Mundo de ficçãoIniciar sessãoDamien a observou em silêncio.
— E a mansão?
— É uma casa.
Richard fechou a cara.
— Scarlett, esta casa pertence à nossa família há gerações.
— Pessoas importam mais do que paredes.
Damien inclinou-se levemente para trás.
— Você não parece tão apegada ao império Monroe quanto seu pai gostaria.
— Talvez porque eu tenha visto de perto o custo de mantê-lo parecendo intacto.
— Cuidado — Richard disse em voz baixa.
Scarlett não olhou para ele.
Damien também não.
— Ela deveria ter cuidado com o quê, Richard?
O tom dele era quase suave.
Quase.
Richard pegou a taça de vinho.
— Com interpretações infantis de assuntos adultos.
Scarlett sentiu o rosto aquecer.
Mas antes que respondesse, Damien pousou os talheres com precisão.
— Curioso. Eu teria chamado de lucidez.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Scarlett olhou para ele, desconfiada.
Não queria gratidão. Não queria aliança. Não queria confundir uma frase dita contra Richard com uma frase dita a favor dela.
Damien percebeu.
— Não se engane, senhorita Monroe — disse ele. — Eu não a estou defendendo.
— Não pensei que estivesse.
— Ótimo.
— Seria decepcionante descobrir que vim preparada para enfrentar um inimigo e encontrei um cavalheiro.
Aquela sombra quase voltou à boca dele.
— Não há esse risco.
Victoria sussurrou:
— Damien, por favor...
Scarlett virou-se para a mãe.
O uso do primeiro nome não passou despercebido.
Damien também notou a reação de Scarlett.
— Sua mãe conheceu meu pai — ele disse.
Scarlett congelou.
Victoria ficou branca.
Richard falou com dureza:
— Isso é passado.
Damien encarou Richard.
— Para você, talvez.
Scarlett pousou a taça com cuidado.
— Mamãe?
Victoria apertou o guardanapo no colo.
— Eu... conheci William Blackwell em alguns eventos. Muitos anos atrás.
— Só isso?
A mãe olhou para Richard.
Esse olhar bastou.
Scarlett sentiu outra peça invisível se mover no tabuleiro.
Damien viu também. Claro que viu. Ele parecia ver tudo.
— O passado dos nossos pais tem muitas versões — disse ele. — A sua família prefere a versão silenciosa.
— E você prefere a versão em que todos os Monroe são culpados? — Scarlett perguntou.
— Prefiro a versão em que ninguém escapa só porque nasceu protegido.
— Então estamos de acordo em uma coisa.
— Qual?
— Eu também não quero que culpados escapem.
Os olhos dele se fixaram nela.
Por um segundo, a sala ficou menor.
Damien parecia procurar mentira em seu rosto. Scarlett deixou que procurasse. Não havia.
— Mesmo que isso destrua seu pai? — ele perguntou.
Richard se levantou abruptamente.
— Chega.
A cadeira arranhou o piso.
Victoria fechou os olhos.
Scarlett permaneceu sentada, mas o coração batia forte.
Damien não se moveu.
— Sente-se, Richard.
— Esta é a minha casa.
Damien olhou ao redor, lentamente, como se avaliasse as paredes, os móveis, os quadros.
— Por enquanto.
A humilhação foi silenciosa e brutal.
Richard ficou imóvel.
Scarlett percebeu que, se Damien quisesse, poderia esmagar o pai ali mesmo, sem elevar a voz. A ideia deveria assustá-la. E assustou. Mas uma parte vergonhosa dela sentiu algo próximo de justiça ao ver Richard enfrentar alguém que não podia manipular.
Richard se sentou.
O jantar continuou, mas a encenação já havia rachado.
Quando o prato principal foi retirado, Damien limpou os dedos no guardanapo e disse:
— Sugiro que conversemos sobre os termos.
Scarlett endireitou a postura.
— Aqui?
— Prefere outro palco?
— Prefiro um advogado.
— Terá um.
Richard interrompeu:
— Já selecionamos uma equipe...
— Eu selecionarei o meu — Scarlett disse.
Damien a observou.
— Sensato.
— Não preciso da sua aprovação.
— Não foi aprovação. Foi constatação.
Ela detestava que ele não parecesse ofendido. Discussões funcionavam melhor quando o outro lado demonstrava alguma humanidade. Damien Blackwell parecia uma parede de mármore: frio, bonito e insensível a golpes.
O advogado dele entrou na sala após um gesto discreto. Chamava-se Mr. Howard e tinha a expressão neutra de quem já testemunhara acordos muito piores sem piscar. Colocou uma pasta ao lado de Damien e recuou.
Damien não abriu imediatamente.
— Antes dos documentos, falemos claramente.
