CAPÍTULO 6

"Por favor, senhorita, convença o Alfa Kallian a voltar e realizar a cerimônia, ou haverá guerra entre as duas alcateias!"

"Encontrem o Alfa Kallian e tragam-no de volta! Minha filha não será humilhada. Ou eu destruirei a Alcateia SilverFangs!"

As vozes ecoavam na mente de Yaren enquanto ela caminhava pelo caminho iluminado pela lua, seguindo em direção ao portão oeste.

— Procurem por ali! Ninguém o viu sair, então ele ainda deve estar na alcateia! — gritou um dos guardas.

Yaren pensou em acelerar o passo ou se esconder para não ser vista. Mas, antes que pudesse decidir, uma mão grande cobriu sua boca.

Seu corpo entrou em alerta imediato. Ela quase se debateu, porém, no instante em que sentiu aquele cheiro familiar, reconheceu quem era.

Sem resistir, deixou-se ser puxada para trás dos arbustos densos, exatamente quando dois guardas passaram pelo local.

— Vamos verificar o portão oeste — disse um deles.

Assim que os passos se afastaram, a mão deixou sua boca lentamente.

Yaren ergueu os olhos e encontrou os olhos dourados de Kallian, fixos nela.

— Você veio.

Um leve sorriso surgiu nos lábios dele, como se aquilo já fosse uma resposta positiva a sua proposta.

Yaren desviou o olhar antes que sua vontade traísse sua razão.

— Eu... Eu vim pedir que volte ao salão… e cumpra a cerimônia.

O sorriso no rosto de Kallian desapareceu imediatamente.

Ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles até prensá-la contra o tronco da árvore.

— O que foi que você disse?

A voz saiu baixa e rouca, carregada de fúria contida.

— Cumprir a cerimônia? Eu sou o seu companheiro, Yaren! Como pode pedir que eu volte e sele um laço com outra mulhe?!

Diante da pressão do olhar dele, Yaren desviou o rosto para o lado, tentando recuperar a coragem e não vacilar. Então, fechou os punhos e voltou a encará-lo.

— Você não está aqui como meu companheiro. Está aqui como o Alfa da Silverfangs. Seu dever é formar uma aliança com a RedMoon. Se não fizer isso, o Alfa Morgan declarará guerra.

Cada palavra parecia rasgar sua própria garganta.

Mesmo assim, Kallian permaneceu inabalável.

— Então que ele declare guerra. —

Os olhos dourados dele cintilaram.

— A SilverFangs possue o melhor exército de lobisomens da região. Se a RedMoon declarar guerra, eu os enfrentarei sem hesitar. Mas não permitirei que me afastem da minha companheira outra vez.

Yaren sentiu o peito aquecer diante daquelas palavras. E, ao mesmo tempo, o medo a consumiu imediatamente.

— Você enlouqueceu? Uma guerra pode começar! Pessoas inocentes vão morrer… tudo porque um Alfa decidiu escolher uma escrava?

A expressão dele endureceu.

— Para mim, você nunca foi uma escrava. Você é minha companheira. E, desta vez, eu vou proteger o nosso vínculo, custe o que custar.

Yaren apertou os punhos. Rafayel tinha razão: Kallian estava perdendo o controle. A intensidade em sua voz, o brilho feroz em seus olhos… tudo denunciava o quanto o instinto de companheiros estava dominando sua razão.

Não adiantaria continuar argumentando daquela forma.

Yaren respirou fundo, tentando se acalmar e chamá-lo à razão uma última vez.

— A Leyla é muito mais do que minha senhora. Ela é minha melhor amiga… é como uma irmã para mim. Ela foi a única pessoa que olhou para mim como algo além de uma escrava. — Sua voz vacilou por um instante, embargada.

— Se você a abandonar hoje, será o fim dela. E eu não vou permitir que a vida dela seja destruída… ainda mais por minha causa!

Num movimento rápido, Yaren puxou a adaga presa à cintura de Kallian.

Antes que ele pudesse reagir, ela pressionou a lâmina contra o próprio pescoço.

O pânico atravessou o rosto dele imediatamente.

— Yaren!

Kallian avançou um passo, mas ela pressionou mais a lâmina contra a pele.

— Nem mais um passo!

Ele congelou.

