Capítulo 09

Capítulo 9 — Limites

Roman estava começando a perder a paciência.

O relógio marcava quase dez da noite quando ele finalmente saiu da última reunião do dia. O corredor da cobertura executiva da Villar Group permanecia silencioso, iluminado apenas pelas luzes frias espalhadas pelo andar inteiro. A maior parte dos funcionários já havia ido embora há horas, mas Roman continuava preso entre contratos internacionais, investidores exigentes e uma pressão crescente que parecia piorar a cada dia.

Ele afrouxou discretamente a gravata enquanto caminhava até o próprio escritório, sentindo o cansaço pesar nos ombros. Não era um homem acostumado a demonstrar desgaste, mas naquela semana tudo parecia excessivo. A imprensa continuava transformando sua vida pessoal em espetáculo público, os acionistas pressionavam discretamente suas decisões e agora até parceiros internacionais começavam a questionar sua imagem diante da empresa.

Aquilo o irritava profundamente.

Roman passou anos construindo a Villar Group praticamente sozinho. Trabalhou até a exaustão durante grande parte da juventude para transformar uma empresa pequena em um império bilionário. Nunca precisou que gostassem dele. Nunca precisou parecer agradável, emocional ou acessível. Resultados sempre foram suficientes.

Até agora.

Assim que entrou na sala, encontrou Henrique sentado no sofá próximo à janela folheando alguns documentos como se já esperasse por ele. O escritório permanecia silencioso, elegante e impecavelmente organizado, exatamente como Roman gostava. As enormes paredes de vidro revelavam Londres coberta pela chuva fina daquela noite, deixando a cidade inteira com um aspecto frio e distante.

Roman caminhou até o bar no canto da sala sem sequer perguntar por que Henrique ainda estava ali.

— Se você estiver aqui pra falar de casamento por contrato outra vez, eu realmente recomendo que repense suas escolhas de vida.

Henrique soltou uma pequena risada antes de fechar a pasta sobre as pernas.

— Infelizmente, é exatamente sobre isso.

Roman serviu whisky no copo com movimentos calmos enquanto observava o líquido âmbar refletir a luz baixa do escritório. Ele tomou um gole devagar antes de encarar novamente a cidade lá fora.

— Impressionante como minha vida virou uma reunião permanente sobre minha incapacidade emocional.

— Tecnicamente, a imprensa começou primeiro.

Roman ignorou completamente o comentário.

Nos últimos meses, parecia impossível abrir qualquer portal financeiro sem encontrar alguma manchete envolvendo seu nome. O CEO frio. O empresário incapaz de manter relacionamentos. O homem que afastava qualquer mulher depois de alguns meses. Tudo virava notícia. Tudo virava especulação.

E o pior?

Os investidores realmente começaram a se importar com aquilo.

Henrique então apoiou os documentos sobre a mesa antes de falar num tom mais sério:

— Os japoneses anteciparam novamente a reunião final.

Roman virou o rosto lentamente.

— Quando?

— Próxima semana.

O silêncio que tomou conta da sala durou alguns segundos.

Aquilo era pouco tempo.

Muito pouco.

Roman passou a mão lentamente pela mandíbula enquanto tentava controlar a irritação crescente dentro dele. O grupo Takahashi representava um dos maiores contratos internacionais da empresa nos últimos anos. Bilhões envolvidos. Expansão internacional. Influência global.

E agora existia a possibilidade real de tudo aquilo ser afetado por causa da própria imagem pública.

Patético.

— Eles querem estabilidade — Henrique continuou. — Família. Aparência de equilíbrio emocional. Tudo aquilo que você odeia.

Roman soltou uma risada baixa e amarga.

— Ótimo. Talvez eu devesse aparecer segurando um cachorro e sorrindo pra fotógrafos.

Henrique sustentou o olhar dele por alguns segundos.

— Você sabe que não é sobre isso.

Roman sabia.

Era sobre controle.

Sempre era.

Empresas internacionais queriam segurança. Investidores queriam estabilidade. E no momento, Roman Villar parecia exatamente o oposto disso diante da mídia.

Ele terminou mais um gole do whisky antes de caminhar lentamente até a mesa principal do escritório. Os olhos passaram rapidamente pelos relatórios financeiros espalhados ali, mas sua atenção desviou imediatamente quando Henrique puxou outra pasta mais fina dentre os documentos.

Olívia Becker.

Roman reconheceu o nome antes mesmo de abrir.

Aquilo sozinho já bastou para irritá-lo ainda mais.

Porque significava que vinha pensando nela mais do que deveria.

— Você tá obcecado nessa mulher agora? — perguntou friamente.

