Capítulo 6 — O Primeiro Limite Entre Eles

Damien a observou em silêncio.

— E a mansão?

— É uma casa.

Richard fechou a cara.

— Scarlett, esta casa pertence à nossa família há gerações.

— Pessoas importam mais do que paredes.

Damien inclinou-se levemente para trás.

— Você não parece tão apegada ao império Monroe quanto seu pai gostaria.

— Talvez porque eu tenha visto de perto o custo de mantê-lo parecendo intacto.

— Cuidado — Richard disse em voz baixa.

Scarlett não olhou para ele.

Damien também não.

— Ela deveria ter cuidado com o quê, Richard?

O tom dele era quase suave.

Quase.

Richard pegou a taça de vinho.

— Com interpretações infantis de assuntos adultos.

Scarlett sentiu o rosto aquecer.

Mas antes que respondesse, Damien pousou os talheres com precisão.

— Curioso. Eu teria chamado de lucidez.

O silêncio que se seguiu foi diferente.

Scarlett olhou para ele, desconfiada.

Não queria gratidão. Não queria aliança. Não queria confundir uma frase dita contra Richard com uma frase dita a favor dela.

Damien percebeu.

— Não se engane, senhorita Monroe — disse ele. — Eu não a estou defendendo.

— Não pensei que estivesse.

— Ótimo.

— Seria decepcionante descobrir que vim preparada para enfrentar um inimigo e encontrei um cavalheiro.

Aquela sombra quase voltou à boca dele.

— Não há esse risco.

Victoria sussurrou:

— Damien, por favor...

Scarlett virou-se para a mãe.

O uso do primeiro nome não passou despercebido.

Damien também notou a reação de Scarlett.

— Sua mãe conheceu meu pai — ele disse.

Scarlett congelou.

Victoria ficou branca.

Richard falou com dureza:

— Isso é passado.

Damien encarou Richard.

— Para você, talvez.

Scarlett pousou a taça com cuidado.

— Mamãe?

Victoria apertou o guardanapo no colo.

— Eu... conheci William Blackwell em alguns eventos. Muitos anos atrás.

— Só isso?

A mãe olhou para Richard.

Esse olhar bastou.

Scarlett sentiu outra peça invisível se mover no tabuleiro.

Damien viu também. Claro que viu. Ele parecia ver tudo.

— O passado dos nossos pais tem muitas versões — disse ele. — A sua família prefere a versão silenciosa.

— E você prefere a versão em que todos os Monroe são culpados? — Scarlett perguntou.

— Prefiro a versão em que ninguém escapa só porque nasceu protegido.

— Então estamos de acordo em uma coisa.

— Qual?

— Eu também não quero que culpados escapem.

Os olhos dele se fixaram nela.

Por um segundo, a sala ficou menor.

Damien parecia procurar mentira em seu rosto. Scarlett deixou que procurasse. Não havia.

— Mesmo que isso destrua seu pai? — ele perguntou.

Richard se levantou abruptamente.

— Chega.

A cadeira arranhou o piso.

Victoria fechou os olhos.

Scarlett permaneceu sentada, mas o coração batia forte.

Damien não se moveu.

— Sente-se, Richard.

— Esta é a minha casa.

Damien olhou ao redor, lentamente, como se avaliasse as paredes, os móveis, os quadros.

— Por enquanto.

A humilhação foi silenciosa e brutal.

Richard ficou imóvel.

Scarlett percebeu que, se Damien quisesse, poderia esmagar o pai ali mesmo, sem elevar a voz. A ideia deveria assustá-la. E assustou. Mas uma parte vergonhosa dela sentiu algo próximo de justiça ao ver Richard enfrentar alguém que não podia manipular.

Richard se sentou.

O jantar continuou, mas a encenação já havia rachado.

Quando o prato principal foi retirado, Damien limpou os dedos no guardanapo e disse:

— Sugiro que conversemos sobre os termos.

Scarlett endireitou a postura.

— Aqui?

— Prefere outro palco?

— Prefiro um advogado.

— Terá um.

Richard interrompeu:

— Já selecionamos uma equipe...

— Eu selecionarei o meu — Scarlett disse.

Damien a observou.

— Sensato.

— Não preciso da sua aprovação.

— Não foi aprovação. Foi constatação.

Ela detestava que ele não parecesse ofendido. Discussões funcionavam melhor quando o outro lado demonstrava alguma humanidade. Damien Blackwell parecia uma parede de mármore: frio, bonito e insensível a golpes.

O advogado dele entrou na sala após um gesto discreto. Chamava-se Mr. Howard e tinha a expressão neutra de quem já testemunhara acordos muito piores sem piscar. Colocou uma pasta ao lado de Damien e recuou.

Damien não abriu imediatamente.

