Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 5
10 de Janeiro — 07:13 Terça-feira Hoje é o dia de assinar a droga desse contrato e estou a ponto de surtar, pois não consegui de jeito nenhum fazer meu pai largar essa ideia maluca de me casar com a filha do Monteiro. Meu pai está realmente empenhado em tirar a empresa de mim se eu não me casar com essa mulher, não tenho escolha a não ser fazer parte dessa palhaçada e torcer para esse ano passar rápido. — Senhor Alencar, o café já está na mesa. — Sônia avisou. — Obrigado, Sônia. — Agradeci me encarando no espelho. Estou com uma camisa social preta e o terno da mesma cor. O que eu mais queria era estar jogado na minha sala, bebendo um bom whisky, mas não posso, tem um contrato de casamento esperando. Se eu fosse tão ruim, contaria para minha mãe e rapidinho esse plano iria por água abaixo, mas sei como dona Helena é, arrumaria uma briga com o meu pai e o que eu não preciso agora é carregar mais uma culpa. Desci pegando apenas um café e saí de casa, entrei no meu carro e fiquei minutos criando coragem antes de começar a dirigir a caminho da empresa. Por falta de sorte, ou não, está um trânsito horrível, provavelmente chegarei atrasado. Que pena, estou super triste por isso. --- — Vamos logo, Lívia, não podemos nos atrasar. — Meu pai esmurrou a porta do meu quarto. Suspirei me encarando no espelho. Não acredito que estou fazendo realmente isso. — Já estou indo. — Murmurei pegando minha bolsa. Abri a porta do quarto e os dois estavam parados na frente com seus ternos alinhados. — Por que estão na minha porta, parecem dois cachorros. — Revirei os olhos descendo. Consegui ouvir seus passos atrás de mim. — Para termos certeza de que não irá fugir. — Bruno falou. — Como se eu tivesse escolha de alguma coisa. — É bom ver que já entendeu que não tem. — Meu pai falou segurando a porta com as mãos, me barrando de sair. — Se fizer alguma gracinha hoje, nunca mais verá a cara da praia, está entendendo? — Concordei segurando a respiração. — Ótimo. — Abriu a porta saindo. Entrei no carro e Bruno continuava me provocando com seus deboches e insinuações. O ignorei mantendo o olhar para a estrada e não demorou muito para chegarmos na empresa, apesar de estar com um trânsito horroroso, não tivemos problemas em chegar no horário. Estava abrindo a porta do carro quando meu pai saiu às pressas abrindo a mesma, franzi o cenho mas entendi o que estava fazendo quando vimos o Sr. Alencar na porta do enorme prédio espelhado. — Lembre-se do que já conversamos. — Meu pai sussurrou entrelaçando nossos braços e caminhamos até o homem. — Artur, como é bom vê-lo. — Digo o mesmo, Eduardo. — Sorriu cumprimentando meu pai. — Lívia, está linda como sempre. — Me abraçou. — Obrigada, Sr. Alencar. — Ora, já disse que é apenas Artur, tudo bem? — Concordei sorrindo de lado. — Vou apresentar a empresa para vocês, certo? — Estamos animados para conhecer. — Bruno falou seguindo o homem. Logo tratei de me soltar do meu pai e caminhei atrás deles. A empresa realmente é incrível, conseguimos ver a criação de várias plataformas e estou encantada com o tamanho das coisas por aqui. Tudo tão espelhado, tão iluminado e bem tecnológico, hologramas nos explicam o que cada coisa é. Me impressionou. Subimos para a sala de reuniões quando acabamos o tour pelo lugar. Artur parecia impaciente, a todo momento olhava o relógio e o celular. — Está tudo bem? — Perguntei para o mesmo. O homem sorriu concordando. — Está assim, querida. Meu filho está atrasado e não me responde, apenas isso. — O trânsito está terrível, deve estar preso nele. Logo ele chega. — Meu pai tentou tranquilizá-lo. Mas é claro que estaria tudo bem para ele, contanto que esse contrato seja assinado ainda hoje, nada o irritaria. Se passaram cinco, dez minutos e nada do meu suposto noivo chegar. Já estava impaciente quando a porta se abriu e um homem de mais ou menos um metro e oitenta entrou, ele era lindo, seu rosto fechado o deixava ainda mais sexy e o cabelo é bem alinhado. Não sei se era coisa da minha cabeça mas algo nele não me é estranho, parece que já o conheço de algum lugar. — Desculpem o atraso, o trânsito está horrível. — Seu tom de voz era sério, porém cauteloso. Acredito que pelo olhar que seu pai lhe lançou. — Poderia ter avisado. — Artur forçou um sorriso. — Enfim, esse é o meu filho, Rafael. — O apresentou. — Esse é o Eduardo Monteiro, e esses são seus filhos, Bruno e a querida Lívia. O homem forçou um sorriso e seu olhar parou em mim, não deveria sentir isso mas um calor percorreu o meu corpo assim que seu olhar me investigou por inteiro. Estava quase me encantando por ele mas um estalo em minha memória fez com que quase uma careta de desgosto aparecesse. Tinha que ser esse babaca? — É um prazer conhecê-los. — Acenou com a cabeça ainda sério. — Bom, já que estão todos aqui, podemos começar? — Artur sorriu se sentando e fizemos o mesmo. Rafael ficou em minha frente, me analisando por inteiro. Enquanto meu pai lia uma parte do contrato, sustentei o olhar percebendo sua sobrancelha se arquear. Ele estava com um sorriso debochado no rosto? — Lívia? — Voltei minha atenção para meu pai. O mesmo me olhava com um sorriso camuflado, estava com raiva? — Você precisa ler essa página do contrato e assinar. — Apontou para a folha que estava em minha frente. Suspirei forçando um sorriso