Mundo de ficçãoIniciar sessãoSofia Bellandi
Meus sobrinhos eram as coisinhas mais lindas do mundo.
Quinze dias haviam se passado desde que Alina e Lorenzo receberam alta. Apenas Heleninha continuava internada. Ela nasceu muito menor que o irmão, mais delicada e precisou permanecer sob os cuidados da equipe neonatal.
Felizmente, a cada visita os médicos traziam notícias melhores.Nossa pequena guerreira evoluiu muito bem e em breve estaria em casa. Na família Bellandi. Sorri sozinha com esse pensamento enquanto mantinha meu nipotino acomodado em meus braços.
Lorenzo dormia profundamente, completamente alheio ao fato de que já havia conquistado todos ao redor. Apoiei um dedo de leve em sua bochecha rechonchuda.
Com pouco mais de vinte dias de vida, algumas pintinhas extremamente discretas começaram a surgir sobre a pele clarinha. Talvez fossem sardas ou talvez minha imaginação estivesse trabalhando demais.
Os cílios eram compridos e claros. Os cabelos escorridos exibiam um ruivo vibrante que não deixava dúvidas sobre de quem havia herdado aquela característica.
Sem dúvida alguma… Lorenzo seria o primeiro Don da La Corona Nera a fugir completamente do padrão italiano. Imaginei meu pai tentando ensinar tradições sicilianas para um menino ruivo e cheio de sardas. A cena era divertida.
A porta do quarto se abriu devagar.
Alina apareceu usando uma calça confortável, uma camiseta larga e os cabelos presos em um coque desajeitado. As olheiras profundas denunciavam noites praticamente inexistentes.
Meu coração apertou.Ela tentava ser forte o tempo inteiro.
Passava parte do dia no hospital ao lado de Heleninha e a outra parte em casa cuidando de Lorenzo, que mamava como um bezerrinho faminto e simplesmente se recusava a ficar longe da mãe por muito tempo.Se dependesse apenas da vontade dela, permaneceria vinte e quatro horas ao lado dos dois filhos. Mas isso era impossível. Cada vez que saía da maternidade para voltar para casa, deixava um pedaço do próprio coração dentro daquela UTI neonatal.
Ainda assim, nunca reclamava. Apenas seguia em frente.
— Ele dormiu faz muito tempo? — perguntou em voz baixa, aproximando-se.
Assenti.
— Finalmente. Acho que resolveu dar uma folga para a mãe.
Ela soltou uma risada cansada.
— Não se iluda. Daqui a pouco ele acorda querendo mamar de novo.
Aproximei Lorenzo um pouco mais do peito.
— Pode descansar um pouco, eu fico com meu sobrinho.
Alina sorriu daquele jeito que misturava gratidão e exaustão.
— Você tem certeza?
— Tenho.
Ela hesitou por um instante.
— Então vou aproveitar para tomar um banho antes de irmos visitar a Heleninha.
Passei a mão com delicadeza pelos cabelinhos ruivos do pequeno.
— Vai. Sua filha vai querer encontrar a mãe bonita quando chegar em casa.
Os olhos de Alina ficaram marejados.
Ela apenas concordou com a cabeça antes de seguir pelo corredor. Esperei até que desaparecesse de vista. Então voltei toda a minha atenção para o menino adormecido.— Sua mãe é muito mais forte do que imagina, nipotino e vocês dois ainda vão ter muito orgulho dela.
Lorenzo abriu os olhinhos por alguns segundos. As íris ainda indefinidas passearam pelo meu rosto antes que um daqueles sorrisos involuntários de bebê surgisse em seus lábios.
Meu coração simplesmente derreteu.— Ah, não faz isso comigo...
Sorri feito uma boba e foi justamente nesse instante que ouvi passos se aproximando.
— Sorellina.
— Dom... — soprei baixinho.
Meu irmão entrou no quarto e caminhou até mim. Como fazia desde que eu era criança, depositou um beijo carinhoso no topo da minha cabeça antes de voltar toda a atenção para o filho.
— Onde está a Alina?
— Foi tomar um banho.
Dominic assentiu e pegou Lorenzo com uma facilidade que me impressionava.
Ainda me lembrava do homem que dizia não saber nem segurar um bebê. Agora parecia ter nascido para aquilo.Depois de alguns minutos ninando o pequeno, acomodou Lorenzo cuidadosamente no berço.
— Vou ver minha mulher.
