Mundo de ficçãoIniciar sessãoOlívia percebeu que aquele dia seria horrível antes mesmo de sair de casa.
Talvez tenha sido o silêncio estranho do apartamento ao acordar. Ou a sensação sufocante no peito que parecia piorar a cada manhã. Nos últimos meses, ela vinha vivendo no automático, mas naquele dia existia algo diferente no ar. Algo pesado. Incômodo. Como se a vida estivesse preparando mais um golpe.
Ela desligou o despertador ainda sonolenta e permaneceu alguns segundos encarando o teto escurecido do pequeno quarto enquanto tentava reunir forças para levantar. Seu corpo inteiro parecia cansado. Não era apenas físico. Era emocional também. O tipo de exaustão que fazia até tarefas simples parecerem difíceis demais. O celular vibrava sobre a mesinha ao lado da cama mais uma vez, provavelmente com cobranças acumuladas, mas ela sequer teve coragem de olhar.
Olívia passou a mão lentamente pelo rosto antes de finalmente sair da cama. O chão gelado do apartamento fez ela estremecer discretamente enquanto caminhava até a cozinha pequena e silenciosa. A pia continuava cheia de louça acumulada dos últimos dias, algumas contas permaneciam espalhadas sobre a bancada e a luz fraca deixava tudo ainda mais melancólico. Aquele lugar costumava parecer seguro. Agora parecia apenas pequeno demais para todos os problemas que carregava.
Ela abriu a geladeira e encontrou quase nada dentro. Uma garrafa de água, ovos e um pedaço pequeno de queijo. Fechou a porta devagar enquanto soltava uma risada fraca e sem humor. Seu salário mal conseguia sustentar uma vida minimamente confortável em Londres, e mesmo trabalhando até a exaustão todos os meses, parecia que o dinheiro desaparecia antes mesmo de chegar na conta.
Enquanto preparava café rapidamente, seu olhar caiu involuntariamente sobre a bolsa jogada no sofá da sala. Mais especificamente no guardanapo dobrado dentro dela. O número de Henrique.
Olívia permaneceu alguns segundos encarando aquilo em silêncio. Ainda não entendia por que não jogou fora. Talvez curiosidade. Talvez desespero começando a aparecer aos poucos. Ou talvez apenas porque parte dela sabia que aquela proposta misteriosa poderia acabar voltando em algum momento. Ela desviou o olhar rapidamente antes que os próprios pensamentos começassem a assustar.
A empresa estava ainda mais caótica naquela manhã.
Assim que entrou no escritório, percebeu imediatamente o clima estranho espalhado pelo ambiente. Funcionários cochichavam perto das mesas, algumas pessoas evitavam contato visual e Richard atravessava os corredores com expressão fechada enquanto falava no telefone num tom irritado. Aquilo fez um alerta surgir instantaneamente dentro dela.
— O que aconteceu? — perguntou baixo para Sophie enquanto deixava a bolsa sobre a cadeira.
A colega suspirou cansada antes de responder:
— Perdemos outro contrato grande.
Olívia sentiu o estômago apertar imediatamente.
— Outro?
Sophie assentiu devagar.
— Parece que a diretoria vai fazer alguns cortes.
Por alguns segundos, Olívia ficou imóvel. Aquela única palavra foi suficiente para acelerar seu coração. Ela tentou ignorar a sensação ruim enquanto ligava o computador rapidamente, mas suas mãos já estavam levemente trêmulas.
Não.
Ela não podia perder aquele emprego.
Não agora.
Não daquele jeito.
O restante da manhã passou devagar e sufocante. Richard parecia ainda mais agressivo do que o normal, reuniões foram canceladas de última hora e o clima dentro da empresa ficava pior a cada hora que passava. Olívia tentava se concentrar no trabalho, mas sua mente parecia presa naquela única possibilidade.
E se fosse demitida?
Só de pensar naquilo, sentia falta de ar. Porque sem aquele salário não existia plano B. Ela mal conseguia sobreviver com o emprego. Sem ele, simplesmente não sobreviveria.
