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Belinda
Se o sexto sentido feminino realmente existe, o meu diz que eu saio dessa mesa noiva.
Ajeito as dobras do vestido sobre as pernas. O tampo de vidro reflete os rostos das nossas famílias reunidas. Ao meu lado, minha mãe dá três tapinhas suaves na minha mão, exibindo um sorriso. Passo os olhos pelas minhas unhas com a esmaltação branca impecável e repouso as mãos no colo para esconder o tremor sutil das pontas dos dedos.
Do outro lado do portal de vidro, no jardim de inverno, Gustavo anda em círculos. Os passos dele são curtos. A cada três segundos, os dedos sobem até o nó da gravata, afrouxando e ajustando a seda. Quando ele finalmente cruza o batente em direção à sala, vejo o volume retangular no bolso esquerdo do paletó.
O meu coração acelera.
Gustavo para ao meu lado. A respiração dele vem pesada. Ele alcança uma taça de espumante, engole metade do líquido em um único gole e arranha a garganta. Os olhos azul-piscina buscam os meus.
— Boa noite — a voz dele sai raspada, mas ele pigarreia e firma o tom. — É um privilégio ter nossas famílias reunidas. Antes de continuar, quero pedir para a Belinda ficar de pé, por favor.
Afasto a cadeira devagar. Alinho meu corpo ao dele. Minha mãe prende o ar com as mãos cruzadas sob o queixo.
— Belinda... — Gustavo se vira para mim, retirando a caixinha de veludo do bolso. — Desde que você entrou na minha vida, me tornei um homem completo. E hoje, diante de quem mais amamos, eu quero—
— EU ESTOU GRÁVIDA!
O grito estridente faz a taça da mãe de Gustavo tilintar contra o prato. Na outra ponta da mesa, Angélica se projeta para a frente. As duas mãos dela repousam firmes sobre o vestido, logo acima do ventre.
O sangue sobe quente pelas minhas bochechas. O peito arfa de raiva. Dou meio passo para o lado, pronta para apontar o dedo para a minha irmã e mandá-la sair da casa do meu noivo, mas paro. O rosto de Gustavo trava meus movimentos.
A cor simplesmente foge da pele dele. O tom rosado dá lugar a um cinza pálido. Os olhos azuis arregalados ao encarar Angélica. O peito dele sobe e desce em impulsos curtos, descontrolados.
Olho de Angélica para Gustavo. O canto dos lábios da minha irmã se eleva num deboche imperceptível para o resto da mesa. Sinto as solas dos meus pés perderem o contato com o chão.
Estendo o braço, agarro a taça de espumante mais próxima e desço o líquido de uma só vez.
— Desde quando, Gustavo? — minha voz sai baixa.
— Eu... Belinda... — A mandíbula dele treme. Gotas grossas escorrem pelo rosto. — Eu posso explicar...
O baque seco de uma cadeira estala pelo recinto. Meu pai se levanta bruscamente, apoiando as mãos sobre a mesa.
— Explicar o quê, garoto? Você vai abandonar a minha filha grávida?
Viro o pescoço devagar para o meu pai.
— O senhor está sugerindo que eu seja abandonada, pai?
— A sua irmã carrega um filho dele, Belinda! — Os olhos do meu pai se estreitam. — Deixa de ser egoísta! Ninguém comanda os sentimentos!
— O sentimento ele pode não comandar, pai — cravo os dentes —, mas o zíper da calça com certeza comanda!
— Chega, Belinda! Pare de escândalo! — minha mãe dispara, o rosto franzido em reprovação.
Dou um passo à frente, ficando a centímetros de Gustavo.
— Responda. Desde quando?
Gustavo desvia o olhar. O pai dele, Seu Tomás, fica de pé, com o pescoço inchado e avermelhado de raiva, enquanto Dona Augusta aperta um guardanapo de pano contra a testa úmida.
— Responda a ela, Gustavo! Assuma o que fez! — Seu Tomás esbraveja.
— Desde... a carona depois do bar... no seu aniversário — a voz de Gustavo sai baixa.
— NO DIA DO MEU ANIVERSÁRIO?! — O grito rasga minha garganta.
— Tomás, eu vou desmaiar... — Dona Augusta tomba sobre a cadeira.
— Você é uma vergonha, Gustavo! — Seu Tomás esmurra a mesa.
— Quero saber se você vai honrar minha família e assumir a Angélica! — meu pai volta a intervir, ignorando minhas lágrimas.
Gustavo engole em seco. Os ombros dele despencam. Ele balança a cabeça num aceno lento, caminha a passos pesados até a ponta da mesa e para diante de Angélica. Sem erguer os olhos, tira a caixinha de veludo do bolso e empurra para ela.
A minha caixa. O anel que deveria ser meu.
— Desculpa, Belinda... — ele murmura para o nada.
Os dedos de Angélica agarram o veludo com rapidez. Ela estala a tampa, retira a peça brilhante e desliza o aro pelo próprio anelar. Então, ergue o queixo e foca os olhos nos meus, abrindo um sorriso largo, triunfante e cruel.
Gustavo está noivo.
E a noiva é a minha irmã.
É... se mulheres realmente têm sexto sentido, o meu está quebrado.