— Antes dos documentos, falemos claramente.

Scarlett cruzou as mãos sobre o colo para esconder a tensão.

— Seria uma novidade agradável.

— O casamento será público. A cerimônia acontecerá em até três semanas.

Victoria soltou um pequeno som.

Scarlett ficou gelada.

— Três semanas?

— Sim.

— Isso é absurdo.

— É eficiente.

— Casamentos não são aquisições empresariais.

— Este é.

A honestidade fria da resposta a atingiu como um tapa.

Scarlett inclinou o corpo para frente.

— Pelo menos não mente sobre ser monstruoso.

— Monstros mentem o tempo todo, senhorita Monroe. Eu prefiro economizar energia.

Richard falou:

— A rapidez é necessária para conter especulações da imprensa.

Scarlett ignorou o pai.

— Por que três semanas?

Damien respondeu:

— Porque seu pai tem credores impacientes. Porque sua mãe tem despesas médicas urgentes. Porque a fundação que você diz amar não sobreviverá a outro trimestre. E porque eu não costumo esperar mais do que o necessário por algo que já decidi tomar.

A palavra tomar percorreu a pele dela como uma ameaça.

— Eu não sou algo.

— Não. Você é alguém. Isso torna a situação mais inconveniente.

Scarlett prendeu a respiração.

Havia algo de estranho na frase. Não gentileza. Mas uma admissão mínima de que ele a via como pessoa, ainda que isso atrapalhasse seu plano.

— E o que exatamente você acha que está tomando? — ela perguntou.

Damien abriu a pasta.

— Seu nome. Sua presença pública. Sua ligação legal comigo. A influência social que ainda resta aos Monroe. E, principalmente, a satisfação de ver Richard Monroe entregar voluntariamente aquilo que ele mais tentou proteger da queda.

Scarlett sentiu náusea.

Richard desviou o olhar.

Ela olhou para o pai.

— Aquilo?

Richard não respondeu.

Damien fechou a pasta antes que ela visse os papéis.

— Ele a chama de filha quando convém. Mas sempre a tratou como o último ativo limpo da família.

Scarlett levantou-se.

A cadeira se moveu para trás com um som agudo.

— Não fale como se me conhecesse.

Damien também se levantou.

Não rápido. Não ameaçadoramente. Mas a altura dele mudou o equilíbrio da sala.

— Eu conheço homens como seu pai.

— E decidiu que isso bastava para me conhecer também?

— Decidi que bastava para usá-la.

A frase parou o ar.

Victoria levou a mão à boca.

Richard murmurou uma blasfêmia.

Scarlett sentiu o impacto inteiro, mas não desviou o olhar. Se Damien queria vê-la quebrar, não teria esse prazer.

— Obrigada pela clareza.

— Ela lhe será útil.

— E a você? Minha obediência também será útil?

— Não espero obediência.

— Não?

— Espero resistência.

Aquilo a desconcertou.

Damien deu a volta na mesa lentamente até ficar a poucos passos dela. Scarlett não recuou, embora cada instinto mandasse.

De perto, ele era ainda mais intimidador. O perfume dele era discreto, amadeirado, caro. Os olhos frios pareciam incapazes de pressa. Ele parou a uma distância socialmente aceitável, mas emocionalmente invasiva.

— Homens como Richard se escondem atrás de mulheres educadas para sorrir enquanto sangram — ele disse baixo, para que apenas ela ouvisse claramente. — Quero saber se você é uma delas.

Scarlett sentiu a raiva limpar o medo.

— Então observe bem, senhor Blackwell. Porque se acha que vou sorrir enquanto você me usa para ferir meu pai, vai se frustrar.

Os olhos dele desceram brevemente para sua boca e voltaram aos olhos.

Foi rápido.

Rápido demais para ser desejo claro.

Mas não rápido o suficiente para ela deixar de perceber.

— Talvez — ele disse.

— Talvez?

— Talvez a frustração seja suportável.

O coração de Scarlett falhou por um instante, e isso a enfureceu ainda mais.

Não.

Não haveria atração.

Não haveria curiosidade.

Não haveria nada além de sobrevivência.

Ela deu um passo para trás.

— Eu quero ler o contrato.

Damien permaneceu onde estava.

— Lerá.

— Com meu advogado.

— Sim.

— E quero garantias médicas por escrito para minha mãe, independentemente do que aconteça entre nós.

Algo passou pelo rosto dele. Uma sombra de aprovação, talvez.

— Continue.

Scarlett percebeu que todos na sala a observavam, mas falou apenas com Damien.

— A fundação continuará ativa por pelo menos cinco anos, com orçamento protegido.

Richard fez um movimento.

— Scarlett, isso não estava...

— Cale a boca, pai.

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