Perto do horário do almoço, Sophie apareceu ao lado da mesa dela outra vez. Mas dessa vez a expressão da colega estava diferente. Tensa. Desconfortável. E imediatamente o coração de Olívia afundou.
— Richard quer falar com você.
Aquilo foi suficiente.
Ela soube.
Antes mesmo de entrar naquela sala, já sabia.
O caminho até o escritório da diretoria pareceu distante. O som das pessoas trabalhando ao redor ficou abafado enquanto sua ansiedade crescia rápido demais dentro do peito. Quando entrou, Richard estava sentado atrás da mesa segurando alguns documentos. Ele parecia cansado. Quase culpado. E aquilo tornou tudo pior.
— Pode sentar, Olívia.
Ela obedeceu lentamente.
O silêncio dentro daquela sala parecia sufocante.
Richard apoiou os papéis sobre a mesa antes de respirar fundo.
— Tivemos novos cortes essa manhã. A empresa perdeu contratos importantes nas últimas semanas e precisamos reduzir parte da equipe administrativa.
Olívia sentiu o chão desaparecer devagar sob seus pés. Seu cérebro parecia incapaz de processar completamente aquelas palavras.
— Você tá me demitindo?
A pergunta saiu baixa. Fraca.
Richard desviou o olhar por um instante antes de responder:
— Não foi uma decisão pessoal.
Aquilo atravessou ela como uma lâmina.
Depois de anos trabalhando até tarde, assumindo funções que nem eram responsabilidade dela e abrindo mão da própria saúde mental tentando manter tudo funcionando… era assim que acabava?
Ela sentiu os olhos queimarem imediatamente.
— Eu sempre fiz tudo certo — murmurou quase sem perceber.
Richard passou a mão cansada pelo rosto.
— Eu sei que fez.
Mas claramente não foi suficiente.
O desespero começou a crescer rápido demais dentro dela. Porque agora tudo parecia real. O aluguel atrasado. As contas acumuladas. O medo constante. A sensação de fracasso. Tudo caiu sobre ela ao mesmo tempo.
Olívia tentou respirar normalmente, mas seu peito parecia apertado demais.
— O financeiro vai acertar seus direitos até o fim do dia — Richard continuou cuidadosamente. — E eu posso escrever uma excelente recomendação.
Uma recomendação.
Ótimo.
Talvez conseguisse pagar o aluguel com palavras bonitas impressas num papel.
Ela quase riu da própria desgraça naquele instante, mas não conseguiu. Porque a vontade de chorar era maior.
Olívia se levantou antes que desmoronasse ali na frente dele.
— Obrigada pela oportunidade — disse automaticamente.
Mesmo sem sentir gratidão nenhuma.
Richard ainda tentou falar mais alguma coisa, mas ela já estava saindo da sala. O corredor pareceu distante enquanto caminhava até sua mesa. Algumas pessoas lançaram olhares discretos. Outras desviaram rapidamente. Ninguém sabia o que dizer para alguém claramente quebrando aos poucos.
Ela recolheu suas coisas em silêncio. O porta-retrato pequeno da mãe. Algumas canetas. O casaco pendurado na cadeira. Sua vida inteira dentro de uma caixa simples de papelão.
Aquilo foi o que mais doeu.
Quando deixou o prédio, a chuva fina de Londres atingiu imediatamente seu rosto. Olívia abraçou a caixa contra o peito enquanto caminhava sem direção pela calçada movimentada. Pessoas passavam apressadas ao redor sem perceber que, naquele momento, o mundo dela estava desmoronando completamente.
Ela sentia vergonha.
Vergonha por ter falhado. Vergonha por não conseguir manter a própria vida em pé. Vergonha por perceber que estava ficando sem saída.
Seu celular vibrou dentro do bolso do casaco.
Ela demorou alguns segundos para pegar.
Número desconhecido.
Por um instante ridículo, seu coração acelerou.
Henrique.
Olívia ficou parada sob a chuva olhando para a tela acesa enquanto o telefone continuava tocando.
E pela primeira vez…
ela não teve coragem de ignorar.