— Baixe isso agora — a voz dele saiu num rosnado ameaçador.

Mesmo com as mãos tremendo, Yaren sustentou o olhar dele.

— Se você me levar embora, inúmeras vidas serão destruídas. Inclusive de pessoas importantes para mim. E eu não vou permitir isso! — As lágrimas escorriam livremente, mas ela não recuou.

— Se não voltar e completar a cerimônia… tudo o que levará daqui será o meu cadáver.

As mãos de Kallian se fecharam com força. As garras começaram a surgir, perfurando a própria palma.

— Alfa Kallian!

— Alfa Kallian!

As vozes dos lobisomens ecoavam pelo pátio enquanto o procuravam. Mas nenhum dos dois desviou o olhar.

— Você a ama tanto assim… a ponto de sacrificar sua própria vida, sua própria felicidade... por ela? — Ele perguntou com a voz baixa.

— Eu só estou viva graças a ela. E se precisar pagar essa dívida com a minha vida… então eu pagarei.

As presas de Kallian apareceram lentamente. Seu lobo queria assumir o controle e impedi-la de cometer tal loucura a qualquer custo. E, naquele instante, ele também queria, não deixaria ela se machucar, menos ainda na sua frente.

Yaren mal teve tempo de reagir. Um vulto passou diante dela e, no segundo seguinte, Kallian já segurava seu pulso com força suficiente para fazê-la largar a adaga.

Ela tentou se soltar, mas ele a segurou ainda mais firme.

— Me solte!

— Não — Kallian rosnou, com a voz baixa e dolorosa.

— Eu já perdi você uma vez. Não vou deixar isso acontecer de novo. —

Ele segurou o rosto dela com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-la. — Venha comigo. Eu vou proteger você. Ninguém ousará tocar em você enquanto estiver ao meu lado.

Yaren abaixou a cabeça lentamente.

— Você... Você não entende… — A voz dela saiu quebrada, quase inaudível.

— Você não entende tudo o que está em jogo. A reputação da Leyla… as vidas das pessoas da sua alcateia, desta alcateia… minha mãe… — Ela voltou a encará-lo, desesperada.

— Você faz ideia do que farão com ela se descobrirem que eu, uma escrava, fugi com o noivo da minha senhora? Eles torturarão todos os que estiverem ligados a mim até implorarem pela morte!

A respiração dela falhava entre as palavras, enquanto lágrimas rolavam em seu rosto.

— Você se tornará um renegado. Perderá tudo o que construiu. E tudo isso por quê? Por causa de um vínculo maldito que nunca deveria ter existido? Acha mesmo que eu conseguiria ser feliz ao seu lado sabendo que destruí a vida de todos ao meu redor?

Yeren sentia como se estivesse arrancando o próprio coração do peito, mas ela não podia ignorar as consequências daquela escolha.

Kallian a observava em silêncio. E Ver ela chorando daquela forma fazia algo dentro dele se despedaçar de forma dolorosa.

Ele entendia a frustração e a dor dela; entendia que, mesmo ao lado dele, ela jamais conseguiria viver em paz carregando tanta culpa, e seria eternamente infeliz...

Lentamente, ele ergueu a mão e enxugou as lágrimas dela, em um toque suave e cheio de ternura.

— Você… realmente quer que eu me case com ela?

Aquela pergunta atravessou o peito dela como uma lâmina. Ainda assim, ela forçou a resposta presa em sua garganta.

— Sim.

Kallian cerrou os dentes, procurando qualquer sinal de hesitação nos olhos dela, uma prova de que não era aquilo que ela desejava. Mas tudo o que encontrou foi dor.

Dor e a disposição angustiante de sacrificar a própria felicidade, e até a própria vida, pela paz de todos.

Ele suspirou internamente, voltando a se recompor.

— Certo… — A voz dele saiu grave e estranhamente calma, com o olhar fixo nela.

— Eu me casarei com ela.

Yaren sentiu um alívio surgir por um breve instante, mas logo ele foi esmagado por uma dor sufocante.

Talvez suas almas realmente estivessem destinadas uma à outra, só que não naquele mundo.

— Mas… —

Kallian voltou a falar, e o olhar dele se intensificou ainda mais.

— Eu tenho uma condição.

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