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CAPÍTULO 02 — O Melhor Legado 🩵 Augusto Montserrat

Augusto Montserrat

Antes de deixar o hospital, fiz questão de me despedir da minha menina.

Encontrei a porta do quarto entreaberta e bati de leve antes de entrar. Alina estava acomodada na cama, com Lorenzo nos braços durante a amamentação. O pequeno parecia determinado a recuperar cada grama que ainda lhe faltava, mamando com uma força que arrancava caretas da própria mãe.

Dominic continuava sentado ao lado dela.

O italiano alternava a atenção entre Alina e o filho como se nada mais existisse no mundo. 

— Aii... Lorenzo! — Alina resmungou, fazendo uma careta. — Você não precisa puxar tão forte.

Dominic não conteve a risada.

— Ele está com fome, bambolina.

— Eu amo meus filhos... — ela reclamou, apontando um dedo na direção do marido. — Mas você pode esquecer. Já decidi que não quero mais filhos.

Cruzei os braços.

— Eu acho dois netos um excelente número. Minha filhinha já está surtando agora no início, imagine depois.

Dominic ergueu uma sobrancelha.

— Vou ter que convencer ela a mudar de ideia.

— Você será capado antes disso.

A resposta de Alina saiu tão naturalmente que arrancou uma gargalhada do italiano.

Nem mesmo eu resisti ao humor ácido da minha filha, mesmo balançando a cabeça em reprovação.

— Nunca pensei que você fosse ficar tão bonita sendo mãe.

— Isso foi um elogio ou você está dizendo que antes eu era feia?

— Você sempre encontra um jeito de discutir comigo.

— Aprendi com o melhor.

Dominic soltou uma risada debochada.

— Essa parte ela herdou de você.

— Felizmente. – Os dois me encararam exatamente ao mesmo tempo. 

Levantei as mãos em rendição. 

— Fico orgulhoso da nossa semelhança.

Alina balançou a cabeça, divertindo-se. Durante alguns minutos, fiquei apenas admirando minha filha. O tempo havia passado depressa. Ainda conseguia enxergar a menina que aparecia no meu escritório usando um vestido cheio de glitter porque queria participar das reuniões importantes.

A adolescente que insistia em aprender sobre investimentos enquanto os colegas pensavam em festas. A jovem que enfrentou um inferno muito maior do que qualquer pai gostaria de imaginar. Agora ela segurava o próprio filho nos braços. 

Aproximei-me da cama e beijei a testa de Alina com carinho.

— Preciso ir, filha.

Ela levantou o rosto na minha direção.

— Já?

— Tenho algumas reuniões no Brasil que não podem mais esperar. Mas volto assim que conseguir uma brecha.

Sua mão encontrou a minha por um instante.

— Obrigada por estar aqui.

Acariciei o dorso da mão dela.

— Eu sempre vou estar.

Porque, independentemente da idade...

Alina continuaria sendo a minha menina.

Deixei o hospital com uma vontade enorme de permanecer ali por mais alguns dias, acompanhando cada descoberta dos meus netos e cuidando da minha filha como fiz a vida inteira. Mas Alina havia crescido e agora tinha a própria família.

Dominic jamais sairia do lado dela. Flora faria questão de assumir parte dos cuidados nos primeiros dias, Helena encontraria uma maneira de ajudar mesmo durante o tratamento e Sofia, já demonstrava estar completamente apaixonada pelos dois pequenos.

Minha menina estava cercada de pessoas que a amavam. Isso tornava a despedida um pouco menos difícil. Ainda assim, eu precisava voltar à realidade.

Quanto mais empresas eu abria ao redor do mundo, maior era a quantidade de problemas esperando por mim. Administrar um grupo empresarial espalhado por diversos países exigia decisões diárias, reuniões intermináveis e crises que pareciam surgir por puro passatempo.

Às vezes eu me perguntava em que momento deixei de administrar empresas para começar a apagar incêndios profissionais. 

O motorista estacionou em frente ao prédio onde comprei um apartamento logo depois que Alina decidiu permanecer na Sicília. A ideia inicial era simples. Ficar perto dela.

Com o passar dos meses, acabei criando afeição por Palermo.

A cidade possuía um ritmo completamente diferente de São Paulo. As ruas carregavam séculos de história, o mar parecia acalmar até os dias mais difíceis e, por mais contraditório que fosse, encontrei uma paz inesperada justamente na terra da máfia italiana.

Subi para o apartamento e retirei o paletó assim que atravessei a porta. No começo foi uma merda morar sozinho. Passei a vida inteira cercado por alguém. Primeiro meus pais. Depois Helena. Mais tarde, Alina.

