Contrato sem sexo?

Milena 

O cansaço daquele dia de loucura finalmente bateu com tudo no meu corpo. Depois que o Pierre finalmente juntou as suas mil araras de roupas, os sapatos de salto que custavam um rim e foi embora com a sua equipe barulhenta, a mansão do Ulisses voltou a ter aquele silêncio de museu. Eu já não aguentava mais ver pano na minha frente.

 Tirei aquele vestido preto com a fenda gigante, limpei o excesso de maquiagem pesada do rosto e coloquei uma roupa que as funcionárias tinham deixado no meu quarto: uma calça de alfaiataria bem soltinha, de um tecido chique que parecia caríssimo, e uma blusa de tricô leve na cor creme. Continuava elegante, digna da casa de um bilionário, mas pelo menos eu conseguia respirar e mexer os meus dedos dos pés sem chorar de dor.

Desci os degraus daquela escadaria monumental devagar, apreciando o toque do piso morno nos meus pés descalços, e me joguei no sofá de couro da sala de estar. Apoiei a cabeça no encosto fofinho, soltando um suspiro que veio lá do fundo do meu peito. 

Que vinte e quatro horas tinham sido aquelas! Ontem eu era uma noiva boba chorando em cima de um tapete de igreja por causa de um ex-namorado traste; hoje eu estava morando de favor no palácio do homem mais temido do país. 

Se alguém me contasse isso na semana passada, eu ia mandar a pessoa direto para o hospício — o mesmo hospício, inclusive, onde a minha querida família queria me trancar.

Eu estava quase cochilando, curtindo o quentinho da lareira que ainda estava acessa, quando ouvi o barulho firme de passos vindo do corredor. Abri os olhos e vi Ulisses entrando na sala. Ele já tinha tirado o paletó do terno, estava apenas com a camisa social com as mangas dobradas até o cotovelo e segurava um maço de papéis grampeados na mão esquerda. O rosto dele continuava com aquela expressão séria de quem comia contratos de milhões no café da manhã.

 Ele caminhou na minha direção, os olhos escuros cravados em mim, e sentou-se bem ao meu lado no sofá, quebrando o meu espaço pessoal e trazendo aquele cheiro maravilhoso de perfume importado para perto.

Ele tirou uma caneta preta e dourada muito chique de dentro do bolso da calça e colocou em cima da mesa de centro, bem na minha frente. Depois, virou o maço de papéis e bateu de leve com os dedos neles.

— Acho que já está na hora de oficializar o nosso acordo, Milena. — ele falou, a voz saindo bem grave e rouca, preenchendo o espaço entre nós. — Aqui está o nosso contrato de um ano de casamento.

Eu olhei para a pilha de folhas no meu colo e franzi a testa, assustada com a grossura daquele contrato. Parecia que eu estava prestes a comprar uma empresa inteira, e não a fingir que era esposa de alguém.

— Credo, Ulisses! Por que tantas páginas só para um casamento de mentira? — perguntei, segurando o papel e dando uma folheada rápida nas folhas que pareciam não acabar mais. 

— A gente só vai mentir para o povo por doze meses. Precisa de uma floresta inteira para escrever isso?

— São algumas cláusulas de segurança, Milena — ele respondeu, com um sorrisinho sarcástico brotando no canto dos lábios, cruzando os braços fortes e se encostando no sofá para me ver ler. 

— Eu sou um homem de negócios. Não dou nenhum passo sem me proteger de todos os lados possíveis. Recomendo que leia tudo com atenção.

Ajeitei a minha postura no sofá e comecei a passar os olhos da primeira página em diante. A linguagem era bem jurídica, cheia de termos difíceis que me davam até dor de cabeça, mas conforme eu ia lendo, meu queixo ia caindo aos poucos. O homem tinha pensado em absolutamente tudo. 

Tinha regra para que horas eu devia aparecer em público, regra de como falar com os jornalistas, regra até sobre o que eu podia ou não comer em jantares oficiais para não passar vergonha.

 Eu ia praticamente deixar a minha vida inteira nas mãos dele por um ano inteiro. Eu era quase uma propriedade do Grupo Albuquerque!

Mas o meu coração deu um pulo de verdade quando eu cheguei na última página.

 Meus olhos travaram em um número específico que parecia brilhar no papel: a cláusula número sessenta e nove. 

Li o texto em voz alta, sem conseguir me conter, sentindo um calor absurdo subir direto do meu pescoço para as minhas bochechas, que devem ter ficado vermelhas como dois tomates.