Henrique arqueou uma sobrancelha.

— Não. Mas talvez você esteja começando a ficar interessado demais nela.

Roman lançou um olhar gelado na direção dele.

— Cuidado.

Henrique ignorou completamente o aviso.

Já conhecia Roman tempo suficiente para perceber quando alguma coisa realmente mexia com ele. E aquela mulher claramente estava começando a ocupar espaço demais na cabeça dele para alguém que sequer conhecia direito.

Henrique abriu calmamente a pasta sobre a mesa.

— Ela continua resistindo.

Aquilo fez Roman permanecer em silêncio por alguns segundos.

Resistindo.

Era estranho ouvir aquela palavra associada a ele.

Quase ninguém resistia a Roman Villar.

As pessoas normalmente queriam alguma coisa.

Dinheiro.

Influência.

Luxo.

Status.

Mas Olívia Becker parecia querer exatamente o contrário: distância.

E talvez fosse isso que continuava prendendo a atenção dele mais do que deveria.

Henrique observou rapidamente algumas páginas antes de continuar:

— Ela tá cheia de problemas financeiros.

Roman desviou os olhos automaticamente para os documentos.

— Quanto?

— Dois meses de aluguel atrasado. Algumas dívidas acumuladas. E aparentemente ainda manda dinheiro ocasionalmente pra mãe no Brasil.

Aquilo causou um incômodo estranho nele.

Porque mesmo afundada nos próprios problemas, ela ainda ajudava outras pessoas.

Roman conhecia gente milionária incapaz de fazer o mesmo.

Ele observou novamente a fotografia dela anexada ao relatório. Os mesmos cabelos ruivos presos de maneira simples. Os mesmos olhos castanhos cansados. A mesma expressão séria de quem parecia carregar peso demais sozinha.

Roman lembrava perfeitamente do jeito como ela parecia exausta no evento.

E também da forma desconfiada como encarou Henrique no bar.

Como se já esperasse que o mundo estivesse tentando enganar ela o tempo inteiro.

Talvez porque estivesse mesmo.

— E mesmo assim ela recusou ouvir a proposta inteira — Henrique comentou calmamente. — Honestamente? Não posso culpar.

Roman soltou uma pequena risada sem humor.

— Finalmente uma pessoa sensata.

Henrique fechou a pasta lentamente antes de apoiar as mãos sobre a mesa.

— Mas não vai demorar muito até ela ficar sem opções.

O olhar de Roman subiu imediatamente.

Aquilo soou errado.

Frio demais.

Calculado demais.

— Não gosto da forma como você disse isso.

Henrique sustentou o olhar dele sem recuar.

— Não tô dizendo que vamos pressionar ela. Só tô dizendo que a vida já está fazendo isso sozinha.

O silêncio voltou a dominar o escritório.

Roman sabia que aquilo era verdade.

E talvez fosse exatamente o que mais incomodava.

Porque não queria alguém aceitando aquele acordo apenas por desespero absoluto. Não queria olhar para Olívia e enxergar medo ou humilhação. Aquela situação inteira já era absurda o suficiente sem transformar ela em alguém encurralada.

Mesmo assim, parte dele sabia que provavelmente era exatamente isso que acabaria acontecendo.

Henrique caminhou lentamente até a janela do escritório antes de perguntar:

— Você percebe que tá diferente desde que conheceu ela, né?

Roman soltou uma risada baixa.

— Eu literalmente não conheço ela.

— Exatamente. E mesmo assim continua perguntando sobre ela.

Aquilo fez ele permanecer em silêncio.

Porque Henrique tinha razão outra vez.

E aquilo começava a ficar irritante.

Roman terminou o whisky antes de apoiar o copo sobre a mesa com calma. Então voltou lentamente os olhos para Londres iluminada lá fora. A chuva continuava escorrendo pelos vidros enormes da cobertura enquanto a cidade permanecia fria, distante e silenciosa.

Exatamente como ele costumava ser.

— Continua acompanhando a situação dela — disse por fim.

Henrique virou o rosto lentamente.

— Profissionalmente?

Roman lançou um olhar frio na direção dele.

— Você gosta muito de brincar com a própria demissão.

Henrique quase sorriu.

Mas então sua expressão ficou séria novamente.

— Só toma cuidado pra isso não virar algo pessoal demais.

Pessoal.

Roman odiava aquela palavra.

Porque coisas pessoais criavam fraquezas.

Distrações.

Erros.

E ele não cometia erros.

Pelo menos era isso que repetia pra si mesmo enquanto observava novamente a fotografia de Olívia sobre a mesa.

Mas no fundo…

alguma coisa dizia que talvez já estivesse começando a cometer um.

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