Mundo de ficçãoIniciar sessãoO restante do turno passou como um borrão de humilhação e cansaço. Minhas pernas latejavam, e meus pés pareciam estar pegando fogo dentro dos saltos altos. Eu tentava focar apenas no trabalho, mas o olhar de desprezo de Adrian Foley parecia ter ficado impregnado na minha pele.
Quando finalmente deu duas da manhã e eu entrei no vestiário para me trocar, minha única vontade era sumir. Peguei meu celular e vi três chamadas perdidas do hospital. Meu coração parou.
Liguei de volta com as mãos tremendo tanto que quase derrubei o aparelho.
— Hospital Saint Jude, boa noite — a voz da recepcionista era profissional e fria.
— Aqui é Victoria Clark, sobrinha da Marie Clark. O que aconteceu? Por que me ligaram?
— Senhorita Clark, a paciente teve uma crise respiratória severa há uma hora. Ela foi estabilizada, mas o médico ordenou a transferência imediata para a unidade semi-intensiva. O problema é que o seu depósito de garantia expirou hoje. Se o pagamento não for efetuado em até vinte e quatro horas, teremos que transferi-la para o hospital público da rede municipal.
— Não! — meu grito ecoou no vestiário vazio. — Vocês não podem fazer isso. Ela não vai aguentar a viagem, e o atendimento lá é precário. Eu... eu vou conseguir o dinheiro. Eu prometo.
— Vinte e quatro horas, senhorita Clark.
Desliguei o telefone e senti as lágrimas queimarem meus olhos. Eu não tinha o dinheiro. Eu não tinha ninguém a quem pedir. O desespero era uma mão invisível apertando meu pescoço.
Saí pelos fundos do bar, sem sequer tirar a maquiagem pesada, apenas jogando meu casaco por cima do uniforme para esconder a vergonha. O beco onde os funcionários estacionavam era escuro e cheirava a chuva iminente.
Ao longe, vi um carro preto luxuoso parado, a porta do motorista aberta. Alguém estava inclinado contra o capô.
Conforme me aproximei, reconheci o terno grafite. Era Adrian Foley. Mas ele não parecia o homem controlado de horas atrás. Sua gravata estava frouxa, o cabelo impecável estava bagunçado e ele parecia lutar para se manter em pé.
"Ele está bêbado?", pensei, confusa. Ele parecia ter bebido apenas uma dose no bar.
Pensei em passar direto, em deixá-lo ali com sua arrogância e seu whisky caro. Mas a educação que a tia Marie me deu era mais forte do que meu rancor. E, honestamente, ele parecia estar passando mal de verdade.
— Senhor Foley? — chamei, parando a alguns metros.
Ele não respondeu. Apenas soltou um rosnado baixo e cambaleou. Ele ia cair de cara no asfalto.
Corri por puro instinto. Meus braços envolveram o corpo dele, tentando sustentar seu peso. Ele era pesado, sólido como uma rocha, e o calor que emanava dele era anormal.
— Adrian? Você consegue me ouvir? — perguntei, sentindo o cheiro de whisky misturado a algo mais doce, metálico.
Ele ergueu o rosto. Os olhos azuis estavam nublados, as pupilas tão dilatadas que quase não se via a cor. Ele me encarou por um segundo, e o reconhecimento pareceu atravessar a névoa em sua mente.
— Você... a garçonete desastrada — ele murmurou, a voz rouca, quase um sussurro.
— É, a própria. — respondi com deboche. — Vem, eu vou te ajudar a entrar no carro. Onde está o seu motorista?
Eu tentei movê-lo, mas, em um movimento súbito e brutal, Adrian girou nossos corpos. Meus ombros bateram contra a lataria fria do carro com um impacto que me fez soltar um suspiro de dor. Ele prendeu meus pulsos acima da minha cabeça com uma única mão, usando o próprio corpo para me prensar contra o veículo.
A frieza dele tinha evaporado. Ele queimava.
— O que você colocou naquela bebida? — ele rosnou contra o meu pescoço, a respiração quente causando arrepios por todo o meu corpo.
— Eu não coloquei nada! Solta meus pulsos, você está me machucando!
— Você me olhou a noite toda... — ele continuou, ignorando meus protestos. A voz dele estava carregada de uma luxúria sombria que me paralisou. — Planejou isso? Atrair o CEO bêbado para o beco?
— Você é louco! Me deixa ir!
Eu tentei chutar, tentei me desvencilhar, mas ele era forte demais. Adrian colou o rosto no meu, seus olhos fixos nos meus lábios com uma fome predatória.
— Eu deveria te odiar — ele sussurrou, a voz vibrando contra a minha pele. — Mas tudo o que eu consigo pensar agora é no quanto eu quero calar essa sua boca insolente.
Antes que eu pudesse gritar por socorro, ele atacou. O beijo não foi gentil; foi uma invasão. Ele tomou meus lábios com um desespero que não condizia com o homem de gelo que eu vi no bar. Era possessivo, ardente e, para o meu horror absoluto, uma parte de mim, uma parte traidora e carente, respondeu ao toque dele.
Eu estava presa entre um homem poderoso fora de si e a conta de um hospital que eu não podia pagar. E naquele momento, sob as luzes fracas do beco, a coerência da minha vida começou a se estilhaçar completamente.
Adrian soltou um dos meus pulsos e sua mão desceu para a minha cintura, me puxando para mais perto, eliminando qualquer espaço entre nós. Eu conseguia sentir o batimento acelerado do coração dele contra o meu peito.
— Por favor... — eu tentei dizer entre o beijo, mas o som morreu na minha garganta quando ele mordeu meu lábio inferior, fazendo meu corpo inteiro estremecer.
Eu sabia que deveria lutar. Sabia que aquilo era errado de tantas formas que eu nem conseguia contar. Mas o cheiro dele, o calor e a força bruta com que ele me segurava me faziam esquecer, por um segundo, que ele era o homem que tinha me humilhado horas antes.
O destino tinha acabado de nos jogar em um abismo. E eu sentia que, se caíssemos, não haveria volta.