— Pode ir. Eu cuido dele.
Ele estreitou os olhos.
— Tenho até medo.
Cruzei os braços.
— Ah, some daqui.
Dominic riu.
— Está vendo? É exatamente por respostas como essa que eu fico preocupado.
— Lorenzo está dormindo, alimentado, limpo e seguro. O que exatamente você acha que eu vou fazer?
— Conhecendo você? Qualquer coisa.
Peguei uma almofada da poltrona e ameacei jogar nele.
— Vai logo antes que eu mude de ideia.
Meu irmão ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Tudo bem, tudo bem... estou indo.
Ainda escutei sua risada desaparecer pelo corredor enquanto seguia em direção ao quarto. Balancei a cabeça, divertida.
Por mais que Dominic continuasse sendo o Don da La Corona Nera diante do resto do mundo…
Dentro de casa ele era apenas um marido completamente apaixonado e um pai que inventava qualquer desculpa para ficar perto da esposa e dos filhos.Depois de sair da casa do meu irmão, resolvi voltar para a mansão caminhando.
As duas casas ficavam no mesmo terreno da propriedade Bellandi, separadas apenas por um jardim enorme e um caminho de pedras que ligava uma à outra.No começo, boa parte da famiglia torceu o nariz para a decisão de Dominic e Alina. Ninguém gostou da ideia de o futuro Don morar fora da casa principal. No fim, todos aceitaram.
Eles continuavam perto de nós. E, sendo sincera, hoje eu entendia perfeitamente a escolha. Os dois tinham privacidade, liberdade para criar os filhos do jeito deles e uma casa organizada exatamente como queriam.
Aquilo despertava um desejo nada conveniente dentro de mim.
Mais cedo ou mais tarde eu também precisaria me casar. Fui criada para isso. Para honrar a família, fortalecer alianças e construir um lar.O problema era que eu nunca consegui me enxergar no papel de esposa perfeita. Uma vez coloquei fogo em uma panela tentando preparar uma carbonara. Meu futuro marido que lutasse ou contratasse um ótimo chef antes de morrer de fome.
A parte realmente triste era outra. Quando esse dia chegasse, eu deixaria minha família para trás. Provavelmente iria morar sabe Deus em qual cidade, em qual país ou em qual propriedade da máfia. Só de pensar nisso, meu humor piorou.Chutei algumas pedrinhas pelo caminho até alcançar a entrada da mansão.
Assim que atravessei a porta, encontrei mamma saindo da cozinha enquanto limpava as mãos em um avental rosa estampado com pequenas flores.Ela sorriu imediatamente.
— Por que essa carinha triste?
Pensei em responder qualquer coisa.
Acabei dizendo a verdade.— Ah... eu queria que nossa bambina já estivesse em casa.
Meus ombros caíram sem que eu percebesse. Mamãe não disse nada.
Apenas diminuiu a distância entre nós e me envolveu em um abraço. O aroma do chocolate tomou conta do ambiente.Ela estava fazendo doces outra vez.
— Você tem essa pose de durona... — comentou com carinho. — Mas, no fundo, é uma manteiga derretida.
Escondi o rosto em seu ombro.
— A culpa é sua.
Ela riu baixinho.
— Minha?
— Claro. Fui criada por uma mulher que resolve tudo com abraço, comida e sobremesa.
— E deu errado?
Sorri, apertando-a um pouco mais.
— Não...
— Então acho que fiz um bom trabalho.
Não importava quantos anos eu tivesse. Nos braços da minha mãe, eu ainda conseguia me sentir exatamente como quando era criança.
— Vou resolver alguns assuntos administrativos do Palazzo e depois volto para experimentar esse doce que já está me engordando só de imaginar.
Mamãe sorriu, claramente divertindo-se com a minha preocupação.
— Va bene, figlia.
Afastei-me ainda envolvida pelo aroma do chocolate recém-preparado, que se espalhava pelos corredores da casa como um convite impossível de recusar.
Subi a escadaria principal em direção ao segundo andar e, ao passar pela biblioteca, reduzi o ritmo dos passos. Papai estava acomodado em uma das poltronas de couro, completamente absorto em um livro de capa grossa.
A maioria das pessoas enxergava apenas o antigo Don da La Corona Nera.
