Mundo de ficçãoIniciar sessãoMesmo assim, não baixou o queixo.
Damien Blackwell não sorriu.
— Senhor Monroe — disse ele.
Sua voz era baixa, controlada, com um tom grave que parecia feito para não precisar se repetir.
Richard avançou, de mão estendida.
— Damien. Seja bem-vindo.
Damien olhou para a mão de Richard por meio segundo antes de aceitá-la. O aperto foi breve. Civilizado. Gelado.
— Não confundiria isto com boas-vindas.
Richard ficou rígido.
Scarlett percebeu.
A primeira frase de Damien Blackwell dentro da mansão Monroe já tinha sido uma lâmina.
Victoria aproximou-se com elegância cautelosa.
— Senhor Blackwell.
Pela primeira vez, algo mínimo atravessou a expressão de Damien. Não suavidade. Reconhecimento, talvez. Ou memória.
Ele inclinou a cabeça.
— Senhora Monroe.
Victoria empalideceu um pouco, mas manteve a postura.
Então os olhos de Damien voltaram para Scarlett.
O silêncio entre eles pareceu alongar o hall inteiro.
Richard pigarreou.
— Damien, esta é minha filha, Scarlett Monroe.
Como se ele já não soubesse.
Como se ela já não estivesse impressa em algum contrato, analisada, avaliada e escolhida por razões que nada tinham a ver com ela.
Damien deu um passo na direção dela.
Scarlett obrigou-se a permanecer parada.
Ele estendeu a mão.
— Senhorita Monroe.
Formal. Distante. Quase ofensivamente educado.
Scarlett colocou a mão na dele.
O contato durou apenas alguns segundos, mas foi suficiente para ela notar duas coisas: a pele dele era quente, apesar de todo o gelo ao redor; e o aperto, embora firme, não tentou esmagá-la.
Damien inclinou-se levemente sobre sua mão.
Não beijou. Não sorriu.
Apenas olhou nos olhos dela e disse:
— Finalmente.
A palavra atingiu Scarlett de forma estranha.
Não havia desejo nela.
Havia espera.
Como se Damien Blackwell tivesse aguardado aquele momento por muito tempo.
Scarlett retirou a mão.
— Eu diria o mesmo, mas seria mentira.
Richard inspirou com força.
Victoria fechou os olhos por um segundo.
Damien não reagiu imediatamente. Apenas a observou com uma atenção mais afiada.
— Prefere honestidade a boas maneiras?
— Prefiro não fingir entusiasmo pelo homem que veio negociar minha vida.
A sala pareceu perder temperatura.
O advogado ao lado de Damien baixou os olhos para a pasta. O segurança não se moveu. Richard abriu a boca, provavelmente para repreendê-la, mas Damien ergueu ligeiramente uma mão.
Um gesto pequeno.
Richard se calou.
Scarlett viu aquilo.
Viu e entendeu.
Damien Blackwell não precisava levantar a voz para dominar um ambiente. Bastava permitir ou impedir que outros falassem.
— Isso é promissor — disse Damien.
Scarlett estreitou os olhos.
— Para quem?
— Para mim.
— Que sorte a sua.
Dessa vez, algo quase imperceptível tocou a boca dele. Não era um sorriso. Era a sombra de uma reação que morreu antes de nascer.
Richard interveio, tenso.
— Talvez devêssemos passar para a sala de jantar.
— Ainda não — disse Damien.
Richard parou.
Scarlett sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
Damien olhava para ela, não para Richard.
— Antes, quero saber se a senhorita Monroe entende por que estou aqui.
Scarlett sustentou o olhar dele.
— Meu pai disse que você pretende quitar as dívidas da família em troca de um casamento.
— Seu pai simplifica as coisas quando lhe convém.
— Então complique.
Victoria sussurrou:
— Scarlett...
Mas Scarlett não tirou os olhos de Damien.
Ele pareceu avaliá-la por mais um instante.
— Estou aqui porque Richard Monroe me deve muito mais do que dinheiro.
A frase caiu como pedra.
Richard ficou pálido de raiva.
— Damien, acredito que esta não seja a hora...
Damien virou o rosto lentamente para ele.
— Eu decido a hora.
Três palavras.
Richard se calou de novo.
E Scarlett, apesar do medo, sentiu um lampejo de satisfação ao ver o pai ser reduzido ao silêncio que tantas vezes impusera aos outros.
Damien voltou a encará-la.
— Você sabe quem foi William Blackwell?
Scarlett respondeu com cuidado.
— Seu pai.
— Sabe o que aconteceu com ele?
— Sei o que a imprensa publicou.
— Então não sabe quase nada.
A crueldade tranquila daquela frase não parecia dirigida a ela, mas a algo maior. À história inteira. À casa. Ao sobrenome.
