Ponto de Vista: VALENTINA
O sol do sábado espreitava pela cortina gasta do meu quarto, mas meu corpo pesava. Cada músculo do meu core protestava, resultado de noites dançando sob os holofotes. Esperei que aquele homem, Damian Valmont, o arrogante de terno caro, estivesse longe da cidade. Minha única consolação era que, sendo sábado, o Stardust estaria aberto, garantindo o dinheiro extra essencial para o mês.
Hoje, porém, o foco era a família. Dona Cecília e Lucas
Fiz minha higiene pessoal e desci. O aroma de café fresco e pão na chapa pairava na cozinha, um raro conforto.
Cecília: Bom dia, meu amor. Achei que você dormiria até mais tarde, aproveitando o dia de folga do sol!
Valentina: Bom dia, mãezinha. Hoje decidi ser toda de vocês. Onde está o Lucas, o preguiçoso?
Cecília: Ele ainda está dormindo. — Minha mãe sorriu, mas o brilho nos olhos não alcançou o sorriso. — Valentina, você não está pensando em procurar outro tipo de trabalho? Eu me preocupo. Você é linda, filha. Se descobrirem a beleza que está oculta sob a máscara, os homens poderão te olhar de outra forma...
Valentina: — Interrompi, suavizando a voz. — Você já me ajuda cuidando de mim e do Joaquim Lucas. Mãe, estou percebendo que você está muito pálida. Tem certeza de que não precisamos ir ao médico para verificar se o remédio ainda está com a potência ideal?
Cecília: Não se preocupe com isso, filha. Estou bem, de verdade. E, por favor, não gaste mais. Seu dinheiro mal cobre as despesas, meus medicamentos e a escola de Lucas. Se gastarmos mais, você terá que se esforçar ainda mais, e eu não quero isso.
A insistência dela me fez apertar o lábio. A sensação estranha do dia anterior se confirmava: Dona Cecília estava escondendo algo sobre o avanço de seu câncer de mama. Mas ela me olhou nos olhos e garantiu, firme: "O médico disse que os exames estão normais. São só os medicamentos." A mentira, no entanto, parecia dançar por trás daquela firmeza.
Deixei o assunto de lado. Tivemos um dia simples, mas perfeito: o riso solto de Lucas ao jogar bola na praça e o silêncio confortável de Cecília ao meu lado eram meu combustível.
Ao anoitecer, preparei-me para a boate.
Lucas: Daqui a alguns anos, estarei trabalhando. Você não precisará mais se dedicar todas as noites àquele emprego, maninha.
Senti um nó na garganta. Era por aquele menino que eu dançava.
Valentina: Nesse dia, eu me sentirei uma mulher realizada, Lucas.
Cecília: Já está saindo, filha? Cuide-se, e não se esqueça da máscara. Vá com Deus, meu amor.
Saí para a noite fria. No táxi, a máscara de vinil subiu, cobrindo o rosto que ninguém no Stardust deveria reconhecer. Era o meu último pedaço de privacidade.
Ao entrar no camarim, Isabela e Diana já estavam lá, vestidas com seus trajes de cena. A tensão era palpável.
Isabela: Que bom que você chegou, Valentina. Você não foi avisada?
Valentina: Avisada de quê?
Diana: O Murilo acabou de nos dispensar. A boate está fechada.
Valentina: Fechada? Em um sábado? Se for assim, ótimo! Quero minha cama mais cedo.
Isabela: Não para todas. Parece que o Stardust vai receber alguém muito importante, e só uma dançarina foi requisitada. O Murilo já está vindo para anunciar quem é a "sortuda".
Valentina: Que mistério é esse? E quem é o novo cliente VIP que pode fechar a boate inteira? Pensei que o Murilo fosse o dono.
Isabela: Pelo visto, ele tem um chefe. O verdadeiro proprietário não gosta de aparecer, mas a ordem veio dele.
Nossa conversa foi interrompida por Murilo à porta. Ele parecia pálido e desconfortável.
Murilo: Meninas, peço desculpas por fazê-las vir. Mas o dono do Stardust fará uma reunião e pediu que a Pantera seja a única presente.
Meu estômago gelou.
Valentina: Por que eu, Murilo? Ele me conhece?
Murilo: — Ignorou a pergunta, dirigindo-se às outras. — Meninas, podem ir. Eu cubro o pagamento de vocês.
Assim que Isabela e Diana saíram, ele fechou a porta e sentou-se na poltrona.
Murilo: Me perdoe, Valentina, por ter mentido sobre a boate ser minha. O verdadeiro proprietário não gosta de ser exposto. E, sinceramente, eu estou apavorado com o que está acontecendo. Ele ordenou que a boate estivesse vazia, só você. E assim que ele e os convidados chegarem, eu tenho que sair. Sinto muito, mas não posso contrariá-lo.
O desespero me atingiu. Ele me deixaria sozinha, exposta a um estranho poderoso. Será que meus princípios valiam o emprego que sustentava minha mãe doente? Murilo se levantou, me deixando paralisada.
Minutos depois, ele voltou, o suor na testa.
Murilo: Eles estão chegando. Ele está ansioso pela sua apresentação. Vá com Deus.
Ele saiu, me abandonando ao meu destino. Coloquei o top e o shortinho que expunham minhas curvas e, mais uma vez, a máscara. Eu tremia, mas subi no palco.
Estava escuro. A música começou, e eu iniciei minha dança, tentando canalizar o medo em sensualidade. Girei na barra, mas a cada movimento eu esperava o pior.
De repente, as luzes de LED acenderam com um brilho ofuscante, e uma voz seca, amplificada pelos alto-falantes, ecoou:
— Damas e senhores, bem-vindos ao dono do Stardust: DAMIAN VALMONT!
Meu corpo parou no ar. O choque me atingiu como um raio. O CEO, o arrogante que levei a tapa... ele era o proprietário. Ele organizou isso. Era uma armadilha, uma demonstração de poder para provar que ele estava no controle.
Ele estava ali, à frente, os olhos negros fixos em mim, um sorriso de predador se abrindo lentamente em seus lábios. Eu estava totalmente perdida.
Ele subiu ao palco com a confiança de um rei e parou bem atrás de mim, seu hálito quente em meu pescoço.
Damian: Como devo agir em relação ao tapa que você deu em mim, a mim, o proprietário do seu ganha-pão? Eu te avisei que isso teria consequências. Agora, Pantera, mostre seu talento no show que foi pago particularmente para você dançar para o dono da boate e para os meus colegas que acabaram de chegar.
Ele roçou os lábios em meu pescoço, o beijo frio e cruel.
Olhei para a frente. Quatro homens de terno escuro estavam sentados na mesa VIP, observando-me com olhares gélidos. Aqueles eram os "amigos" de Damian, os envolvidos no tráfico. O medo me paralisou. Ficar significava me humilhar e me expor a homens perigosos. Fugir significava perder o emprego e deixar minha mãe sem tratamento.