O homem que comandou uma das organizações mais temidas da Sicília durante décadas e cuja reputação atravessava fronteiras. Mas quase ninguém conhecia Domenico Bellandi longe das reuniões, das armas e das decisões que mudavam destinos.Meu pai era apaixonado por livros.
História, filosofia, economia, política, descobertas científicas... qualquer assunto capaz de ampliar sua visão de mundo despertava seu interesse. Desde pequena, ouvi dele a mesma frase inúmeras vezes: um mafioso sobrevivia pela força, mas permanecia no poder pela inteligência.
Conhecimento era uma arma tão perigosa quanto qualquer pistola.
— Está estudando ou fugindo da mamma? — provoquei, encostando no batente da porta.
Ele ergueu os olhos por cima dos óculos de leitura e abriu um sorriso discreto.
— As duas opções.
Não consegui segurar a risada.
— Achei que fosse dizer que estava ampliando seus conhecimentos.
— Também. Mas sua mãe resolveu fazer doces hoje. Se eu continuar perto da cozinha, termino diabético antes do jantar.
Inclinei a cabeça, fingindo desaprovação.
— Coitada da mamma.
— Não quero morrer tão cedo.
Ele fechou o livro com a calma de quem nunca teve pressa para nada e indicou a poltrona ao lado.
— Venha cá, figlia. Faz tempo que não conversamos sem que alguém apareça para interromper.
— É verdade, papà. Depois que a brasileira entrou para a famiglia, o senhor me trocou por ela.
Fiz um beicinho exageradamente dramático. Meu pai soltou uma risada sincera.
— Mia bambina... você é muito dramática. Igualzinha à sua mãe.
Levei a mão ao peito, fingindo estar profundamente ofendida.
— Engraçado como os defeitos sempre vêm da mamma. Já as qualidades... essas, obviamente, são herança do senhor.
Ele balançou a cabeça, divertindo-se.
— Cristo, figlia. Se sua mãe ouvir uma coisa dessas, você me faz dormir no sofá.
— Relaxa. Eu nego até o fim.
— Ela nunca acreditaria.
— Também acho que não.
Papai apoiou o livro sobre a mesa ao lado da poltrona e cruzou os braços.
— Flora me conhece há mais de trinta anos. Bastaria olhar para a minha cara para descobrir que fui eu quem colocou essas ideias na sua cabeça.
A gargalhada escapou antes que eu pudesse conter.
— Então a culpa é sua mesmo.
— Sempre é. – Respondeu com uma serenidade tão absurda que voltei a rir. — Mas faça um favor ao seu velho pai e não conte nada para sua mãe. Ainda gosto da minha cama.
— Achei que um ex-Don da La Corona Nera não tivesse medo de ninguém.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Não é medo. É experiência.
Era curioso pensar que o homem que durante décadas comandou uma das organizações mais poderosas da Sicília, negociou com chefes de Estado, enfrentou guerras entre famílias e fez mafiosos temerem apenas a menção do seu nome ainda preferia evitar uma discussão com a própria esposa.
No fim das contas, até os homens mais poderosos do mundo aprendiam, cedo ou tarde, que algumas batalhas simplesmente não valiam a pena. Sentei-me na poltrona ao lado da dele e meus olhos caíram sobre a capa do livro repousado em seu colo. Meditações.
Sorri de lado.
— Que livro chato, pai.
Ele nem pareceu ofendido.
— Poucas pessoas têm bom gosto.
Respondeu com um ar convencido.
Apoiei a cabeça em seu ombro, como fazia desde criança.— Sofi...
— Hm?
— Você nunca pensou em se casar? Construir a sua própria família? Percebi que ficou diferente desde que os gêmeos nasceram. Mais... cuidadosa.
Pensei por alguns segundos antes de responder.
— Ah... sei lá. – Dei de ombros. — Às vezes olho para o senhor e para a mamma. Depois vejo o Dom com a Alina e confesso que seria legal ter uma família assim.
Minha voz perdeu um pouco da leveza.
— Mas eu não tenho esse luxo.
Ele voltou a atenção para mim.
— O luxo de quê?
— De escolher. – Mantive os olhos fixos na estante repleta de livros. — Eu sou escolhida, papà. Sempre soube disso. Mais cedo ou mais tarde, vão decidir quem é o homem ideal para fortalecer alianças, e eu só vou... cumprir meu papel.
A mão dele pousou sobre meu ombro em um gesto tranquilo.
— Sua mãe também foi uma escolhida pelo seu bisnonno. E, ainda assim, nós nos apaixonamos.
