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CAPÍTULO 7: Fragmentos Que Não Me Pertencem

A dor veio antes da compreensão.

Não foi gradual, nem suave, nem algo que pudesse ser ignorado como um desconforto passageiro — foi um impacto direto, pulsante, como se algo tivesse se chocado contra a mente de Lívia por dentro, abrindo à força uma fissura em um lugar que deveria estar protegido, selado, inacessível, e o pior não foi a intensidade, mas o que veio junto com ela.

A imagem.

Rápida.

Desorganizada.

Mas real.

Tão real que, por um segundo, ela não conseguiu distinguir se aquilo era uma lembrança ou apenas o reflexo de algo que Arthur tinha dito, uma sugestão plantada, uma construção da própria mente tentando preencher lacunas que agora pareciam maiores do que nunca.

Ela levou a mão à cabeça imediatamente, os dedos pressionando as têmporas como se pudesse conter aquilo, como se pudesse impedir que aquela sensação avançasse, mas já era tarde — algo tinha sido tocado, algo tinha reagido, e agora não havia como simplesmente voltar ao estado anterior.

Arthur ainda estava ali, parado perto da porta, e o silêncio entre eles não era mais o mesmo, não era mais apenas tensão ou confronto — havia algo novo, algo mais instável, como se uma linha invisível tivesse sido cruzada sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando.

— O que foi? — a voz dele veio mais baixa, mais atenta, e aquilo por si só já era estranho.

Lívia demorou um segundo para responder, tentando recuperar o controle da própria respiração, tentando organizar o que tinha acabado de acontecer antes de permitir que ele percebesse qualquer fraqueza.

— Nada — disse, afastando a mão do rosto, mesmo que a dor ainda pulsasse ali.

Arthur não se moveu.

Não insistiu.

Mas também não acreditou.

Era possível ver isso no olhar dele, na forma como a observava agora com mais atenção, como se estivesse procurando sinais, como se estivesse esperando exatamente aquele tipo de reação.

— Isso não foi nada — ele repetiu, como se estivesse confirmando algo para si mesmo.

Lívia sentiu a irritação subir, rápida, quase como um mecanismo de defesa.

— Eu disse que não foi nada.

Ele inclinou levemente a cabeça, sustentando o olhar por mais alguns segundos, e então, finalmente, desviou, como se tivesse decidido não pressionar naquele momento, como se aquilo não fizesse parte do plano imediato — mas fazia, e ela sabia disso.

Ele saiu do quarto sem dizer mais nada.

E foi apenas quando a porta se fechou que Lívia percebeu o quanto o corpo ainda estava tenso, o quanto os músculos permaneciam rígidos, como se ainda estivessem esperando um novo impacto, uma nova informação, uma nova quebra.

Ela respirou fundo, uma vez, duas, tentando desacelerar, tentando recuperar o controle sobre si mesma, mas a imagem — aquela imagem — ainda estava ali, insistente, incompleta, como um fragmento de algo maior que se recusava a se organizar.

Ela chorando.

Desesperada.

Repetindo uma frase.

“Eu não posso lembrar disso…”

O que exatamente era aquilo?

Uma lembrança real?

Ou apenas uma reação ao que ele disse?

Ela precisava saber.

Precisava de algo concreto.

Porque continuar naquele estado — entre dúvida e sensação — não era uma opção.


Minutos depois, Lívia estava no banheiro, apoiada contra a pia, olhando para o próprio reflexo como se esperasse encontrar alguma resposta ali, como se o rosto diante dela pudesse revelar algo que a mente ainda não conseguia acessar, mas tudo o que via era ela mesma — ou pelo menos a versão que sempre acreditou ser.

— Você não esqueceu… você apagou.

As palavras de Arthur ecoaram novamente, mais fortes agora, mais difíceis de ignorar, porque, pela primeira vez, havia algo dentro dela que não rejeitava completamente aquela possibilidade.

E isso era perigoso.

Porque abrir espaço para aquilo significava questionar tudo.

Ela fechou os olhos por um instante, tentando se concentrar, tentando puxar qualquer outra imagem, qualquer outro fragmento que pudesse confirmar ou negar o que estava acontecendo, mas o silêncio interno permaneceu, pesado, quase opressor.

Nada.

Exceto aquela sensação.

