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2. A porta da rua é a serventia da casa

Belinda

O meu quase noivo e a minha irmã. A imagem da caixa de veludo trocando de mãos repete em loop na minha mente.

— Agora você vai ter que se ver comigo — falo para Angélica.

— Belinda, para de palhaçada! — O grito do meu pai faz meus ombros se encolherem.

No canto da cozinha americana, minha mãe, Aurora, permanece estática. O olhar dela cai para o chão de cerâmica encardida enquanto algumas lágrimas silenciosas escorrem por seu rosto redondo. Ela aperta os lábios, trêmula, sem emitir um único som para tomar meu partido.  

— Palhaçada, pai? — Minha garganta queima ao tentar segurar o choro. — Ela destruiu a minha vida! Roubou o homem que eu amo e me humilhou na frente de toda a família Duarte!

 Angélica avança pelo espaço espremido da sala. Os cantos dos lábios dela se curvam para cima, e as mãos delicadas repousam com um afago protetor sobre o tecido do vestido, bem em cima da barriga.

— Eu não roubei nada! — A voz dela sai fina, mas afiada. — Aconteceu! Nós nos apaixonamos! Ninguém comanda o coração, Belinda. Não tenho culpa se o Gustavo percebeu que me queria... que preferia a mim.

— Não tem culpa? — Uma risada histérica escapa da minha garganta. — Você sempre fez isso! Desde quando a gente dividia os brinquedos neste apartamento. Tudo o que era meu virava o seu alvo. Qual vai ser o nome disso agora? A velha inveja da “Bê-feia” atacando de novo?

— Chega, Belinda! — Meu pai dá um passo largo, o rosto vermelho de raiva. — A sua irmã está grávida e não pode passar por esse estresse. Você quer colocar a saúde do meu neto em risco com esse escândalo?

Olho para o rosto rígido dele e depois para minha mãe, que abaixa ainda mais a cabeça, evitando qualquer contato visual.

— O senhor está preocupado com o bebê, não é? O herdeiro Duarte... é só isso que importa? E eu, pai? E o que eles fizeram comigo?

— Você deveria ter segurado a situação como a Angélica fez. — Adélio esbraveja, ajeitando a armação dos óculos com um tique brusco. — Eu sou um mero subordinado naquela empresa, passo o dia me matando para tentar uma sociedade. Você sabe o que essa criança significa para o nosso futuro?

O estômago dá um nó violento. Lembro de todas as vezes em que fui relegada ao pequeno quarto de empregada, aquele cubículo abafado perto da área de serviço, sob o argumento de que eu, por ser a irmã mais velha, precisava ser "madura" e ceder o segundo quarto para a Angélica.

— Vocês são monstros... — Passo a mão pelo cabelo, dando passos curtos para trás enquanto nego com a cabeça. — Vocês não se importam comigo. Nunca fui amada por nenhum de vocês!

Meu pai nem pisca. Ele apenas aponta o dedo rígido na direção do corredor de entrada.

— Se você acha essa família tão horrível e não consegue aceitar a felicidade da sua irmã, a porta da rua é a serventia da casa.

Busco o olhar de Aurora uma última vez, mas a cabeça dela continua baixa, os ombros levemente curvados.

Corro para o meu cubículo nos fundos do apartamento. Mal há espaço entre a cama de solteiro e o armário bambo. Arrasto duas malas velhas de cima do guarda-roupa e jogo sobre o colchão. Sem dobrar nada, arranco roupas dos cabides e empurro os sapatos gastos para dentro do zíper.

Na bolsa, meu celular acende repetidamente. Mensagens das minhas amigas se acumulam na tela, perguntando se o anel é bonito. Deixo que as lágrimas molhem as minhas bochechas, arrastando o peso da bagagem pelo corredor até a sala.

— Já vai tarde — Angélica murmura do sofá, inspecionando as unhas com desdém.

O silêncio da minha mãe e o olhar duro do meu pai me acompanham até o estalo seco da fechadura às minhas costas.

O Uber cheira a estofado gasto e mofo. Apoio a testa no vidro frio da janela, vendo as fachadas conhecidas darem lugar aos fios emaranhados da Vila Monte-Claro.

O carro desacelera e encosta no meio-fio. O motorista me encara pelo retrovisor interno, ajustando a postura no banco.

— Moça, só vou até aqui.  A rua é sem saída e não vou voltar isso tudo de ré.

Engulo em seco, solto o cinto e desço. Pego minhas duas malas no porta-malas e começo a subir a ladeira. As rodinhas das malas estalam contra a calçada irregular, travando a cada três passos.

O suor cola o cabelo no pescoço. Fungo alto, tentando ignorar os olhares. Na calçada, uma senhora com bobs rosa no cabelo para com a vassoura na mão, me encarando soluçar enquanto ajusto a alça de uma das bagagens.

No fim da rua, surge o tom verde desbotado do prédio. A fachada do comércio ocupa o térreo, mas desvio pela lateral, passando pelo cheiro forte de graxa da oficina mecânica.

Subo os dois lances de escada de cimento cru, sentindo a alça da mala cortar a palma da minha mão, até parar diante da madeira cuja pintura laranja se desfaz em lascas.

Bato três vezes com os nós dos dedos.  

A porta se destrava num estalo rápido. Lauren e Lorena aparecem no vão. O sorriso de boas-vindas estampado no rosto das duas congela em fração de segundos ao verem minhas bochechas manchadas de preto, os olhos vermelhos e o par de malas jogado aos meus pés.

— Belinda? Meu Deus... — Lauren dá um passo à frente, agarrando meus ombros enquanto Lorena puxa as bagagens para dentro e tranca a porta atrás de nós.

Desabo sobre o ombro de Lauren, sentindo o tecido da blusa absorver minhas lágrimas enquanto o choro finalmente vem com força.

Uma vibração insistente ecoa de dentro da minha bolsa pendurada no braço. Ainda fungando, me afasto devagar do abraço delas. Enfio a mão no bolso interno, puxo o aparelho e encaro o brilho da tela iluminada:

De Gustavo:

Podemos conversar?

A tela acende mais uma vez com outra mensagem de Gustavo, seguida por uma chamada perdida. Passo o polegar sobre o painel e deslizo o botão para a opção Bloquear.

— Ele que se lasque com o noivado dele — murmuro, vendo a tela apagar.

Lorena me entrega uma caneca com chá de camomila, enquanto Lauren puxa uma cadeira de plástico e se senta ao meu lado, apoiando o queixo nas mãos.

Conto cada detalhe para as meninas. A expressão no rosto de Lauren muda de horror para raiva em fração de segundos.

— Você não vai voltar para aquela casa. Nem pensar — Lauren decreta. — A gente se aperta aqui, mas você não pisa mais naquele apartamento com seu pai e aquela víbora.

Lorena assente firmemente com a cabeça.

O nó na minha garganta aos poucos dá lugar a um alívio doloroso. Pela primeira vez em anos, não preciso me desculpar por existir ou por ocupar espaço.

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