Mundo ficciónIniciar sesiónMinutos depois, Clarisse estava diante do espelho.
O vestido se ajustava ao seu corpo com uma precisão quase assustadora. Isabella circulava ao redor, fazendo pequenos ajustes, prendendo, soltando, analisando cada detalhe com olhar técnico.
— Fica parada — murmurou, concentrada.
Clarisse obedeceu, observando o próprio reflexo.
Por um instante, tudo parecia exatamente como deveria ser.
Isabella parou atrás dela.
O olhar desceu, avaliando.
Sutilmente.
— Você afinou — comentou, como quem fala do clima.
Clarisse piscou.
— Um pouco, talvez.
— “Um pouco” — repetiu Isabella, inclinando levemente a cabeça. — Você tem comido direito?
O tom não era acusador.
Era… cuidadoso demais.
Clarisse desviou o olhar por um segundo.
— Estou bem, Isa.
Isabella a encarou pelo reflexo do espelho.
Não insistiu.
Mas não acreditou completamente.
— Certo — disse, por fim, voltando ao trabalho. — Só não vai desmaiar no altar, por favor. Isso estraga qualquer produção.
Clarisse sorriu de leve, reconhecendo a tentativa de aliviar.
— O Gabriel diria exatamente isso.
Isabella soltou um riso baixo.
— Gabriel diria isso com muito menos elegância. E provavelmente com a Carol concordando do lado.
As duas riram. Esse era Gabriel, muito sincero, às vezes, até demais.
— Eles ainda estão trabalhando juntos?
— Sempre — respondeu Isabella. — Ele no campo, ela organizando tudo. Um casal perigosamente eficiente.
O silêncio se instalou por alguns segundos, confortável… até não ser mais.
Isabella deu um passo atrás, analisando o conjunto.
— Sabe… — começou, ajustando uma pequena dobra no tecido — ainda dá tempo de mudar qualquer coisa.
Clarisse franziu levemente a testa.
— No vestido?
Isabella ergueu os olhos para o espelho.
— Em tudo.
O ar pareceu pesar por um instante.
Isabella sempre poderia ser sincera com Clarisse, mas, ainda assim, o desconforto cresceu entre elas.
Clarisse manteve o olhar fixo no próprio reflexo.
— Está tudo certo, Isa.
Isabella a observou por mais um segundo.
Longo o suficiente para dizer mais do que palavras diriam.
Mas então, como se decidisse não ultrapassar aquela linha, soltou o tecido e deu de ombros.
— Ótimo. Menos trabalho pra mim.
A leveza voltou — mas não completamente.
Isabella caminhou até a mesa, pegando alguns alfinetes.
— Ah, e antes que eu esqueça… — disse, como quem muda de assunto sem importância, mas com um leve brilho travesso no olhar — você não vai acreditar em quem resolveu voltar a ser assunto nesta cidade.
Clarisse soltou um pequeno riso, já antecipando.
— Deixa eu adivinhar… — inclinou levemente a cabeça — o tal “Lord Voldemort”?
Isabella arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Então já chegou até você. Impressionante. Campos nunca decepciona quando o assunto envolve drama e fofoca.
Clarisse deu de ombros, simples.
— Comentaram sobre isso na escola hoje. — encarando seu reflexo, Clarisse continuou — Mas parecia mais fofoca do que qualquer outra coisa.
— “Fofoca” é um jeito gentil de colocar — respondeu Isabella, pegando o celular e desbloqueando a tela com rapidez. — Espera.
Ela começou a rolar algo, com uma expressão concentrada demais para quem claramente estava só se divertindo.
— O que você está fazendo? — perguntou Clarisse, já desconfiando.
— Pesquisa de campo, minha amiga. — respondeu Isabella, séria por meio segundo… antes de sorrir. — Achei.
Ela virou o celular na direção da amiga.
— Olha o que nós temos aqui… a personificação do pecado.
Clarisse nem chegou a focar direito na tela antes de afastar levemente o rosto, rindo baixo.
— Isabella, eu não estou interessada.
— Nenhum pouco? — insistiu, fingindo indignação. — A informação é importante. Cultura geral. — Isabella piscou.
— Eu não tenho interesse — respondeu Clarisse, ainda leve, voltando o olhar para o espelho.
Isabella estreitou os olhos, avaliando a amiga. Mesmo hesitante, ela continuou:
— Não que eu queira ver você envolvida com esse tipo de problema, mas, você pode ver um homem bonito na tela do telefone, às vezes.
— Onde você quer chegar com isso, Isa? — Clarisse a encarou através do espelho.
— Diversificação de opções — disse Isabella, com naturalidade. — Eu só estou sendo uma amiga responsável.
Clarisse balançou a cabeça, divertida.
— Você está sendo inconveniente.
— Também. — concordou Isabella sem dificuldade. — Mas com boas intenções.
Ela abaixou o celular, cruzando os braços.
— E olha… — completou, casual — a foto pode não estar atualizada, mas nossa… esse homem é um gato.
Clarisse soltou uma risada baixa.
— Isso não ajuda em nada o seu argumento.
— Ajuda sim — rebateu Isabella, com um meio sorriso. — Às vezes a vida surpreende.
Clarisse lançou um olhar de canto para ela pelo espelho.
— Você está sugerindo o quê, exatamente?
Isabella ergueu as mãos em rendição.
— Nada. Absolutamente nada. Eu só acho curioso como essa cidade entra em colapso coletivo por causa de um homem que você nem se deu ao trabalho de olhar. — rindo, ela continuou — E você não se afeta em nada com isso.
— E nem vou. — respondeu Clarisse, tranquila.
— Justo — disse Isabella, dando de ombros. — Eu, pessoalmente, apoio decisões conscientes… mesmo quando são um pouco entediantes.
Clarisse riu, sabendo exatamente o que aquilo significava.
— Você não muda.
— Graças a Deus — respondeu Isabella, voltando a atenção para o vestido.
Mas, por um breve instante, seu olhar encontrou o de Clarisse pelo espelho.
E, apesar do tom leve, havia ali um cuidado silencioso.
— Sabe de uma coisa? — Isabella exclamou caminhando até uma porta ao fundo e voltou — Você precisa de um véu.
Clarisse negou com a cabeça.
— Não gosta? — Isabella questionou, incrédula.
Fez uma pausa, inclinando levemente a cabeça, como se tivesse acabado de ter uma ideia melhor.
— Tudo bem… então vamos resolver isso do jeito certo.
Clarisse a observava pelo espelho, desconfiada.
— E qual seria o “jeito certo”?
Um sorriso lento surgiu nos lábios de Isabella.
— Um lugar onde você não pense demais.
Clarisse soltou um suspiro leve… mas assentiu.
Pela primeira vez naquele dia, Clarisse não tentou entender o que vinha depois.