e comecei a ler o que estava escrito. O começo eram coisas que eu não entendo metade, tenho certeza que meu pai leu antes de me passar e me irá me falar caso for algo importante, então não dei tanta importância. Mas algumas regras me chamaram a atenção. • O casamento só poderá ser desfeito após um ano. • Terão que viver como casados, morando na mesma casa e dormindo no mesmo quarto. • Proibido qualquer relacionamento por fora que seja considerado traição. • Precisarão estar sempre juntos e agir como um casal perante outras pessoas. • Esse contrato não pode ser conhecimento de mais ninguém além das pessoas presentes nessa reunião. O descumprimento de alguma das regras resultará em uma multa de um valor X, dependendo da gravidade do ato. — Sem relacionamentos por fora? — Rafael quase gritou olhando para o pai. Parece que não foi só a mim que esse contrato desagradou. — Isso é um casamento de verdade, Rafael, o que achou que aconteceria? — Seu pai falou sério. Rafael bufou voltando a ler. Continuei a leitura também, haviam outras regras, algumas bem bobas mas nada demais. Respirei fundo várias vezes antes de assinar e Rafael me passou seu papel para eu assinar também, sua cara fechada me deixou claro que ambos estávamos sendo obrigados a fazer isso. Passei o que estava comigo para ele e assinei, engolindo a vontade de chorar por mais uma vez ser um fantoche nas mãos do meu pai e do Bruno. Que ele sempre foi o preferido eu nunca tive dúvidas, mas agora, me jogar em um casamento para benefício próprio, passou de todos os limites que eu imaginei. — Sejam bem-vindos à nossa família. — Meu pai falou com um sorriso enorme no rosto. Revirei os olhos internamente, forçando um sorriso enquanto Artur o abraçava. — Igualmente, Eduardo. — Artur sorriu. — Espero que tenhamos uma boa relação. — Teremos sim. — Bruno sorriu se pondo de pé. Encarei Rafael uma última vez antes de fazer o mesmo. Sentia seu olhar sobre mim mas o ignorei, mantendo minha atenção no seu pai. — Antes de vocês irem, o que acham de irmos até a minha sala definir a data do casamento. Os dois podem ficar aqui se conhecendo, o que acham? — Artur nos olhou. — Não poderia ter ideia melhor. — Rafael sorriu. Sabia bem o quão falso esse sorriso era, o meu foi igual. — Sem problemas. — Cocei a garganta desviando o olhar do meu pai. O mesmo estava com a mesma cara de ameaça de quando estávamos em casa. Os três saíram da sala de reuniões nos deixando sozinhos. Como não faço questão alguma de falar com esse imbecil, abri minha bolsa pegando o celular e entrei nas minhas redes sociais. Consegui sentir seu olhar sobre mim mas em momento algum o olhei. — Vai ignorar seu noivo até quando? — Seu tom de deboche me incomodou. Levantei o olhar com uma sobrancelha arqueada, deixando meu celular sobre a mesa. — No contrato não dizia que eu precisava falar com você enquanto estivermos sozinhos. — Sorri cínica seguindo seus movimentos. Rafael deu a volta na mesa, apoiando seu corpo na mesma enquanto me olhava. Engoli a seco ao perceber suas coxas grossas marcando no terno assim como seus músculos. O que tem de babaca tem de sexy. — Você está me secando muito para quem estava a segundos atrás me desprezando. — Seu sorriso era bonito. Totalmente debochado, porém bonito. — Você em si é totalmente desprezível. — Pela primeira vez o olhei. — Ora, nem conhece seu noivo para dizer isso. Que mulherzinha amarga. — Riu tocando em meu cabelo. Bati em suas mãos me afastando. — Vejo que é marrenta também. — Cruzou os braços com um sorriso divertido. — Não preciso te conhecer para saber seu tipinho. — Também cruzei meus braços e percebi seus olhos caírem para o meu decote. — Está olhando para os meus peitos? — Questionei indignada. — Como quer que eu não olhe se estão em minha visão? — Você é mesmo um babaca, não mudou nada. — Bufei indo até o bar. Peguei uma garrafinha de água e tomei metade de uma vez. — De onde me conhece para dizer com tanta certeza que sou um babaca? — Questionou ficando sério. — Não lembra mesmo, não é? É claro que não lembra, mal se mantinha em pé. — Ri sem ânimo. Seu olhar de confusão entregou que realmente Rafael não se lembrava que já havíamos nos conhecido. — Ano passado, no aniversário da Beatriz, filha dos Mendes. Você derrubou toda a sua bebida em mim, e ao invés de pedir desculpas, ofereceu dinheiro para tirar minha roupa e me limpar. — O encarei séria. Pude ver o mesmo engolir a seco parecendo se lembrar. — Pois é, você fez isso na frente de todos. E sabe o que mais aconteceu, Rafael? — Caminhei em sua direção arrumando sua gravata. — Seus amiguinhos me chamaram de vários nomes depois que te dei um tapa, você se lembra disso também ou apagou da sua memória? — Eu... é... — É isso aí, esse é o seu tipinho, Rafael, vocês fazem o que quiserem e não se importam com nada. — Olhei em seus olhos. — Ambos sabemos que não estamos assinando esse contrato por escolha própria, eu tenho meus motivos e você tem os seus. Então não vamos perder nosso tempo quando ninguém estiver olhando, não vale a pena gastá-lo com você. — Finalmente falou algo que eu concordo. Não estou aqui para transformar sua vida em mais fácil, Lívia. — Seu tom de ameaça me fez gargalhar. — Ótimo, pois também não farei da sua vida mais fácil. — Pisquei em sua direção, caminhando para fora da sala enquanto seus olhos me queimavam com raiva.






