A transformação

Milena

Ulisses desligou o celular na cara do Pedro sem a menor cerimônia e jogou o aparelho em cima da mesa, bem do lado do meu prato de frutas. Ele continuava com aquele sorrisinho de canto, como se estivesse saboreando a melhor piada do mundo. 

Eu estava estática, com os olhos arregalados, chocada com a audácia do homem. O Pedro devia estar tendo um treco de verdade do outro lado da linha, e pensar nisso me dava uma sensação estranha de alívio.

— Você está bem, Milena? — Ulisses perguntou, me encarando com aqueles olhos escuros e intensos. A voz dele era mansa, mas ainda cheia de poder. — O seu ex-noivo parece um pouco histérico logo cedo.

— Eu estou ótima — respondi, e juro que um sorriso de verdade brotou nos meus lábios pela primeira vez em vinte e quatro horas. — Para falar a verdade, foi muito bom ouvir a voz dele assim, tão assustado. O Pedro sempre se achou o dono do mundo, o homem mais esperto de todos. Ouvir ele gaguejar por causa de você foi um colírio para os meus olhos.

Ulisses soltou uma risada curta, achando graça da minha resposta. Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços fortes.

— Que bom que gostou do show. Mas agora precisamos resolver as coisas práticas. Onde estão as suas roupas? Preciso mandar um dos meus motoristas buscar as suas malas para você não ter que usar essa roupa por muito tempo, eu pedi pra governanta te trazer algo, mas nada melhor do que vestir as próprias roupas.

Dei de ombros, sentindo uma pontinha de amargura voltar ao meu peito, mas sem chorar. Eu já tinha gastado todas as minhas lágrimas naquele tapete da igreja.

— Pode esquecer as minhas malas. Tudo o que eu tinha estava na casa dos meus tios. E conhecendo a peça da minha prima Valéria, ela já deve ter jogado todas as minhas coisas no lixo da calçada depois do escândalo de ontem à noite. Aquela cobra não ia perder a chance de rasgar tudo pra tentar me ferir ainda mais.

Ulisses fechou a cara na mesma hora. A expressão dele ficou séria, quase sombria, e o maxilar dele se travou. Dava para ver que ele odiava saber que alguém estava sendo pisado daquela forma. Sem dizer uma única palavra, ele pegou o celular dele, digitou algo rápido e colocou no ouvido.

— Alô, Pierre? Quero você na minha mansão em trinta minutos. Traga a sua melhor equipe, maquiadores, e as últimas coleções completas, dessa estação e da anterior. Quero um guarda-roupa inteiro novo, do zero.

— Sabe como eu sou, não economize! –Ele falou dando uma risada leve.

— Para a minha noiva. 

Ele olhou pra mim de cima baixo. —Altura, um metro e cinquenta e nove. 96, 60, 101. E ande logo — ele ordenou, desligando o telefone antes mesmo de o tal Pierre responder.

Fiquei olhando para ele, piscando os olhos, sem entender nada. 

— O que foi isso? — perguntei, boba.

— Eu disse que cuidaria de você, não disse? O meu amigo Pierre a vai chegar logo depois do café da manhã para deixar você mais confortável — ele falou, o tom de voz amolecendo um pouco. 

Ele se levantou da cabeceira da mesa, caminhou até a cadeira ao seu lado e a puxou para trás com a maior gentileza do mundo. — Porque não come alguma coisa.Senta aqui, toma um café de verdade e come um pedaço desse bolo. Você precisa de energia para o que vem por aí.

Eu me sentei e ele voltou para o seu lugar e tomou outro gole do café.

—Como sabe a minha altura? –Perguntei curiosa.

—Sou bom com os olhos.

— E o que os outros números significam?

—Suas medidas. Busto, cintura, quadril. Errei alguma? —Ele respondeu com um sorriso irônico e um olhar quase inocente.

—- Não…mas como você descobriu?

—- Eu tenho…uma certa prática com o corpo feminino.

—- Ah tá, claro. — Porque você é um mulherengo. pensei.

Exatamente trinta minutos depois, a sala de estar da mansão parecia o camarim de um desfile de moda em Paris. Um homem magro e muito careca ao nível de iluminar tudo estava na sala vestindo um terno xadrez espalhafatoso e usando óculos vermelhos, com mais quatro assistentes.

 Era o Pierre. Os ajudantes empurravam três araras gigantes cheias de vestidos, casacos, saias e sapatos de saltos vermelhos e dourados que brilhavam de longe.

Pierre correu até mim, fez um drama jogando as mãos para o alto e começou a rodar ao meu redor, avaliando o meu corpo como se eu fosse uma obra de arte.

— Mon Dieu, Ulisses! Que joia rara você estava escondendo de mim! — Pierre gritou, com um sotaque engraçado. — Olhe para esses olhos verdes, essa pele! Menina, o que você gosta de usar? Qual é o seu estilo? Me conte tudo!

