POV: Aurora
O silêncio durou apenas alguns segundos.
Depois, os flashes explodiram por todos os lados.
Raul Montes abriu um sorriso satisfeito antes de voltar sua atenção para a imprensa.
— Senhoras e senhores…
Fez uma breve pausa.
— Tenho a honra de apresentar oficialmente a futura senhora Montes.
Meu nome ecoou pelo auditório logo em seguida.
— Aurora Ávila.
As câmeras voltaram-se completamente para mim.
Respirei fundo.
E caminhei até o palco.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Quando finalmente parei ao lado de Henrique, pude sentir dezenas de lentes apontadas para nós.
Raul aproximou-se do microfone novamente.
— Tenho o prazer de anunciar o noivado desse casal.
Os aplausos começaram imediatamente.
Fotógrafos gritavam instruções ao mesmo tempo.
— Senhor Henrique, mais para a direita!
— Senhorita Aurora, olhe para cá!
— Um sorriso, por favor!
Antes que eu pudesse reagir, senti uma mão envolver delicadamente minha cintura.
Meu corpo enrijeceu.
Virei discretamente o rosto.
Henrique mantinha o mesmo sorriso impecável para as câmeras.
Como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.
Aproximei os lábios de seu ouvido.
— Tire a mão de mim.
Sem apagar o sorriso, ele respondeu:
— Não estrague as fotos.
Franzi a testa.
— Não precisa exagerar.
— Preciso.
A voz saiu tranquila.
Disfarçadamente, deixei meu olhar percorrer o auditório.
Encontrei Adrian.
Ele observava tudo em silêncio.
Os braços cruzados.
A expressão fechada.
Entendi.
Aquilo não era para convencer a imprensa.
Era uma provocação.
Voltei a encarar Henrique.
— Então é isso?
— O quê?
— Está tentando provocar seu irmão.
Ele deu um leve sorriso de canto.
— Está funcionando.
Revirei os olhos.
Se ele queria usar aquela encenação…
Eu também podia jogar.
Aproximei-me um pouco mais.
O suficiente para diminuir a distância entre nossos corpos.
Senti sua mão enrijecer discretamente em minha cintura.
Inclinei a cabeça como se fosse dizer algo romântico.
Na verdade, sussurrei:
— Sua namorada também está olhando.
Os olhos violetas encontraram os meus por um breve instante.
Então percebi sua mão apertar minha cintura um pouco mais.
Levantei o olhar.
Lara continuava na primeira fila.
O sorriso que carregava desde o início da coletiva havia desaparecido completamente.
Sorri para as câmeras.
Henrique fez o mesmo.
Para quem observava de fora…
Parecíamos o casal perfeito.
Mas só nós dois sabíamos que aquela aproximação não passava de mais uma disputa silenciosa.
Um dos assessores aproximou-se do microfone.
— Abriremos espaço para algumas perguntas da imprensa.
Diversas mãos se levantaram ao mesmo tempo.
O assessor apontou para uma jornalista na primeira fila.
Ela se levantou imediatamente.
— Senhorita Aurora, o senhor Henrique Montes é conhecido por todos como um homem frio, reservado e praticamente impossível de se aproximar. Como é para você ser a noiva dele?
Sorri.
Sabia exatamente o que esperavam ouvir.
Voltei meu olhar para Henrique.
Ele permanecia impecável.
Como se nada pudesse abalá-lo.
Então respondi:
— Essa é uma pergunta fácil.
Os jornalistas ficaram em silêncio.
— Para vocês, Henrique Montes pode ser um homem frio e intocável.
Inclinei levemente a cabeça.
— Para mim…
Sorri discretamente.
— Ele é apenas o Henrique.
Percebi o canto dos lábios dele se mover quase imperceptivelmente.
Continuei:
— Carinhoso.
Atencioso.
E completamente diferente quando não precisa usar essa armadura que todos conhecem.
Os flashes voltaram a disparar.
Mantendo o sorriso para as câmeras, Henrique aproximou os lábios do meu ouvido.
— Ótima atriz.
Sem mover os lábios, respondi:
— Aprendi com você.
O assessor apontou para outro jornalista.
— Senhor Henrique, durante anos seu nome foi associado ao de Lara Viegas. Muitos acreditavam que vocês se casariam. O que aconteceu?
O auditório inteiro pareceu prender a respiração.
Olhei discretamente para a primeira fila.
Lara mantinha a postura elegante.
