Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuase um mês havia se passado desde que cheguei a São Paulo. A rotina do hospital começava a se tornar familiar para mim, embora eu ainda me sentisse pequena diante da grandiosidade da cidade.
Evie se tornou uma amiga inseparável, alguém com quem eu podia rir, desabafar e dividir minhas inseguranças sem medo de julgamentos. Era fim de tarde e nós duas estávamos sentadas em um banco do parque próximo ao hospital, descansando depois de mais um plantão exaustivo. O sol se punha lentamente, tingindo o céu de tons quentes de laranja e rosa. Havia algo de calmante em observar o movimento da cidade enquanto respirávamos fundo. — Você parece cansada hoje - observou Evie, reparando nas minhas olheiras com aquele jeito brincalhão só dela. — Não me diz que ainda está se adaptando ao caos do hospital? — Um pouco… - respondi, suspirando. — Mas o que está me preocupando mesmo é outra coisa. Ela inclinou a cabeça, curiosa. — O quê? Hesitei por um segundo, encarando o chão com vergonha. — Eu… estou precisando de um segundo emprego. Estou tentando me manter, mas São Paulo é cara demais sabe. O aluguel, a alimentação, o transporte… tudo consome meu salário. Não estou conseguindo viver só com o que ganho no hospital. Evie sorriu, um brilho esperançoso iluminando seus olhos. — Ah, eu sabia que tinha algo aí!-exclamou ela — Eu acho que posso te ajudar amiga. Bom... Minha família está precisando de alguém para cuidar da minha avó, Dona Marieta. É só no período da noite, mas o valor é bom e eu acho que já ajudaria bastante a complementar sua renda. Olhei para ela, surpresa. — Sério? Você acha que eu daria conta? — Claro que sim! - respondeu ela, rindo. — Vó Marieta não é tão difícil de lidar não. É uma senhora tranquila, carinhosa e adora conversar. Eu acho que vai ser bom pra você uma rotina diferente, um ambiente mais calmo e alguém pra bater papo. Além disso… - ela piscou, maliciosa — Talvez você acabe conhecendo gente interessante por lá. Sorri, sentindo meu coração se aquecer com a empolgação dela. Evie tinha o dom de tornar tudo mais leve. — Tá bom… eu acho que vou aceitar — respondi. — Obrigada, Evie. De verdade. — Não precisa agradecer, peixinho! - disse ela, me puxando para um abraço lateral. Desde que contei que meu pai me chamava assim, ela havia adotado o apelido com gosto. — Eu sei que você está longe de casa, e por isso eu quero que se sinta bem aqui. Prometo que vai ser bom. Enquanto nos afastávamos do parque e voltávamos para a correria da cidade, senti que, mais uma vez, Evie havia me dado um caminho quando eu não sabia qual seguir. E mal sabia eu que aquele emprego que parecia tão simples seria o ponto de partida para algo muito maior... algo que mudaria toda a minha vida. *** No dia seguinte, consegui uma folga do trabalho no hospital, pois troquei o dia com uma outra estagiária, e segui rumo a casa de Evie. Cheguei ao endereço que ela me havia passado e respirei fundo antes de bater na porta. A casa era impressionante ... uma mansão clássica, de dois andares, com janelas grandes, jardim impecavelmente cuidado e uma fachada imponente que mostrava riqueza e tradição. Havia esculturas pequenas espalhadas pelo jardim e uma fonte de pedra no centro, que parecia sussurrar histórias antigas. Meu coração acelerou. "É aqui que vou trabalhar..." pensei Bati na porta mais uma vez e ouvi passos se aproximando. Esperava que fosse a governanta, Dona Celina, uma senhora discreta e organizada que, segundo Evie, cuidava de toda a casa e atenderia qualquer visita. Mas, para minha surpresa, quem abriu a porta foi um rapaz alto, de cabelos castanhos claros e olhos azuis que me deixaram sem fôlego. — Oi... posso ajudar? - ele disse, com a voz firme, mas com um olhar curioso e intenso que parecia penetrar dentro de mim. — Oi, meu nome é Cecília. Sou amiga da Evie, ela me disse que vocês estão precisando de alguém para cuidar da Dona Marieta — respondi, engolindo em seco, tentando manter a calma. Ele arqueou uma sobrancelha, me estudando por alguns segundos. — Ah... certo. Entre, então. Dona Celina está ocupada com algumas tarefas na cozinha, mas ela vai querer conhecê-la mais tarde. Ela me pediu para atendê-la caso eu pudesse — disse ele, com um sorriso levemente irônico. Entrei, sentindo a imponência da mansão me envolver. O hall de entrada era enorme, com um lustre de cristal pendendo do teto alto. Tapetes persas cobriam o piso de mármore e grandes quadros de família adornavam as paredes. O ar tinha um perfume suave, uma mistura de flores e móveis antigos bem cuidados. Tudo ali exalava tradição, riqueza e histórias guardadas a sete chaves. — Eu sou Heitor - disse ele, estendendo a mão. — Irmão da Evie. Apertei a mão dele e senti um arrepio percorrer meu corpo. Nossos olhares se encontraram e, por um instante, o mundo pareceu desaparecer. Seus olhos azuis pareciam tentar decifrar algo dentro de mim, e eu senti uma tensão inesperada e perigosa crescer no peito. — Prazer em conhecê-lo - consegui dizer, tentando sorrir, mesmo sentindo meu coração acelerar de forma absurda. Ele sorriu de volta, mas havia algo no jeito como ele me olhava que