Sorri sem muito entusiasmo.
— O senhor teve sorte.
Levantei a cabeça para encará-lo.
— Sério, pai... olha os capi dessa organização. A maioria ainda vive presa ao século passado. Tem homem que realmente acredita que mulher nasceu para obedecer, gerar filhos e ficar calada. Ainda bem que estudei e que sou irmã do Don. Se tivesse nascido em outra família... provavelmente estaria casada desde os dezoito anos e Deus sabe como seria tratada.
Um suspiro escapou dos meus lábios. Por alguns instantes, papai permaneceu em silêncio. Quando voltou a falar, sua voz carregava uma firmeza que eu conhecia desde pequena.
— Escute uma coisa, figlia. Enquanto eu respirar e enquanto Dominic ocupar o lugar que ocupa, ninguém vai entregar você a um bastardo que não saiba exatamente o valor da mulher que tem diante de si.
A convicção em suas palavras aqueceu meu peito.
— Eu sei, pai.
— Que bom, figlia. Porque, cedo ou tarde, você vai precisar escolher um marido. Afinal, daqui a pouco completa vinte e cinco anos.
Levei a mão ao peito, completamente escandalizada.
— Que deselegante da sua parte me lembrar que estou prestes a envelhecer.
Meu pai soltou uma gargalhada.
— Envelhecer? Sofia, você tem vinte e quatro anos.
— Exatamente. Daqui a pouco aparecem as primeiras rugas...
Ele tentou interromper.
— Sofia...
— ...as dores nas costas ...os cabelos brancos... e, quando eu perceber, estarei reclamando do preço do azeite igual à mamma.
Dessa vez ele riu sem qualquer cerimônia.
— Você dramatiza tudo.
— Só um pouquinho.
Voltei a apoiar a cabeça em seu ombro. Ficamos um tempo em silêncio, apenas apreciando a tranquilidade daquele momento.
— Pai...
— Hm?
Respirei fundo antes de continuar.
— Quando esse dia chegar... Promete que ninguém vai tentar me convencer a casar com um homem que eu não goste?
Meu pai sequer precisou pensar.
— Eu prometo.
Não havia espaço para dúvidas. A firmeza com que pronunciou aquelas duas palavras dissolveu boa parte da insegurança que eu carregava desde a adolescência.
A conversa foi interrompida quando a porta da biblioteca se abriu.
Lucca entrou cantarolando alguma música italiana completamente desafinada, como se estivesse apenas caminhando pela casa, e não invadindo um raro momento entre pai e filha.Revirei os olhos.
— Estava demorando para a ovelha negra aparecer.
Meu irmão levou a mão ao peito, teatral.
— Eu estava com saudades da ovelhinha mestiça da família.
Franzi a testa.
— Mestiça?
O canto da boca dele se curvou em pura provocação.
— Metade do bem... metade do mal.
Até papà deixou escapar um breve comentário divertido.
— Dio...
Cruzei os braços.
— Isso foi uma ofensa ou um elogio?
— Nem eu sei. – Lucca deu de ombros. — Depende do dia.
Peguei uma almofada da poltrona e a lancei na direção dele. Meu irmão nem se deu ao trabalho de desviar. A almofada acertou seu braço e caiu no chão sem provocar o menor estrago.
— Continua com uma mira péssima. Tenho certeza de que trocaram essa aí na maternidade.
Levei a mão ao peito, completamente indignada.
— Nossa... não fazia ideia de que você me odiava tanto.
— Se eu odiasse, nem perderia tempo implicando com você.
A resposta veio imediata, acompanhada daquela tranquilidade típica de quem já conhecia todas as minhas encenações. Antes que eu encontrasse uma forma de revidar, a expressão dele mudou.
A provocação desapareceu, dando lugar a uma animação difícil de esconder.
— Vim avisar uma coisa.
Papai deixou largou novamente o livro sobre a mesa.
— O que aconteceu?
Lucca não prolongou o suspense.
— Nossa bambina recebeu alta.
Meu coração deu um salto.
— Sério?
— Dom e Alina acabaram de ir para o hospital. Foram buscar nossa principessa.
Não esperei ouvir mais nada. Levantei tão depressa que quase derrubei a poltrona atrás de mim.
— Finalmente..
Depois de tudo o que nossa família enfrentou, nossa pequena guerreira estava finalmente vindo para casa.