Scarlett cruzou as mãos sobre o colo para esconder a tensão.
— Seria uma novidade agradável.
— O casamento será público. A cerimônia acontecerá em até três semanas.
Victoria soltou um pequeno som.
Scarlett ficou gelada.
— Três semanas?
— Sim.
— Isso é absurdo.
— É eficiente.
— Casamentos não são aquisições empresariais.
— Este é.
A honestidade fria da resposta a atingiu como um tapa.
Scarlett inclinou o corpo para frente.
— Pelo menos não mente sobre ser monstruoso.
— Monstros mentem o tempo todo, senhorita Monroe. Eu prefiro economizar energia.
Richard falou:
— A rapidez é necessária para conter especulações da imprensa.
Scarlett ignorou o pai.
— Por que três semanas?
Damien respondeu:
— Porque seu pai tem credores impacientes. Porque sua mãe tem despesas médicas urgentes. Porque a fundação que você diz amar não sobreviverá a outro trimestre. E porque eu não costumo esperar mais do que o necessário por algo que já decidi tomar.
A palavra tomar percorreu a pele dela como uma ameaça.
— Eu não sou algo.
— Não. Você é alguém. Isso torna a situação mais inconveniente.
Scarlett prendeu a respiração.
Havia algo de estranho na frase. Não gentileza. Mas uma admissão mínima de que ele a via como pessoa, ainda que isso atrapalhasse seu plano.
— E o que exatamente você acha que está tomando? — ela perguntou.
Damien abriu a pasta.
— Seu nome. Sua presença pública. Sua ligação legal comigo. A influência social que ainda resta aos Monroe. E, principalmente, a satisfação de ver Richard Monroe entregar voluntariamente aquilo que ele mais tentou proteger da queda.
Scarlett sentiu náusea.
Richard desviou o olhar.
Ela olhou para o pai.
— Aquilo?
Richard não respondeu.
Damien fechou a pasta antes que ela visse os papéis.
— Ele a chama de filha quando convém. Mas sempre a tratou como o último ativo limpo da família.
Scarlett levantou-se.
A cadeira se moveu para trás com um som agudo.
— Não fale como se me conhecesse.
Damien também se levantou.
Não rápido. Não ameaçadoramente. Mas a altura dele mudou o equilíbrio da sala.
— Eu conheço homens como seu pai.
— E decidiu que isso bastava para me conhecer também?
— Decidi que bastava para usá-la.
A frase parou o ar.
Victoria levou a mão à boca.
Richard murmurou uma blasfêmia.
Scarlett sentiu o impacto inteiro, mas não desviou o olhar. Se Damien queria vê-la quebrar, não teria esse prazer.
— Obrigada pela clareza.
— Ela lhe será útil.
— E a você? Minha obediência também será útil?
— Não espero obediência.
— Não?
— Espero resistência.
Aquilo a desconcertou.
Damien deu a volta na mesa lentamente até ficar a poucos passos dela. Scarlett não recuou, embora cada instinto mandasse.
De perto, ele era ainda mais intimidador. O perfume dele era discreto, amadeirado, caro. Os olhos frios pareciam incapazes de pressa. Ele parou a uma distância socialmente aceitável, mas emocionalmente invasiva.
— Homens como Richard se escondem atrás de mulheres educadas para sorrir enquanto sangram — ele disse baixo, para que apenas ela ouvisse claramente. — Quero saber se você é uma delas.
Scarlett sentiu a raiva limpar o medo.
— Então observe bem, senhor Blackwell. Porque se acha que vou sorrir enquanto você me usa para ferir meu pai, vai se frustrar.
Os olhos dele desceram brevemente para sua boca e voltaram aos olhos.
Foi rápido.
Rápido demais para ser desejo claro.
Mas não rápido o suficiente para ela deixar de perceber.
— Talvez — ele disse.
— Talvez?
— Talvez a frustração seja suportável.
O coração de Scarlett falhou por um instante, e isso a enfureceu ainda mais.
Não.
Não haveria atração. Não haveria curiosidade. Não haveria nada além de sobrevivência.Ela deu um passo para trás.
— Eu quero ler o contrato.
Damien permaneceu onde estava.
— Lerá.
— Com meu advogado.
— Sim.
— E quero garantias médicas por escrito para minha mãe, independentemente do que aconteça entre nós.
Algo passou pelo rosto dele. Uma sombra de aprovação, talvez.
— Continue.
Scarlett percebeu que todos na sala a observavam, mas falou apenas com Damien.
— A fundação continuará ativa por pelo menos cinco anos, com orçamento protegido.
Richard fez um movimento.
— Scarlett, isso não estava...
— Cale a boca, pai.







