Mundo de ficçãoIniciar sessão
A Caixa de Segredos...
Era um dia impossível de esquecer. Perder a mãe havia sido a dor mais difícil que Cecília enfrentara. Ela sempre foi o alicerce da família, a paz e a calmaria que preenchiam cada canto daquela casa simples. Jamais ouviria novamente o doce som da voz dela ecoando pelos cômodos: "Filha, não demore para voltar!", dizia sempre que Cecília saía com as amigas. "Filha, está na hora, levanta, meu anjo!" Ou ainda, gritando da cozinha: "Ceci, fiz o seu prato preferido!", sempre que preparava estrogonofe de carne, o favorito da filha. Agora, restavam apenas Cecília e o pai, seu Pedro. Um homem íntegro, honesto e trabalhador, que dedicava a vida às plantações de soja em uma das fazendas da região. Viviam de forma simples, mas ele nunca abriu mão de garantir à filha a oportunidade de estudar. Seu maior sonho era vê-la médica. No entanto, o dinheiro era curto , ele, trabalhador rural; a mãe, faxineira. Mesmo assim, ambos lutaram com afinco para que nada faltasse à menina. Com esforço e dedicação, Cecília se formou técnica em enfermagem. Hoje, o pai se orgulhava em dizer a todos que a filha trabalhava no hospital da cidade. Foi o máximo que puderam investir nos estudos dela e ela sabia o valor disso. Guardava parte do salário todos os meses, sonhando com o dia em que poderia cursar a faculdade e se tornar enfermeira, ou quem sabe, uma grande doutora. A lembrança do dia da formatura ainda aquecia seu coração. O brilho nos olhos dos pais, o choro emocionado do pai ao abraçá-la e dizer, com a voz embargada: — Meu peixinho se formou... "Peixinho" - era assim que ele a chamava desde pequena. — Peixinho, vamos pra escola. — Peixinho, vamos buscar sua mãe no trabalho... Cecília crescera cercada de cuidado e amor. *** Ao entrar em casa naquele dia, as lágrimas vieram sem aviso. O vazio da ausência materna parecia ecoar pelas paredes. Seus olhos percorreram o ambiente e, por um instante, ela quase acreditou ver a mãe ali - cantarolando, dançando entre as panelas, abrindo e fechando a geladeira, espalhando vida por onde passava. Na sala, o olhar de Cecília pousou sobre o porta-retrato na estante. Deixou a bolsa no sofá e pegou a foto. A mãe era linda - cabelos castanhos ondulados, pele dourada e olhos castanhos claros que pareciam sempre sorrir. Amava vestidos longos e floridos, que realçavam sua beleza natural. Uma lágrima caiu, molhando o vidro do retrato. Cecília o secou com a manga da blusa e o colocou de volta no lugar. Com o coração apertado, seguiu para o quarto, mas parou diante da porta aberta do quarto dos pais. Tudo permanecia exatamente como a mãe deixara. Sem pensar muito, começou a retirar as roupas e pertences do guarda-roupa. Decidira doar tudo à associação do bairro, queria encerrar aquele ciclo de dor, mas também guardar algumas lembranças para si. Enquanto separava as peças, ouviu o som dos passos do pai. Ele entrou, com um sorriso triste. — Ela amava esse vestido - disse, ao vê-la abraçada ao vestido florido. Cecília ergueu o olhar e respondeu, emocionada: — Eu sei... Fomos nós que compramos, lembra? Quando recebi meu primeiro pagamento. — Lembro sim. Ela ficou radiante naquele dia. Fique com ele, filha. É justo. Ela sorriu, e o pai se aproximou, beijando-lhe a cabeça. — Te amo, peixinho. — Também te amo, pai. — Vou preparar algo pra gente comer. — Está bem... Ele saiu em silêncio, deixando-a com o coração apertado. Cecília sabia o quanto ele sofria. Foram vinte e dois anos de casamento, e em apenas seis meses, o câncer arrancara deles o amor de suas vidas. Respirou fundo, enxugou as lágrimas e voltou ao que fazia. Pegou algumas bolsas antigas da época da escola para guardar as roupas da mãe. Enquanto finalizava a arrumação, percebeu que uma das gavetas da cômoda não encaixava direito. Puxou com cuidado até retirá-la completamente. Algo estava preso ali. Uma pequena caixa de sapatos de bebê, desbotada e amassada, impedia que a gaveta se fechasse. Cecília a pegou nas mãos. O coração acelerou. Abriu a tampa com delicadeza - e dentro, encontrou cartas e fotos amareladas. Reconheceu de imediato a caligrafia da mãe. As lágrimas voltaram antes mesmo que pudesse conter. Abriu uma carta, depois outra, e outra. A dor deu lugar à confusão. À revolta. Quando seu Pedro entrou no quarto, encontrou a filha caída ao chão, as cartas espalhadas, o rosto banhado em lágrimas. — Pai... - a voz dela era um sussurro desesperado. — Me diz que isso não é verdade... por favor... Ele não disse nada. Apenas a olhou - e no silêncio dele, Cecília encontrou todas as respostas. As lágrimas nos olhos do pai confirmavam o que as cartas revelavam: Cecília não era filha de Pedro Ferreira.






