de que vai mudar. Estou farto!

— Pai...

— Não deixei você falar. — Me interrompeu totalmente sério. — Você vai aprender a nos respeitar agora por mal, Rafael, já que por bem você não quis. Ao menos tem noção da preocupação que nos causa? Tem ideia de quantas noites sua mãe dorme com o telefone nas mãos com medo de receber alguma ligação sobre você, sobre ter falecido ou sofrido algum acidente?

— Desculpa. — Sussurrei passando as mãos no rosto.

— Não quero suas desculpas, Rafael, quero que aja como um homem de vinte e nove anos que você é. — O encarei. — Você vai se casar.

— O que? Não, não vou. — Gargalhei achando graça, mas a seriedade do meu pai fez com que meu corpo inteiro sentisse um arrepio. — Não pode estar falando sério.

— Nunca falei tão sério na minha vida, filho. — Sorri incrédulo me levantando. — Te dei todas as chances, omiti coisas da sua mãe para não vê-la sofrer, disse que a próxima eu tomaria medidas drásticas.

— Ah, claro, e achou uma boa ideia um casamento? — Gritei. Meu sangue estava fervendo de raiva. Casamento? Isso é sério?

— Não me interessa o que pensa, Rafael, você nos fez perder dinheiro, se quer herdar essa empresa, que contribua para isso. — Se levantou irritado. — Você vai sim se casar, vai assinar a droga desse contrato.

— Não, eu não vou assinar contrato nenhum, não vou me casar. O problema é todo seu. — Caminhei até a porta. Minhas mãos já estavam na maçaneta quando sua fala me fez parar no lugar.

— Pois bem, então chame a Clara para assinar os papéis que passam a empresa para o nome dela.

— Não pode fazer isso. — Esbravejei o encarando.

— Sim, eu posso e vou fazer. Não vou passar algo que lutei anos para erguer para um garoto mimado igual a você. Ou se casa e cria juízo, ou perde a empresa. Você quem decide. — Se sentou novamente.

— E o que te faz pensar que vou mudar com esse casamento estúpido?

— Eu conheci a mulher ontem, é uma ótima pessoa e tenho certeza que colocará algum juízo em sua cabeça. Talvez só assim, quase perdendo o que tanto quer, você entenda de uma vez o seu caminho e pare de agir como um adolescente. — Falou firme. — Esse contrato será apenas por um ano a partir do casamento, se depois disso você quiser se separar, é decisão sua, mas até lá, você vai viver com essa menina e irá aprender a ser um homem de verdade, arcar com as responsabilidades de um marido e, quem sabe se colaborar nesse tempo, dono de uma empresa.

Saí da sala sem falar nada. Quem ele acha que é para arranjar um casamento para mim? Eu sou adulto, tomo conta da minha própria vida. Não acredito que vou ficar nas mãos de uma mulherzinha qualquer, não vou permitir que ela me faça perder essa empresa, se eu perder isso também, Gabriel vai ter certeza que venceu e jamais darei esse gostinho para ele.

— Rafael, espera. — Escutei a voz da minha irmã, mas não parei. Entrei no elevador e a mesma se pôs ao meu lado.

— Você sabia disso, não sabia? Está do lado dele.

— Não, não estou. — Suspirou. — O papai nunca quis fazer isso, Rafael, sabe que ele nunca nos forçou a nada, mas você está saindo dos limites, na verdade, já saiu faz tempo.

— Não preciso de mais alguém me criticando, Clara. Se veio para isso, pode ir embora. — Fui seco.

— O que te faz pensar que estamos te criticando? Meu Deus, não percebe que queremos o seu bem? — Sua voz embargou. Odeio ver Clara chorar, mas me contive. Estava irritado demais para abraçar alguém. — O papai se viu sem saída e acha que esse contrato vai ser o melhor para você, tentei convencê-lo de ter outra ideia, mas ele está irredutível, Rafael. Eu não saberia sobre isso se não tivesse visto o e-mail que o Monteiro enviou. Ele não quer que a mamãe saiba disso.

— Monteiro? — A olhei rápido. Esse nome me é familiar.

— Foi quem deu a ideia desse contrato para o papai, Eduardo Monteiro.

— O dono da Monteiro Eletrônicos. — Clara concordou. — Já vi esse homem algumas vezes, não senti verdade em nada do que ele fala, Clara. O papai está doido em pensar que me casarei com a filha desse homem.

— Você não tem escolhas, Rafael, ainda não entendeu isso? Ou você se casa ou perde a empresa.

— Droga. — Soquei o elevador sentindo a raiva tomar conta do meu corpo. — Se estão achando que vou mudar por conta de um casamento, estão muito enganados.

— Então mude pela empresa. Não quero fazer parte disso aqui, Rafa, você sabe que meu sonho é estudar fora, amo moda e jamais seria feliz herdando a Alencar Tech, é o seu sonho, não o meu. — Olhei para minha irmã e pude sentir o medo em sua voz.

Clara nunca quis trabalhar criando dispositivos e plataformas, sempre estava desenhando roupas, sapatos, chapéis, tudo que fosse relacionado a moda.

— Tudo bem, Clara, vou fazer isso por você, mas não pense que vou viver uma vida de casado, um contrato e uma aliança não vão mudar quem eu sou.

— Quero que faça isso por você. — Me abraçou. Relutei por segundos antes de retribuir seu abraço. — Quero meu irmão de volta. — Sussurrou chorosa. Segurei a emoção beijando sua cabeça antes do elevador abrir.

— Até mais, Clara.

Caminhei até meu carro e entrei. Encarei o volante por alguns segundos e soltei um grito de raiva socando o mesmo. Não acredito que irei me casar por uma droga de contrato.

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