me deixava inquieta, como se ele também percebesse a química entre nós. Tentei afastar a sensação, repetindo para mim mesma "Ele é irmão da Evie... nada mais." Heitor me conduziu pelo hall até o jardim, e eu não pude deixar de observar mais detalhes da mansão pelo caminho. Móveis antigos de madeira escura, livros antigos em estantes altas, flores frescas em vasos espalhados pelos corredores, quadros de paisagens e retratos de família olhando para mim como se guardassem segredos do passado — Dona Marieta adora companhia - disse ele, abrindo a porta do jardim. — Ela vai gostar de você, tenho certeza disse — concluiu com um olhar doce para mim. Lá estava a senhora, sentada em sua cadeira de balanço, rodeada por flores, sorrindo de forma calorosa e acolhedora. Meu coração se acalmou um pouco. — Oi, querida. Você deve ser a Cecília que a Evie falou - disse Dona Marieta com voz doce. — Venha me ajudar a escolher algumas flores para o jardim. Enquanto eu me aproximava, percebi Heitor me observando de canto de olho. Cada vez que nossos olhares se cruzavam, sentia um arrepio percorrer meu corpo, e a tensão entre nós aumentava. Tentei desviar os olhos, lembrando a mim mesma "Não é hora... ele é irmão da Evie... nada além disso." Mesmo assim, não conseguia ignorar a intensidade do olhar dele. Cada gesto, cada movimento dele parecia despertar algo em mim que eu não podia controlar. Naquele instante, percebi que minha vida estava prestes a mudar de formas que eu jamais imaginaria. *** Sentei-me ao lado de Dona Marieta, observando suas mãos enrugadas acariciar as flores do jardim. O sol da manhã aquecia nosso espaço, e havia algo de sereno naquele momento que contrastava com a intensidade do olhar de Heitor, ainda presente em minha mente. — Você tem jeito com as plantas — disse ela, sorrindo para mim. Sorri, sentindo um calor confortável no peito. — Eu gosto… é relaxante. Enquanto conversávamos, Heitor apareceu no jardim, carregando uma bandeja com chá e biscoitos. Seu olhar encontrou o meu de novo, e por um instante, tudo ao redor desapareceu. Eu tentei desviar o olhar, mas meu corpo parecia reagir sozinho, atraído por ele de uma forma que eu não podia explicar. — Aqui, trouxe algo para vocês — disse ele, colocando a bandeja na mesinha ao lado da cadeira de Dona Marieta. — Espero não atrapalhar. — De forma alguma, querido — disse Dona Marieta, olhando para ele com carinho. — Sente-se um pouco, se quiser. Heitor hesitou por um instante, como se lutasse contra algo, e então se aproximou lentamente. Sentei-me em silêncio, tentando focar nas flores e na senhora à minha frente, mas cada gesto dele, cada passo no jardim, fazia meu coração acelerar. — Cecília… — ele começou, sua voz baixa e firme. — Se precisar de qualquer coisa enquanto estiver aqui… pode me chamar. Por hora eu gostaria de saber mais sobre você, de onde você é, visto que no momento nossa governanta está ocupada, meus pais estão viajando, então eu irei fazer a entrevista com você. Sorri, tentando parecer natural, embora minhas mãos estivessem suando levemente. — Obrigada, Heitor. Eu realmente quero fazer um bom trabalho, bom... — comecei falando um pouco sobre mim, dos cursos que eu tinha... — O que te trouxe a São Paulo? Perguntou curioso Fiquei nervosa, sem saber o que responder direito. — Bom, eu vim atrás de mais oportunidades — Lógico que eu não ia dizer que estava a procura de minha família biológica, contei o básico sobre mim. Ele me olhou novamente, e desta vez havia algo mais em seu olhar, curiosidade, intensidade… talvez até algo como preocupação. Meu corpo reagiu involuntariamente, e senti um arrepio subir pela espinha. Rapidamente, olhei para as flores, tentando ignorar a proximidade dele. O resto da manhã passou entre cuidados com o jardim, pequenas conversas e o chá servido com delicadeza por Heitor. Cada movimento dele me deixava mais consciente da atração crescente, e cada sorriso da senhora Marieta me fazia sentir que eu estava exatamente no lugar certo, mesmo que estivesse caminhando sobre um terreno emocionalmente perigoso. Quando o relógio marcou meio-dia, Dona Marieta se levantou e disse que precisava descansar um pouco. Eu a ajudei a se acomodar no banco do jardim, enquanto Heitor recolhia a bandeja. — Está se saindo muito bem — disse ele, com aquele olhar intenso de novo. — Mas acho que precisamos conversar mais depois… sobre algumas coisas da casa. — concluiu ele. Senti meu coração disparar. — Certo… — murmurei, sentindo uma mistura de curiosidade e nervosismo. Enquanto ele voltava para dentro da mansão, eu fiquei ali, observando Dona Marieta adormecer com um leve sorriso nos lábios. Um pensamento insistente não saía da minha cabeça. “Quem é realmente essa família? E por que meu coração reage assim perto dele?” meu Deus... E naquele instante, soube que cada dia ali não seria apenas um trabalho. Seria também uma jornada perigosa e emocionante, cheia de segredos, atração proibida e descobertas que mudariam minha vida para sempre. E assim, sem saber, eu havia dado o primeiro passo em direção a uma história cheia de segredos, mistérios e sentimentos que eu ainda não conseguia compreender.