Quando a casa finalmente ficou completamente vazia, percebi que o sucesso profissional fazia muito barulho durante o expediente, mas chegava completamente mudo no fim do dia.

Meus pais partiram cedo demais em um acidente de carro. Da família, restou apenas meu irmão Enzo. Meu braço direito e o único homem em quem confio cegamente para dividir tanto os negócios quanto o peso de carregar um império. 

Nem sempre fui o homem que as pessoas conhecem hoje. 

Ao contrário da minha filha, eu não nasci frio. A vida me obrigou a aprender.

Cada negociação difícil, cada traição, cada prejuízo e cada perda foram moldando uma personalidade capaz de sobreviver em um mundo onde demonstrar fraqueza custava caro demais.

Alina...

Ela simplesmente recebeu esse dom do universo. Sempre enxergou pessoas, intenções e perigos com uma facilidade assustadora. Eu  precisei desenvolver essa habilidade.

Ela apenas nasceu com ela.

Talvez por isso tenha conseguido enfrentar tanta coisa sem perder quem realmente era.

E, sinceramente, espero que meus netos herdem o coração da mãe e sua determinação. Quanto ao resto… A vida, inevitavelmente, ensinará.

Meu jantar já me esperava, mantido aquecido no forno. Rebeca havia preparado tudo antes de ir embora, como fazia todos os dias. A cozinha permanecia impecável, as malas já estavam prontas no quarto e o jato me aguardaria nas primeiras horas da manhã para mais uma sequência de reuniões em outro continente. Nada estava fora do lugar.

Servi uma taça de vinho e comecei a comer sem pressa. 

O sabor da comida era excelente, mas, pela primeira vez em muito tempo, não consegui prestar atenção em absolutamente nada do que estava no prato. O apartamento parecia grande e silencioso demais. 

Passei a vida inteira reclamando da falta de paz, dos telefonemas incessantes, das reuniões intermináveis e das pessoas que disputavam alguns minutos da minha atenção. Agora, sentado sozinho diante daquela mesa, descobri que o silêncio também podia ser incômodo.

Talvez... só talvez... a solidão estivesse começando a cobrar a conta. Meu olhar acabou encontrando o celular repousado ao lado da taça. Permaneci alguns segundos encarando a tela apagada antes de destravá-la.

Havia alguns meses eu vinha me encontrando com Laura.

Nada de promessas. Nada de exclusividade. Nenhum dos dois alimentava expectativas que não pudesse cumprir. Era uma relação construída sobre companhia, respeito e maturidade. Em dias bons, dividimos uma garrafa de vinho. Nos ruins, bastava a presença um do outro para tornar a noite menos pesada.

Laura também era brasileira. Loira, dona de um corpo que chamava atenção por onde passava e de olhos azuis que pareciam sempre enxergar mais do que demonstravam. Inteligente, independente e experiente o suficiente para entender que minha vida jamais deixaria espaço para algo tradicional.

E era justamente por isso que funcionava.

Sem precisar pensar muito, toquei no contato dela e levei o aparelho ao ouvido enquanto o toque preenchia o vazio daquele apartamento.

Pouco mais de uma hora depois a campainha tocou.

Abri a porta e encontrei Laura parada do outro lado. O vestido vermelho desenhava sua silhueta com elegância, enquanto o batom da mesma cor destacava o sorriso discreto que surgiu quando nossos olhares se encontraram. Era uma mulher bonita, atraente e perfeitamente consciente do efeito que causava.

— Achei que você ainda estivesse no hospital — comentou antes mesmo de entrar.

— Voltei hoje.

Ela se aproximou, depositou um beijo demorado no meu rosto e entrou no apartamento com a naturalidade de quem já conhecia o caminho. Laura nunca invadia espaços. Apenas ocupava o lugar que lhe era oferecido, talvez por entender que eu valorizava isso mais do que qualquer demonstração exagerada de afeto.

— Está com cara de cansado.

— Foi uma semana longa.

Ela lançou um rápido olhar para a mesa posta, onde a garrafa de vinho permanecia aberta ao lado da minha taça.

— Ainda bem que me chamou. Você ficaria aqui sozinho pensando demais.

Deixei escapar um sorriso de canto.

Ela provavelmente tinha razão.

Laura serviu uma taça para si e caminhou até a varanda, apreciando a vista noturna de Palermo enquanto a brisa que vinha do mar movimentava alguns fios do cabelo loiro.

Fiquei observando a cena por alguns instantes e me dei conta de que não a havia chamado por desejo ou carência física.

Naquela noite, eu simplesmente não queria ouvir o próprio silêncio.

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