Aquela familiaridade estranha que surgia sempre que ele se aproximava demais, sempre que falava daquele jeito, sempre que a olhava como se já a conhecesse melhor do que ela mesma.

Isso não era normal.

E não podia ser ignorado.


Decidida, Lívia deixou o quarto e começou a caminhar pela casa, os passos mais rápidos agora, mais firmes, como se o movimento ajudasse a organizar os pensamentos, como se pudesse afastar a sensação de estar sendo arrastada para dentro de algo que não controlava.

A casa ainda estava silenciosa, mas não vazia.

Ela sentia.

Era como se aquele lugar tivesse uma presença constante, mesmo quando não havia ninguém por perto, como se cada espaço carregasse uma memória que não era dela, mas que, de alguma forma, começava a afetá-la.

Ela precisava encontrar respostas fora da própria cabeça.

E havia apenas um lugar onde poderia começar.

O escritório dele.


A porta estava fechada.

Mas não trancada.

Isso por si só já era estranho.

Lívia hesitou por um segundo, o suficiente para que a consciência pesasse, para que uma parte dela dissesse que aquilo era invasão, que estava cruzando uma linha, mas outra parte — mais forte naquele momento — respondeu imediatamente: ele já cruzou todas as linhas possíveis.

Ela girou a maçaneta.

E entrou.

O ambiente era exatamente como imaginava: organizado, impecável, funcional, sem excessos, sem distrações, cada objeto no lugar exato, como se nada ali existisse sem um propósito claro, como se até o silêncio fosse calculado.

Ela fechou a porta atrás de si e caminhou até a mesa, o coração acelerando de leve, não por medo de ser pega — embora isso fosse uma possibilidade — mas pela expectativa de encontrar algo, qualquer coisa que pudesse preencher aquele vazio crescente.

Documentos.

Arquivos.

Pastas.

Tudo organizado demais.

Limpo demais.

Mas então…

uma gaveta.

Diferente.

Trancada.

O detalhe chamou atenção imediatamente.

E confirmou o que ela já suspeitava.

Era ali.


Ela tentou abrir.

Nada.

Respirou fundo.

Olhou ao redor.

E então percebeu.

Um pequeno objeto metálico sobre a mesa.

Chave.

Simples.

Direta.

Como se tivesse sido deixada ali de propósito.

E isso…

isso a fez hesitar.

Por quê?

Por que ele deixaria algo assim tão exposto?

Armadilha?

Ou provocação?

Talvez os dois.

Mas naquele momento, a necessidade de saber falou mais alto.

Ela pegou a chave.

E abriu.


O som do clique pareceu alto demais.

E por um segundo, o mundo pareceu desacelerar novamente, como se aquele pequeno gesto tivesse mais peso do que deveria, como se estivesse prestes a acessar algo que não poderia ser desfeito.

Dentro da gaveta, havia poucas coisas.

Pouquíssimas.

Mas o suficiente.

Uma pasta.

Um pen drive.

E…

um diário.

Antigo.

Gasto.

Usado.

Lívia sentiu o coração disparar com mais força.

Aquilo não era dele.

Não parecia ser.

Era pequeno demais.

Pessoal demais.

Ela pegou.

As mãos agora claramente tensas.

E abriu.


A primeira página estava marcada.

Como se alguém soubesse exatamente por onde ela começaria.

A letra era feminina.

E familiar.

Dolorosamente familiar.

Ela leu a primeira linha.

E o mundo parou.

“Hoje eu encontrei Arthur pela primeira vez… e eu acho que isso vai mudar tudo.”

O ar sumiu dos pulmões.

Não.

Não podia ser.

Ela virou a página rapidamente.

Outra entrada.

Outra data.

Mais recente.

“Eu não sei se consigo lidar com o que estou sentindo… ele me olha como se eu fosse a única coisa que importa.”

As mãos começaram a tremer.

A respiração ficou irregular.

Ela continuou.

Mais páginas.

Mais palavras.

Mais sentimentos.

Mais…

história.

Uma história que ela não lembrava.

Mas que estava ali.

Escrita.

Por ela.

E então, na última página marcada…

ela leu uma frase que fez tudo dentro dela colapsar:

“Se algo acontecer comigo… foi culpa minha. Eu destruí tudo

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