Lembrei das roupas que eu costumava usar: meus vestidos estilo camponesa, soltinhos, cheios de florzinhas miúdas, sapatilhas sem salto e cores pastéis. Eu sempre quis parecer uma menina boazinha para agradar o Pedro e os meus tios. 

Mas para onde aquela bondade tinha me levado? Direto para a beira de um hospício. Senti uma onda de calor subir pelo meu peito e o meu queixo se ergueu sozinho.

— Eu quero mudar o meu estilo, senhor Pierre — falei, com a voz firme, olhando direto para o estilista. — Quero deixar de parecer uma mocinha inocente que todo mundo pode pisar e enganar. Cansei de parecer uma menininha indefesa. Quero roupas de mulher de verdade, sabe!? Roupas que mostrem que eu mudei, que me deixem mais forte, atraente.

—BELÍSSIMO! Mas me chame só de Pierre!

— Tudo bem. Pierre.

Ulisses, que estava sentado no sofá de couro preto do outro lado da sala, observando tudo enquanto digitava no tablet, parou o que estava fazendo na mesma hora. Ele levantou os olhos escuros para mim e um brilho diferente apareceu ali. Ele deu um sorriso sarcástico de aprovação e olhou para o Pierre.

— Você ouviu a patroa, Pierre — Ulisses disse, a voz ecoando pela sala com aquela masculinidade dele. — Trate-a como ela realmente merece. Traga o melhor que você tiver nessas araras. O preço não importa.

Pierre bateu palmas, animadíssimo com o desafio, e começou a puxar vários cabides, me empurrando para dentro do provador portatil que os assistentes tinham montado no canto da sala. Duas maquiadoras entraram junto comigo, mexendo no meu cabelo, e elogiando o comprimento, passando uma maquiagem marcante nos meus olhos e um batom que parecia o próprio pecado de tão vivo. Eu me olhava no espelho e mal conseguia me reconhecer. Aquela menina que aceitava ser humilhada tinha sumido de verdade.

Depois de experimentar umas três opções, Pierre me entregou a cartada final: um vestido longo, de um tecido preto que parecia abraçar o corpo como uma segunda pele. Quando terminei de fechar o zíper e me olhei no espelho do provador, meu coração deu um salto. O vestido tinha um decote poderoso na medida certa e, do lado esquerdo, uma fenda generosa que subia pela minha coxa, mostrando quase a perna inteira quando eu dava um passo. Coloquei um salto agulha preto que me deixou bem mais alta e com cara de mulherão.

Respirei fundo, segurei o tecido e afastei a cortina do provador, saindo para a sala de estar.

O silêncio que se instalou na mansão foi tão grande que dava para ouvir o barulho do vento sacudindo as folhas lá fora. 

Pierre soltou um suspiro dramático, os assistentes pararam o que estavam fazendo, mas os meus olhos foram direto para o sofá. Ulisses estava com o copo de água na mão, prestes a dar um gole, mas ele simplesmente congelou no lugar.

A boca de Ulisses secou instantaneamente. Ele engoliu em seco, os olhos dele dilatando de uma forma selvagem enquanto desciam devagar pelo meu decote, travando na curvatura da minha cintura e descendo até a fenda que mostrava a minha perna nua. 

Ele colocou o copo na mesa de centro com a mão meio trêmula, sem conseguir desviar o olhar de mim nem por um segundo. A postura fria de CEO implacável parecia não existir, substituída por um desejo puro e faminto que dava para sentir de longe.

Eu comecei a sentir um calor repentino subir pelas minhas bochechas com a intensidade daquele olhar dele. Minhas pernas pareciam flutuar em cima daqueles saltos altos e o meu coração começou  a bater tão forte contra o peito que achei que o Pierre ia escutar.

— Nossa. Eu sou mesmo um cara de sorte. Tenho a noiva mais linda de todas. —Ulisses disse com um sorriso que quase me fez derreter.

Pierre aplaudiu e quase pulou de felicidade. —Quando será o casório? Eu mesmo vou fazer o vestido!

— Muito em breve. Meu amor, fale pra o Pierre como você quer o vestido, pra que ele começe a fazer imediatamente. 

—- Eu..eu..claro. —Tentei disfarçar o nervosismo a todo custo, pigarreando e ajeitando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Como ele consegue me chamar de meu amor assim tão fácil. Ou ele é um ótimo mentiroso ou não tem vergonha nenhuma. Senti minhas bochechas esquentarem.

—- A propósito, escolha um vestido elegante, temos um jantar importante essa noite.—Ulisses falou com um sorriso de lado e piscou pra mim. 

O jeito que o "demônio" me olhava me deixava sem ar, e cumprir aquele contrato de casamento de mentira com um homem como ele seria bem difícil, do que eu tinha imaginado.

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