— E você pretende me contar? — Scarlett perguntou.
— Não hoje.
Ela soltou uma risada baixa.
— Conveniente. Todos nesta casa parecem especialistas em esconder verdades e exigir que eu aceite consequências.
Damien ficou imóvel.
Dessa vez, os olhos dele mudaram. Foi sutil, mas Scarlett viu. Um ponto de interesse real, talvez até surpresa.
— Você se considera inocente?
— Eu sou inocente.
— É uma Monroe.
— Isso não é crime.
— Depende de quem conta a história.
Scarlett sentiu a raiva subir.
— Se tem acusações contra meu pai, faça-as contra ele.
— Eu farei.
Richard deu um passo à frente.
— Damien.
— Mas algumas dívidas são familiares — continuou Damien, ignorando-o. — Alguns nomes sobrevivem porque todos ao redor fingem não ver o sangue na prataria.
Victoria levou a mão ao peito.
Scarlett percebeu e se colocou ligeiramente à frente da mãe.
O gesto não escapou a Damien. Os olhos dele desceram brevemente para o movimento, depois voltaram ao rosto dela.
— Está tentando protegê-la de mim? — ele perguntou.
— De qualquer um que a machuque.
— Inclusive seu pai?
O golpe foi certeiro demais.
Scarlett não respondeu.
Damien pareceu satisfeito não com a dor dela, mas com a confirmação de que havia tocado uma verdade.
— Interessante.
— Não sou um estudo de caso para sua diversão, senhor Blackwell.
— Não. Você é bem mais importante do que isso.
Scarlett odiou o arrepio que aquela frase provocou.
Não era romântica.
Era ameaçadora.
Richard forçou uma risada.
— Todos estamos tensos. É natural. Vamos jantar e conversar com calma.
Damien finalmente desviou o olhar de Scarlett.
— Sim. Vamos manter as aparências, Richard. Imagino que seja uma especialidade sua.
O rosto de Richard ficou vermelho.
Victoria apertou discretamente o braço de Scarlett.
A sala de jantar havia sido preparada para quatro pessoas, embora o advogado de Damien permanecesse na casa. A mesa longa demais para tão poucos convidados parecia uma ironia cruel. Pratos de porcelana, taças finas, talheres de prata e arranjos baixos de flores brancas formavam uma cena impecável, quase fúnebre.
Damien sentou-se à direita de Richard. Scarlett ficou em frente a ele, com Victoria ao seu lado.
Durante os primeiros minutos, o jantar foi uma tortura educada.
O primeiro prato foi servido. Ninguém parecia com fome.
Richard tentou falar sobre mercados internacionais. Damien respondeu com frases curtas que matavam qualquer tentativa de cordialidade. Victoria comentou sobre o clima. Damien foi educado, mas distante. Scarlett permaneceu em silêncio, observando.
Era impossível não observar.
Damien Blackwell comia pouco, bebia menos ainda e parecia prestar atenção a tudo. Nada em seu rosto denunciava desconforto. Ele não mexia no guardanapo, não tamborilava os dedos, não precisava preencher pausas. O silêncio parecia pertencer a ele.
Scarlett havia conhecido homens ricos a vida inteira. Homens que confundiam dinheiro com personalidade, herança com mérito, arrogância com força. Damien era diferente. Não porque fosse melhor. Talvez fosse pior.
Ele não precisava provar poder.
Ele o exercia respirando.
— Senhorita Monroe — disse ele de repente.
Scarlett ergueu os olhos.
— Sim?
— Seu pai me disse que você administra a fundação da família.
Richard interrompeu:
— Scarlett ajuda em alguns projetos sociais.
Ela olhou para o pai.
— Eu administro.
Damien não olhou para Richard. Manteve os olhos nela.
— Com bons resultados?
— Considerando que o orçamento foi cortado sem aviso e que doadores começaram a fugir quando os rumores sobre nossas finanças surgiram, sim.
Richard pousou os talheres com força.
— Scarlett.
Damien ergueu uma sobrancelha mínima.
— Você fala dos problemas da família à mesa?
— Prefere que eu finja que as flores são pagas com dinheiro que ainda temos?
Victoria respirou fundo.
Richard parecia prestes a explodir, mas Damien falou antes.
— E o que faria para salvar a fundação?
Scarlett não esperava a pergunta.
— Por que quer saber?
— Curiosidade.
— Duvido que você desperdice tempo com curiosidade.
— Correto. Reformulo: quero avaliar o que você considera digno de salvação.
Scarlett segurou a taça de água, mas não bebeu.
— A fundação dá bolsas de estudo para meninas que não nasceram com as mesmas portas abertas que eu. Algumas querem estudar medicina. Direito. Engenharia. Algumas só precisam sair de casas onde ninguém acredita nelas. Isso é digno de salvação.







