CAPÍTULO 3

Minutos depois, Clarisse estava diante do espelho.

O vestido se ajustava ao seu corpo com uma precisão quase assustadora. Isabella circulava ao redor, fazendo pequenos ajustes, prendendo, soltando, analisando cada detalhe com olhar técnico.

— Fica parada — murmurou, concentrada.

Clarisse obedeceu, observando o próprio reflexo.

Por um instante, tudo parecia exatamente como deveria ser.

Isabella parou atrás dela.

O olhar desceu, avaliando.

Sutilmente.

— Você afinou — comentou, como quem fala do clima.

Clarisse piscou.

— Um pouco, talvez.

— “Um pouco” — repetiu Isabella, inclinando levemente a cabeça. — Você tem comido direito?

O tom não era acusador.

Era… cuidadoso demais.

Clarisse desviou o olhar por um segundo.

— Estou bem, Isa.

Isabella a encarou pelo reflexo do espelho.

Não insistiu.

Mas não acreditou completamente.

— Certo — disse, por fim, voltando ao trabalho. — Só não vai desmaiar no altar, por favor. Isso estraga qualquer produção.

Clarisse sorriu de leve, reconhecendo a tentativa de aliviar.

— O Gabriel diria exatamente isso.

Isabella soltou um riso baixo.

— Gabriel diria isso com muito menos elegância. E provavelmente com a Carol concordando do lado.

As duas riram. Esse era Gabriel, muito sincero, às vezes, até demais.

— Eles ainda estão trabalhando juntos?

— Sempre — respondeu Isabella. — Ele no campo, ela organizando tudo. Um casal perigosamente eficiente.

O silêncio se instalou por alguns segundos, confortável… até não ser mais.

Isabella deu um passo atrás, analisando o conjunto.

— Sabe… — começou, ajustando uma pequena dobra no tecido — ainda dá tempo de mudar qualquer coisa.

Clarisse franziu levemente a testa.

— No vestido?

Isabella ergueu os olhos para o espelho.

— Em tudo.

O ar pareceu pesar por um instante.

Isabella sempre poderia ser sincera com Clarisse, mas, ainda assim, o desconforto cresceu entre elas.

Clarisse manteve o olhar fixo no próprio reflexo.

— Está tudo certo, Isa.

Isabella a observou por mais um segundo.

Longo o suficiente para dizer mais do que palavras diriam.

Mas então, como se decidisse não ultrapassar aquela linha, soltou o tecido e deu de ombros.

— Ótimo. Menos trabalho pra mim.

A leveza voltou — mas não completamente.

Isabella caminhou até a mesa, pegando alguns alfinetes.

— Ah, e antes que eu esqueça… — disse, como quem muda de assunto sem importância, mas com um leve brilho travesso no olhar — você não vai acreditar em quem resolveu voltar a ser assunto nesta cidade.

Clarisse soltou um pequeno riso, já antecipando.

— Deixa eu adivinhar… — inclinou levemente a cabeça — o tal “Lord Voldemort”?

Isabella arqueou uma sobrancelha, divertida.

— Então já chegou até você. Impressionante. Campos nunca decepciona quando o assunto envolve drama e fofoca.

Clarisse deu de ombros, simples.

— Comentaram sobre isso na escola hoje. — encarando seu reflexo, Clarisse continuou — Mas parecia mais fofoca do que qualquer outra coisa.

— “Fofoca” é um jeito gentil de colocar — respondeu Isabella, pegando o celular e desbloqueando a tela com rapidez. — Espera.

Ela começou a rolar algo, com uma expressão concentrada demais para quem claramente estava só se divertindo.

— O que você está fazendo? — perguntou Clarisse, já desconfiando.

— Pesquisa de campo, minha amiga. — respondeu Isabella, séria por meio segundo… antes de sorrir. — Achei.

Ela virou o celular na direção da amiga.

— Olha o que nós temos aqui… a personificação do pecado.

Clarisse nem chegou a focar direito na tela antes de afastar levemente o rosto, rindo baixo.

— Isabella, eu não estou interessada.

— Nenhum pouco? — insistiu, fingindo indignação. — A informação é importante. Cultura geral. — Isabella piscou.

— Eu não tenho interesse — respondeu Clarisse, ainda leve, voltando o olhar para o espelho.

Isabella estreitou os olhos, avaliando a amiga. Mesmo hesitante, ela continuou:

— Não que eu queira ver você envolvida com esse tipo de problema, mas, você pode ver um homem bonito na tela do telefone, às vezes.

— Onde você quer chegar com isso, Isa? — Clarisse a encarou através do espelho.

— Diversificação de opções — disse Isabella, com naturalidade. — Eu só estou sendo uma amiga responsável.

Clarisse balançou a cabeça, divertida.

— Você está sendo inconveniente.

— Também. — concordou Isabella sem dificuldade. — Mas com boas intenções.

Ela abaixou o celular, cruzando os braços.

— E olha… — completou, casual — a foto pode não estar atualizada, mas nossa… esse homem é um gato.

Clarisse soltou uma risada baixa.

— Isso não ajuda em nada o seu argumento.

— Ajuda sim — rebateu Isabella, com um meio sorriso. — Às vezes a vida surpreende.

Clarisse lançou um olhar de canto para ela pelo espelho.

— Você está sugerindo o quê, exatamente?

Isabella ergueu as mãos em rendição.

— Nada. Absolutamente nada. Eu só acho curioso como essa cidade entra em colapso coletivo por causa de um homem que você nem se deu ao trabalho de olhar. — rindo, ela continuou — E você não se afeta em nada com isso.

— E nem vou. — respondeu Clarisse, tranquila.

— Justo — disse Isabella, dando de ombros. — Eu, pessoalmente, apoio decisões conscientes… mesmo quando são um pouco entediantes.

Clarisse riu, sabendo exatamente o que aquilo significava.

— Você não muda.

— Graças a Deus — respondeu Isabella, voltando a atenção para o vestido.

Mas, por um breve instante, seu olhar encontrou o de Clarisse pelo espelho.

E, apesar do tom leve, havia ali um cuidado silencioso.

— Sabe de uma coisa? — Isabella exclamou caminhando até uma porta ao fundo e voltou — Você precisa de um véu.

Clarisse negou com a cabeça.

— Não gosta? — Isabella questionou, incrédula.

Fez uma pausa, inclinando levemente a cabeça, como se tivesse acabado de ter uma ideia melhor.

— Tudo bem… então vamos resolver isso do jeito certo.

Clarisse a observava pelo espelho, desconfiada.

— E qual seria o “jeito certo”?

Um sorriso lento surgiu nos lábios de Isabella.

— Um lugar onde você não pense demais.

Clarisse soltou um suspiro leve… mas assentiu.

Pela primeira vez naquele dia, Clarisse não tentou entender o que vinha depois.

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