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Gostaria que assumisse essa responsabilidade. Ela ficaria no seu palácio até se recuperar por completo.

Sábado.

 

Palácio Nisba

Said

O sol da manhã, filtrado pelas intrincadas treliças das janelas do meu palácio, pinta padrões dourados no chão de mármore polido. Mas a beleza ao meu redor é incapaz de penetrar a névoa de pensamentos que me consome. Estou refletindo, ou melhor, remoendo, as palavras do médico sobre Samira. Cada frase ecoa na minha mente, um misto de alívio e uma estranha, quase incômoda, sensação de responsabilidade. Foi bom ouvir que o cérebro dela desinchou, que a pressão intracraniana diminuiu, e que os novos exames não apontaram danos permanentes. Uma pequena vitória, um sopro de esperança que, para minha surpresa, me atingiu. Tudo indica que, com a retirada gradativa da sedação, ela logo despertará. A perspectiva de seu retorno à consciência, no entanto, não me traz a paz que eu esperava. Pelo contrário, ela me lança em um turbilhão de incertezas.

— Você ouviu o que eu disse? — A voz de Jared, meu irmão, irrompe na minha bolha de pensamentos, elevada, carregada de uma impaciência que eu raramente permito em minha presença. Meus olhos, que estavam perdidos em algum ponto distante do horizonte, voltam-se para ele, fixos, quase acusadores. Não é normal eu me dispersar assim, perder o fio da conversa, especialmente quando se trata de Jared, cuja presença sempre me coloca em estado de alerta.

— Não — falo, balançando a cabeça lentamente, a admissão de minha distração um raro momento de vulnerabilidade. O que está acontecendo comigo? Essa garota, Samira, está desestabilizando minha habitual compostura.

— O que houve, Said? Você parece distante, preocupado. — Jared, com sua perspicácia irritante, percebe a mudança em meu semblante, a rachadura na minha armadura de indiferença.

Fungo, um som quase inaudível, e entorto os lábios, um gesto que raramente faço. Digo com o inverno na alma, as palavras pesadas, carregadas de um fardo que não pedi:

— Infelizmente, tive que assumir um problema que não é meu. Lembra de Samira? A dama de companhia da tia Zumira? — A menção do nome dela parece trazer um peso ainda maior ao ambiente. — Ela sofreu um acidente grave e foi internada em estado crítico no hospital. — Começo a contar a história toda a Jared, cada detalhe, cada reviravolta, desde o acidente de Rashid até a revelação de que Samira era a vítima. Minha voz, embora controlada, carrega um tom de resignação, de um homem que se vê encurralado por circunstâncias que fogem ao seu controle.

Jared ouve em silêncio, seus olhos fixos nos meus, a surpresa e a preocupação se misturando em seu rosto. Quando termino, ele pondera por um momento, e então pergunta, a voz mais suave do que o habitual:

— O que pretende fazer quando ela tiver alta? Onde ela vai ficar? Ela não tem ninguém, certo?

Meu coração dá um salto, uma ideia repentina, quase desesperada, brotando em minha mente. É uma solução que me livraria desse fardo, que me permitiria voltar à minha vida de números e negócios, longe de dramas pessoais. Uma parte de mim, a parte mais fria e calculista, anseia por isso.

— Gostaria que assumisse essa responsabilidade. Ela ficaria no seu palácio até se recuperar por completo. — Minha voz sai estranhamente calma, quase monótona, um contraste com a urgência que sinto. É uma parte de mim querendo muito me livrar dessa situação, de delegar essa incumbência que me perturba mais do que eu gostaria de admitir.

Jared balança a cabeça em negativa, um gesto lento e definitivo que esmaga minha esperança. A decepção, um sentimento que eu raramente permito, me atinge com força. Seus olhos azuis, geralmente tão serenos, agora carregam um brilho de lamento.

— Não é possível, Said. Já combinei com Haniya uma viagem de férias aos Emirados Árabes. Eu estava falando justamente sobre isso com você, mas você estava distante, não ouviu. É uma viagem que planejamos há meses, um tempo só para nós, longe das responsabilidades do palácio. — Ele tenta suavizar a recusa, mas o impacto é o mesmo.

Merda! Penso silenciosamente, a palavra ecoando na minha mente como um trovão. Contudo, sou imediatamente inundado por um sentimento de culpa, um peso incômodo que se instala no meu peito. Agi exatamente como meu primo Rashid, tentando empurrar minha responsabilidade para outra pessoa. A hipocrisia me atinge com força. Não gosto desse sentimento de culpa! Ele é um intruso indesejado, uma emoção que eu pensei ter erradicado da minha existência.

— Tudo bem, eu compreendo — digo secamente, a voz áspera, tentando esconder a frustração que me corrói. Não há mais nada a ser dito. A porta para a minha fuga se fechou.

Nesse momento, Haniya, a esposa de Jared, surge na sala, um raio de sol em meio à minha tempestade particular. Ela segura a mãozinha do meu sobrinho Raed, um garotinho de três anos, com olhos curiosos e um sorriso travesso. Ele é um lindo garotão, perfeito como meu irmão, um reflexo da vida que Jared construiu, uma vida que eu, em minha amargura, invejo secretamente.

— Allah! Ele está impossível! Quer mexer em tudo que não pode. — Haniya ri, uma risada leve e melodiosa, enquanto Raed tenta alcançar um vaso de porcelana antigo. A cena é de uma domesticidade que me é estranha, quase alienígena.

— Deixe-o com a babá. A trouxemos para isso! — Jared repreende Haniya, mas há um tom de carinho em sua voz, uma cumplicidade que me atinge como um golpe.

Haniya dá um lindo sorriso para Jared, um sorriso genuíno, cheio de amor e admiração. E isso, ironicamente, enche meu coração de pura aversão, me fazendo lembrar dos sorrisos falsos de Tânia para mim, sorrisos que escondiam uma traição, uma mentira. A comparação é inevitável, e a dor, embora antiga, ainda lateja.

— Está tudo bem, habibi, eu dou conta. Não reclamei, apenas comentei. — Ela responde, a voz suave, a paciência transbordando. A imagem dela, tão diferente de Tânia, me perturba.

Zoraide, a secretária, surge na sala, seus passos discretos, anunciando a próxima etapa do dia.

— O almoço está servido. Um cadeirão já foi providenciado para Raed, princesa. O colocamos ao seu lado. — Ela informa, sua voz profissional e impecável.

— Ótimo! — Haniya diz, e então, pegando o filho no colo, afasta-se, levando consigo a alegria e a leveza que por um breve momento preencheram a sala. A solidão retorna, mais densa, mais opressiva. Eu permaneço ali, um Said Harun Nisba, presidente de um império, mas prisioneiro de um coração de pedra que, por vezes, parece querer rachar.

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