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CORAÇÃO DE PEDRA
CORAÇÃO DE PEDRA
Por: Kayra Marck
Você pediu esse favor para a pessoa errada.

Catar, Doha Costa leste do Golfo Pérsico 

Exagon, Global Energy Institute.

Said Harun Nisba, Presidente

O ar-condicionado do meu escritório na cobertura da Exagon mantém a temperatura impecável, um contraste gritante com o calor opressivo que castiga as ruas de Doha lá fora. O silêncio aqui dentro é absoluto, quebrado apenas pelo som da respiração pesada do homem à minha frente. Dois dias atrás, meu primo Rashid sofreu um acidente de carro. Uma daquelas fatalidades que acontecem quando a imprudência encontra a velocidade nas rodovias ladeadas pelo deserto. Mashallah, nada de grave aconteceu com ele. A lataria retorcida do veículo foi o maior dano, deixando-lhe apenas algumas escoriações superficiais que mal mancham sua pele jovem. Mas a garota que o acompanhava... ela não teve a mesma sorte. Está mal no hospital, presa em um coma profundo, flutuando em um limbo entre a vida e a morte.

Ela não tem família, nenhuma âncora neste mundo, e agora ele quer deixá-la sob meus cuidados. Um fardo jogado no meu colo enquanto ele assume um trabalho irrecusável que surgiu como engenheiro petrolífero.

Encaro meu primo. Meus olhos, frios e implacáveis como aço forjado, não desviam dos dele. Sinto a rigidez na minha postura, a repulsa silenciosa pela fraqueza que ele demonstra.

— Você pediu esse favor para a pessoa errada — minha voz soa baixa, cortante, desprovida de qualquer calor humano.

— Said... tenho certeza que não. — Ele engole em seco, a voz vacilando levemente sob o peso do meu escrutínio.

— Como pode ter tanta certeza? — Rebato, erguendo uma sobrancelha, desafiando-o a encontrar um pingo de compaixão em mim.

— Said, por favor, atenda esse meu pedido — Rashid diz, a urgência transbordando em cada sílaba. Ele dá um passo à frente, aproximando-se mais da minha imponente mesa de mogno escuro, como se a proximidade física pudesse amolecer minha recusa. — Estou num beco sem saída. Eu não posso perder a oportunidade que o Sheik Ali está me dando. É a chance de uma vida. Juro por Allah que, se não fosse por minha carreira, eu assumiria essa responsabilidade sem pestanejar. Só que o Sheik Ali não foi complacente. Ontem tivemos uma conversa tensa e ele me deu um ultimato claro e direto: "se eu não assumir meu posto imediatamente, ele coloca outra pessoa no meu lugar."

Cruzo o único braço que possuo sobre o peito, uma barreira física que reflete a muralha ao redor do meu coração.

— Eu já disse! Você está pedindo esse favor para a pessoa errada. Não sou uma instituição de caridade, Rashid.

— Você verá que é assertivo meu pedido quando souber quem é a garota. — Ele insiste, os olhos brilhando com um desespero contido.

Solto o ar com raiva, um som áspero que rasga o silêncio do escritório. Sinto um latejar irritante começar a pulsar nas minhas têmporas, a dor de cabeça anunciando sua chegada como uma tempestade no horizonte.

— Quem é a garota? — Exijo saber, a impaciência afiando minhas palavras.

Seu rosto fica estranho, uma máscara de hesitação e culpa. Ele me olha calado por tempo demais, os segundos se arrastando pesadamente, e eu percebo, mais uma vez, que há algo de muito errado nessa história. O ar ao nosso redor parece engrossar.

— Samira.

O nome cai entre nós como uma bigorna. Toda a minha frieza, toda a minha postura calculista em encarar o problema, vai para o espaço em um milésimo de segundo. Arfo, o choque me atingindo como um soco no estômago, e solto um palavrão num volume bem alto, um rugido gutural que com certeza minha secretária ouviu, mesmo com a pesada porta de carvalho fechada.

— Samira? Samira? Você se envolveu com aquela garotinha? — Minha voz agora é um trovão, carregada de uma indignação que eu não esperava sentir.

Estou estremecido com suas palavras. O chão parece ter sumido sob meus pés, pois conheço muito bem aquele anjo, e esse desgraçado, esse moleque irresponsável, não deveria ter se enredado com ela. A imagem dela invade minha mente: pura, inocente, com olhos grandes e assustados.

Ela tinha apenas dezessete anos quando a assistente social da casa de acolhimento me procurou, implorando para conseguir um trabalho para ela. Uma alma perdida precisando de um porto seguro. E eu arrumei. Coloquei-a como dama de companhia da falecida Zumira, ami de Rashid. Era para ela estar protegida.

 

 

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