Mundo de ficçãoIniciar sessão
🌕🐺 Rowan Blackstone,
Cresci em uma alcateia que acreditava no amor como se ele fosse uma lei irrevogável. Meus pais não eram apenas um Alfa e uma Luna cumprindo papéis; eles se amavam de verdade, com uma entrega que se espalhava pela casa como um cheiro quente em dias frios. Cresci vendo meu pai cuidar da minha mãe com uma atenção quase devocional, e vendo minha mãe sorrir como se o mundo inteiro estivesse em paz. Foi nesse cenário que aprendi o que significava liderar. Meu pai me deu a força, a espinha ereta e o peso da responsabilidade; minha mãe me deu a paciência, o silêncio e o controle. E quando Darian nasceu, a casa ganhou o barulho que faltava. Ganhei um irmão, mas também meu melhor amigo. Darian sempre foi o meu oposto perfeito: onde eu via sombras, ele via luz; enquanto eu pesava cada passo, ele corria de olhos fechados, confiando que o chão estaria lá. Ele acreditava em tudo. Aos dezesseis anos, a bruma desceu sobre a alcateia pela primeira vez para mim. Todos os rapazes da minha idade falavam sobre a bruma com o peito acelerado. Diziam que era o momento em que a Deusa Lua soprava a marca no ar, o momento em que a pele queimava e a alma finalmente reconhecia sua metade. Eu esperei. Sentei no topo da colina, fechei os olhos e deixei o ar úmido entrar nos meus pulmões. Mas nada aconteceu. O vento passou a limpo, sem cheiro, sem puxão no peito, sem resposta. Com o passar dos anos, os invernos se repetiram e a bruma voltou outras vezes. Ver meus amigos encontrarem suas Lunas, ver a faísca nos olhos deles, só tornou a minha caminhada mais pesada. Comecei a entender, em silêncio, que talvez a Lua tivesse simplesmente me pulado. Não havia tragédia nisso, só uma matemática fria: nem todo mundo nasceu para ser metade de algo. Eu passei a aceitar. Houve mulheres ao longo do caminho. Algumas de uma noite só, outras de algumas semanas, mas nenhuma deixou marca. Eu nunca menti. Nunca prometi o que não tinha para entregar e nunca deixei que nenhuma delas ficasse até o amanhecer. Era mais fácil manter as portas trancadas do que ter que explicar por que a sala estava vazia. Darian, no entanto, nunca aceitou o meu silêncio. Ele continuava me olhando com aquela fé quase irritante, dizendo que a minha hora ia chegar, que a Deusa só estava caprichando no tempo. Acho que é por isso que sempre me senti no dever de protegê-lo de tudo. O mundo é cruel demais com quem acredita demais. Na última temporada da bruma, a história se repetiu. O mesmo cheiro de terra molhada, o mesmo vazio no peito, o mesmo silêncio tenso. Cansado do olhar de pena dos anciãos e dos cochichos da alcateia, caminhei sozinho até o coração da floresta, onde as árvores fecham o céu. Foi lá que a voz dele ressoou dentro da minha cabeça. — Vai continuar fingindo que está bem com isso? — perguntou Kaelar. Kaelar vivia debaixo da minha pele desde os meus quatorze anos. Um lobo enorme, de olhos dourados e uma teimosia que superava a minha. — Já aceitei, Kaelar — respondi em pensamento, soltando o ar devagar. — Não existe Luna para mim. Esquece. — Você não aceitou porra nenhuma — ele rosnou, arranhando a minha consciência. — Você só se escondeu atrás dessa armadura porque tem medo de esperar e não receber nada. Fechei os olhos. Ele sempre sabia exatamente onde doía. — Ela vai chegar — Kaelar insistiu, o tom baixando, quase solene. — E quando a bruma trouxer o cheiro dela, Rowan... não lute contra. Não respondi. Fiquei apenas olhando para a lua cheia entre as copas das árvores, deixando o frio da noite gelando meu rosto até não sentir mais nada. Hoje, sou o Alfa. Sou respeitado pela minha força, temido pelos meus inimigos e perfeitamente sozinho. Construí uma vida funcional sobre essa solidão. Aprendi a governar sem precisar de um par. Mas, às vezes, na calada da noite, Kaelar ainda se mexe no meu peito e sussurra a mesma ordem: — Quando ela chegar, não fuja. O meu maior medo não é que ela nunca venha. É que, se ela realmente aparecer um dia... talvez eu já tenha esquecido como abrir a porta.