— Cláusula 69... Sem sexo ou contato físico íntimo, a menos que exista um acordo mútuo e explícito entre as duas partes — falei, a voz falhando um pouco no final. Olhei para ele de lado, tentando manter a pose de mulher resolvida, mas por dentro eu estava em pânico.

 — Sério mesmo, Ulisses? Cláusula sessenta e nove para falar de sexo? Você fez isso de propósito, não foi?

Ulisses nem piscou. Ele continuou me encarando com aqueles olhos escuros e profundos, mas o sorrisinho dele aumentou, mostrando que ele estava adorando ver o meu nervosismo.

— É apenas um contrato profissional, Milena. E contratos profissionais precisam de limites bem claros — ele explicou, a voz saindo mansa, mas cheia de uma provocação que me fez arrepiar. — Mas fico feliz que você tenha achado graça do número.

— É óbvio que não teria sexo envolvido nesse acordo! — disparei logo, tentando cortar o barato dele e gesticulando com as mãos. — Eu acabei de fugir de um casamento, a última coisa que eu quero na vida é me meter na cama com o meu marido de mentira. Isso nem precisava estar escrito aqui.

— Ótimo. É melhor assim, mantém as coisas mais profissionais e evita que você se apaixone pelo seu salvador — ele provocou, o olhar descendo rapidinho para a minha boca antes de voltar para os meus olhos. — Assine logo.

Senti o meu coração acelerar tanto que achei que ele fosse sair pela boca. Aquele homem me irritava e me atraía ao mesmo tempo, uma mistura perigosa que eu não sabia como controlar. 

Peguei a caneta chique da mesa com os dedos meio trêmulos, fui até a última linha do papel e assinei o meu nome: Milena de Moraes. Pronto. O meu pacto com o diabo dos estava oficialmente selado.

Assim que larguei a caneta, Ulisses enfiou a mão no bolso da calça social e tirou uma caixinha de veludo preto, pequena e quadrada. Ele abriu a tampa com um estalo seco. O meu ar sumiu na mesma hora. 

Dentro da caixinha, havia um anel de ouro branco com um diamante enorme e brilhante no centro, cercado por várias pedrinhas menores. Aquela joia sozinha devia valer mais do que uma frota de carros inteira.

— Um contrato precisa de símbolos, princesa. — ele disse, pegando a minha mão esquerda. Os dedos dele eram quentes e firmes contra os meus. Ele deslizou o anel de diamante pelo meu dedo anelar com uma lentidão que me fez prender a respiração. O peso do anel era real, assim como o perigo de estar tão perto dele. — Agora o mundo vai saber que você tem dono.

Afastei a minha mão da dele assim que o anel ficou perfeitamente encaixado, tentando disfarçar o choque e o calor que o toque dele tinha deixado na minha pele. 

Fiquei olhando para o diamante brilhando sob a luz da sala, me sentindo uma verdadeira rainha do crime. O Pedro ia ter um ataque cardíaco fulminante quando visse aquela joia no meu dedo.

Ulisses se recostou no sofá de novo, recuperando a sua postura de chefe implacável, e cruzou as pernas.

— Agora que o papel está assinado e você já está devidamente marcada, preste atenção — ele começou, o tom de voz ficando sério de novo. 

— O nosso primeiro grande teste será no jantar de gala do Grupo Albuquerque, com todos os investidores e outras empresas do ramo. Vai ser o evento mais importante do ano. É fundamental que as pessoas comecem a ver a gente como um casal apaixonado e legítimo desde o primeiro segundo. O Pedro vai descobrir que perdeu você para mim da pior forma possível: através da imprensa.

Eu olhei para o anel no meu dedo, e me lembrei das fotos das conversas do Pedro que ainda estavam frescas na minha mente, e senti aquela fúria boa voltar a tomar conta do meu peito. A Milena boazinha estava enterrada e a nova Milena mal podia esperar para começar o show.

— Eu estou ansiosa para esse jantar, Ulisses — respondi, dando um sorriso largo, cheio de malícia e com uma pontinha de deboche. — Mal posso esperar para pisar naquele salão de braço dado com você e ver o império do meu ex-noivo começar a desmoronar peça por peça.

Ulisses me olhou com uma aprovação silenciosa que me fez queimar por dentro, mas quando ele se levantou e me deixou sozinha na sala, olhando fixamente para o diamante no meu dedo, uma dúvida terrível começou a martelar na minha mente.

Me fazendo pensar se eu realmente seria forte o suficiente para resistir ao charme daquele homem perigoso ou se eu acabaria quebrando a cláusula número sessenta e nove antes desse casamento acabar.

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