4. Duas Linhas

Um pouco mais de um mês se passou desde aquela noite caótica.

Semanas trancada em casa, tentando fingir que Dante foi só um erro impulsivo.

E então… dez dias de atraso.

Seguro o teste entre os dedos com tanta força que quase entorto o plástico.

Uma linha.

Depois, a segunda começa a surgir devagar.

Rosa.

Nítida.

Meu corpo falha, e preciso sentar na beira da banheira para não cair.

— Deus… não…

Levo a mão até a boca, tentando respirar direito enquanto o banheiro parece pequeno demais de repente.

— Isso não pode estar acontecendo.

A porta do banheiro se abre bruscamente.

— Amy, sai logo. Precisamos ir ao…

Minha mãe para no meio da frase quando me vê com o teste na mão.

Os olhos dela descem para as duas linhas e voltam lentamente para o meu rosto.

— Seu pai precisa saber disso.

— Mãe, por favor, não…

Tento impedir, mas ela já virou as costas. Ouço a voz dela ecoando pela casa segundos depois, alta demais, quase animada.

— Grávida? Meu Deus, finalmente uma boa notícia nesta casa!

— Que droga… — resmungo, passando a mão pelos cabelos.

Quando saio do banheiro, os dois já estão me esperando na sala. Meu pai está de pé perto do sofá, segurando um copo de whisky às dez da manhã.

— Sua mãe disse que você está grávida.

O sorriso dele surge rápido demais.

— Você está carregando o herdeiro dos Whitmore. Isso resolve muita coisa, Amy. Quando Dylan assumir essa criança, ninguém vai mais lembrar da cena que você fez naquela festa.

Um nó se forma na minha garganta, e aperto as mãos uma contra a outra.

— Pai… esse bebê não é do Dylan.

O sorriso desaparece devagar. O copo para no ar.

— O quê?

— Não é do Dylan — repito, quase num sussurro. — Não tem como ser dele.

Minha mãe leva a mão até a boca, nervosa. Meu pai fica imóvel.

— Então de quem é essa criança, Amy?

— Eu não sei quem ele é. Foi só uma noite.

Ele solta uma risada seca, sem humor algum.

— Uma noite? Você destruiu as poucas chances que essa família ainda tinha por causa de uma noite?

— Pai, eu…

— Resolva isso hoje mesmo! — ele corta, elevando a voz pela primeira vez. — Porque, se insistir nessa gravidez, vai se virar sozinha.

Meu pai me olha de cima a baixo, balançando a cabeça com desprezo.

— Você não trabalha, Amy. Depende de mim para tudo. Acha que alguém ainda vai querer te ajudar quando descobrir que você está grávida de… um qualquer?

— E depois da cena que você fez naquela festa, metade da cidade ainda comenta sobre isso — minha mãe completa, como se eu precisasse ouvir mais.

Meus olhos ardem, mas seguro o choro. Meu pai se aproxima e segura meu braço, me puxando em direção à porta.

— Escolhe, Amy. Ou resolve isso… ou aprende a viver sem essa família.

Ele abre a porta e aponta para fora.

— Pai, por favor…

— Nem pra engravidar do homem certo você serviu! — ele praticamente grita antes de bater a porta com força.

Engulo em seco enquanto as lágrimas queimam meus olhos. Fico parada por alguns segundos do lado de fora, encarando a madeira escura.

Dois minutos depois, a porta se abre novamente.

Minha mãe aparece segurando minha bolsa. Os olhos dela estão vermelhos, mas a expressão continua dura.

— Ouça o seu pai, Amy — diz em voz baixa, entregando a bolsa.

Então fecha a porta outra vez, me deixando sozinha na varanda.

Seguro a bolsa com força e desço os degraus sem saber para onde ir.

E dentro de mim existe uma vida que eu nem pedi.

— Ótimo, Amy. Você realmente se superou dessa vez.

Talvez o meu pai tenha razão.

Engulo o choro e digito o endereço na barra de pesquisa do celular. Streeterville. Uma clínica de aborto.

Já estive lá uma vez, segurando a mão de uma “amiga”. Agora, sou eu quem precisa dar o passo em direção ao abismo.

Faço sinal para um táxi que se aproxima e entro em silêncio, torcendo para que meu pai não bloqueie meu cartão antes de eu conseguir… resolver isso.

Durante o trajeto, mantenho a mão sobre a barriga quase sem perceber.

Ser mãe agora não estava nos meus planos nem de longe, mas ainda assim…

— Isso parece tão errado… — sussurro, enxugando a lágrima que escapa antes que eu consiga impedir.

Alguns minutos depois, desço em frente à clínica. Quando chego na recepção, descubro que só existe vaga para o procedimento daqui a três horas.

Sem ter para onde ir, preencho a ficha e me sento em uma das cadeiras da sala de espera gelada.

O tempo passa de um jeito estranho quando você está esperando por algo que não quer que aconteça.

Penso em ir embora pelo menos umas dez vezes, mas sempre lembro da realidade de que, se eu decidir manter essa gravidez, não serei só eu na rua.

Então continuo sentada, observando os minutos passarem devagar demais.

Quando a enfermeira aparece no corredor, meu corpo inteiro fica rígido imediatamente.

— Srta. Donovan, pode me acompanhar.

Me levanto, sentindo minhas pernas tremerem. Seguro a bolsa com força enquanto sigo a enfermeira pelo corredor silencioso demais. Frio demais.

O médico me cumprimenta assim que entro na sala, enquanto a enfermeira entrega uma camisola hospitalar.

Alguns minutos depois, estou deitada na maca, praticamente nua, mantendo os olhos fixos na luz forte acima de mim para não pensar em mais nada.

— Vamos aplicar a anestesia e começar o procedimento — o médico explica, aproximando a seringa do meu braço. — Respire fundo.

Fecho os olhos com força, tentando ignorar o peso esmagando meu peito.

Mas, assim que a seringa toca minha pele, vozes alteradas ecoam do lado de fora. No segundo seguinte, a porta da sala é aberta violentamente.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App