Casada com Meu Inimigo Por Contrato
Casada com Meu Inimigo Por Contrato
Por: Bárbara Monteiro
Capítulo 1 — Última Opção

POV: Aurora

O cheiro de hospital já fazia parte da minha rotina.

Antisséptico.

Café velho.

Espera.

Nos últimos meses, eu tinha passado mais tempo entre aqueles corredores do que dentro da própria empresa da minha família.

E aquilo, por si só, já dizia muita coisa.

O doutor Laurent fechou a pasta sobre a mesa e me encarou por cima dos óculos.

O silêncio dele foi suficiente para fazer meu estômago se contrair.

— Senhorita Ávila, não podemos mais adiar o tratamento.

Cruzei os braços.

— Quanto tempo nós temos?

O médico soltou um suspiro cansado.

— Honestamente? Nenhum.

Meu coração falhou uma batida.

Mas mantive a expressão firme.

Aprendi há muito tempo que entrar em pânico nunca resolveu problema nenhum.

— O tratamento precisa começar imediatamente. A doença avançou mais rápido do que prevíamos.

Baixei os olhos para os exames espalhados sobre a mesa.

Números.

Laudos.

Termos médicos.

Tudo aquilo se resumia a uma única coisa.

Meu pai estava ficando sem tempo.

— E se eu conseguir parte do valor agora?

O médico me observou por alguns segundos.

— Aurora...

— Me dê um prazo.

Ele balançou a cabeça.

— Já demos todos os prazos possíveis.

Aquelas palavras atingiram mais forte do que deveriam.

— Doutor...

— Não é mais uma questão financeira.

A voz dele saiu firme.

Direta.

— Agora é uma questão de vida.

Meu peito apertou.

Pela primeira vez naquele dia.

— Se o tratamento não começar nas próximas quarenta e oito horas, as sequelas podem ser irreversíveis.

Quarenta e oito horas.

Dois dias.

Era tudo o que restava.

Fechei os olhos por um segundo.

Respirei fundo.

Depois assenti.

Porque desabar diante dele não mudaria nada.

— Obrigada pela sinceridade.

O médico se levantou.

— Espero vê-la novamente antes do prazo terminar.

Eu também.

Porque a alternativa era impensável.

Saí da sala e caminhei pelo corredor em silêncio.

As portas automáticas se abriram diante de mim.

O quarto do meu pai estava exatamente como eu havia deixado.

Minha mãe estava sentada ao lado da cama.

Segurando sua mão.

Minha irmã ocupava a poltrona próxima à janela.

E meu pai...

Dormia.

Parecia menor.

Mais frágil.

Mais distante.

Como se a doença estivesse roubando pequenos pedaços dele todos os dias.

Minha mãe ergueu os olhos quando me viu entrar.

— O que o médico disse?

Forcei um sorriso.

Daqueles que não chegam aos olhos.

— Que ele é teimoso demais para obedecer os médicos.

Minha irmã soltou uma risada fraca.

Minha mãe não pareceu convencida.

Mas não insistiu.

Porque todos nós estávamos cansados demais para fingir que acreditávamos nas mesmas mentiras.

Aproximei-me da cama.

Observei meu pai por alguns segundos.

Depois beijei sua testa.

— Vou resolver isso.

Sussurrei.

Talvez para ele.

Talvez para mim mesma.

Meu celular começou a vibrar dentro da bolsa.

Número desconhecido.

Franzi a testa antes de atender.

— Aurora Ávila.

— Senhorita Ávila, bom dia.

A voz feminina era profissional.

Educada.

Desconhecida.

— Aqui é Beatriz, assistente do senhor Raul Montes.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Montes.

Aquele sobrenome não aparecia na minha vida há anos.

E mesmo assim ainda conseguia provocar a mesma reação.

— Em que posso ajudar?

— O senhor Raul Montes gostaria de agendar uma reunião urgente com a senhorita amanhã às nove horas da manhã.

Fiquei em silêncio.

Confusa.

— Sobre qual assunto?

— Infelizmente não tenho autorização para fornecer detalhes.

Claro.

Seria simples demais.

— Posso confirmar sua presença?

Olhei novamente para meu pai.

Para minha mãe.

Para minha irmã.

Quarenta e oito horas.

Era tudo o que eu tinha.

— Sim.

A resposta saiu antes que eu pudesse repensar.

— Estarei lá.

A ligação foi encerrada.

Guardei o celular lentamente.

E permaneci imóvel por alguns segundos.

Montes.

Eu odiava aquele sobrenome.

Odiava tudo o que ele representava.

As lembranças.

As promessas.

As feridas.

Mas, naquele momento...

Talvez os Montes fossem minha última opção.

Empurrei a porta principal do hospital.

O vento frio bateu no meu rosto.

Por alguns segundos, permaneci parada na calçada.

Observando as pessoas entrando e saindo.

Vivendo suas vidas.

Enquanto a minha parecia desmoronar um pouco mais a cada dia.

Apertei a alça da bolsa.

Precisava ir para a empresa.

Precisava encontrar uma solução.

Precisava continuar em frente.

Foi então que um carro preto parou diante da entrada.

Não prestei atenção de imediato.

Até a porta do motorista se abrir.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Henrique Montes.

O tempo podia ter passado.

Os anos podiam ter mudado muita coisa.

Mas aqueles olhos violetas…

Eu os reconheceria em qualquer lugar.

Alto.

Elegante.

Irritantemente impecável.

Os mesmos olhos que um dia me fizeram acreditar que existia um futuro para nós.

Por um segundo, fui transportada para outra época.

Uma época em que aquele rosto fazia meu coração acelerar.

Uma época em que eu acreditava em promessas.

Em futuros.

Em nós.

Henrique contornou o carro e abriu a porta do passageiro.

— Henrique, não precisa… — ouvi a voz de uma mulher. — Foi só uma torcida no pé. Um pouco de gelo e já melhora.

Ele ignorou o protesto.

Inclinou-se e, com toda a naturalidade do mundo, a tomou nos braços.

Meu coração apertou.

Ela soltou uma pequena risada.

— Você está exagerando.

— Você pisou em falso. Um médico vai examinar esse tornozelo.

A voz dele era firme.

Quase protetora.

Ela passou um dos braços ao redor do pescoço dele.

— Você é teimoso.

Henrique apenas continuou caminhando em direção à entrada do hospital.

Como se aquele gesto já fizesse parte da rotina dos dois.

Meu estômago se revirou.

Não de ciúmes.

Eu já tinha enterrado esse sentimento havia muito tempo.

Ou, pelo menos, era isso que eu repetia para mim mesma.

Desviei o olhar.

Porque me recusei a continuar observando aquela cena.

Passei por eles sem dizer uma única palavra.

Sem olhar para trás.

Mas uma sensação incômoda tomou conta de mim.

Pela primeira vez em muitos anos…

Tive a impressão de que aquele reencontro não tinha sido uma coincidência.

E, talvez…

Fosse apenas o início de uma nova tempestade.

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