Mas seus dedos apertavam a bolsa com força.
Henrique respondeu sem hesitar.
— Lara é uma pessoa por quem tenho profundo respeito.
Fez uma breve pausa.
— Trabalhamos juntos há anos e construímos uma grande amizade.
Nada além disso.
Os fotógrafos voltaram suas câmeras para Lara.
Ela sustentou o sorriso.
Mas seus olhos perderam o brilho por um instante.
O assessor escolheu mais uma pergunta.
— Senhorita Aurora… existe algo que a fez aceitar esse pedido de casamento?
Meu coração acelerou.
Por um segundo, pensei no hospital.
No meu pai.
Na empresa.
Nas dívidas.
Mas nenhuma daquelas respostas podia ser dita.
Sorri para os jornalistas.
Depois olhei para Henrique.
— Algumas decisões mudam completamente o rumo da nossa vida.
Voltei minha atenção para a imprensa.
— E eu acredito que essa será uma delas.
Henrique permaneceu olhando para mim por alguns segundos.
Como se tentasse descobrir se existia alguma verdade escondida naquela resposta.
Talvez existisse.
Talvez nem eu soubesse qual era.
O assessor voltou ao microfone.
— A última pergunta.
Os jornalistas voltaram a levantar as mãos.
Um jornalista no fundo da sala recebeu o microfone.
— Senhor Henrique… quando será o casamento?
Henrique não desviou os olhos da imprensa.
— Daqui a duas semanas.
Os flashes voltaram a iluminar o palco.
— E esperamos contar com todos vocês nesse dia.
O jornalista agradeceu.
O assessor retomou o microfone.
— Encerramos as perguntas. Agora faremos algumas fotos oficiais do casal.
Antes que eu pudesse respirar aliviada, ouvi a fotógrafa dar as primeiras instruções.
— Senhor Henrique, um pouco mais perto dela.
Henrique obedeceu sem hesitar.
Sua mão voltou para minha cintura.
Meu corpo reagiu imediatamente.
— Continue sorrindo — ele murmurou sem mover os lábios.
Forcei um sorriso.
— Você gosta de me provocar, não é?
— Só quando você facilita.
Revirei os olhos.
A fotógrafa sorriu satisfeita.
— Perfeito.
Agora olhem um para o outro.
Virei o rosto.
Henrique já me observava.
Os flashes voltaram a disparar.
— Excelente!
Mais um pouco.
A fotógrafa fez um gesto com a mão.
— Senhor Henrique… aproxime-se um pouco mais.
Ele diminuiu a distância entre nós.
Por um instante, consegui sentir seu perfume.
Meu coração acelerou contra a minha vontade.
— Assim está ótimo! — comemorou a fotógrafa. — Agora quero uma foto mais espontânea.
Henrique inclinou levemente a cabeça.
— Continua nervosa?
Sorri para as câmeras.
— Só tentando não cometer um crime em público.
Ele soltou uma breve risada.
Discreta.
Quase imperceptível.
Mas suficiente para arrancar novos flashes.
— Perfeito! — a fotógrafa comemorou. — Essa ficou excelente.
Alguns minutos depois, a coletiva chegou ao fim.
Os jornalistas começaram a deixar o auditório.
Os funcionários desmontavam parte da estrutura.
Eu finalmente respirei aliviada.
Até ouvir a voz de Raul Montes.
— Aurora. Henrique.
Nós dois nos viramos ao mesmo tempo.
— Venham comigo.
Seguimos Raul em silêncio até uma sala reservada.
Assim que a porta se fechou, ele colocou um molho de chaves sobre a mesa.
Franzi a testa.
— O que é isso?
Raul cruzou as mãos diante do corpo.
— As chaves do apartamento de vocês.
Olhei rapidamente para Henrique.
Pela primeira vez naquela manhã, ele parecia tão surpreso quanto eu.
— Apartamento? — perguntei.
Raul assentiu com naturalidade.
— As malas de vocês já foram levadas.
Meu coração falhou uma batida.
— Como assim?
— A partir de hoje…
Ele fez uma breve pausa.
Como se estivesse anunciando a coisa mais óbvia do mundo.
— Vocês começam a morar juntos.
O silêncio tomou conta da sala.
Olhei para Henrique.
Ele continuava encarando o avô.
Sem dizer uma palavra.
Enquanto eu só conseguia pensar em uma coisa.
Meu Deus…
Eu realmente passaria a dividir o mesmo teto com Henrique Montes.