ANALU
Cada minuto nesse quarto branco é uma eternidade. Os comprimidos que eu finjo engolir – e às vezes realmente engulo sem querer – deixam minha mente num nevoeiro espesso. As palavras da Mari, da última ligação, são como faróis distantes nessa névoa: Cayo... preso... armação. Elas me mantêm ancorada à realidade, mesmo quando meu corpo só quer desmoronar.
Humberto veio de novo hoje. Com seu sorriso de plástico e seus olhos mortos. Trouxe revistas de casamento.
— Escolhe o bolo, amor.
Eu olhei para as fotos de suspiros brancos e noivos sorridentes e senti um enjoo tão forte que quase desabei. Ele deve ter visto o pânico nos meus olhos, porque sua expressão endureceu por um segundo antes de voltar à falsa doçura.
— Você vai ficar bem, Analu. É só uma fase.
Uma fase. Me trancar, me dopar, armar pro meu namorado... uma fase.
Depois que ele foi embora, fiquei encolhida no canto, tremendo. A Talita, a enfermeira, entrou para dar os remédios da noite. Nossos olhos se encontraram por u