Mundo de ficçãoIniciar sessãoNão tive outra opção além de trazer Lira para morar na minha casa depois que ela foi expulsa pelo próprio pai. De qualquer forma, eu teria que passar um ano casado com ela.
Mas deixei uma coisa muito clara: Ela deveria manter distância da Nina. O problema é que Lira simplesmente não me ouviu. Quando passei pelo corredor naquela manhã, percebi que a porta do quarto dela estava entreaberta. Parei sem fazer barulho. Ouvi Nina conversando animadamente com ela. — Mas o meu papai nunca tem tempo para mim — reclamou Nina com a voz triste. — Seu pai trabalha muito, princesa — respondeu Lira com paciência. — Mas isso não significa que ele não a ame. Pelo contrário, você é a pessoa mais importante da vida dele. Fiquei imóvel. Por algum motivo, aquelas palavras me atingiram. Eu esperava que Lira tentasse colocar minha filha contra mim. Mas ela estava fazendo exatamente o contrário. Ela me defendia. Observei as duas por alguns segundos. Nina sorria. Lira também. Pareciam amigas de longa data. Aquilo me incomodou mais do que deveria. Entrei no quarto sem bater. Lira se assustou e se levantou imediatamente. Nina arregalou os olhos. — Papai! — Nina, vá para o seu quarto — ordenei sem tirar os olhos de Lira. A menina olhou de mim para ela. — Mas... — Agora. Cabisbaixa, Nina saiu. Assim que ficamos sozinhos, cruzei os braços. — O que pensa que está fazendo? Lira ergueu o queixo. — Nada. Sua filha veio me procurar. A resposta me irritou ainda mais. Sem dizer nada, virei as costas e bati a porta ao sair. Passei o resto do dia na empresa. No meio da tarde, Will ligou para saber se os preparativos para o casamento estavam encaminhados. O casamento aconteceria no fim de semana. Só de pensar nisso meu estômago embrulhava. Eu teria que apresentar Lira para todos. Minha futura esposa. Uma desconhecida. O que as pessoas pensariam? Passei anos sozinho e, de repente, apareceria casado. E com uma mulher completamente fora do meu círculo social. Meu avô realmente havia encontrado uma forma de destruir minha paz. Quando voltei para casa, no final da tarde, descobri algo que me deixou furioso. Lira havia ido ao ensaio de balé da Nina. A governanta tinha lhe dado o endereço da escola. Fechei os punhos. Ela havia ignorado uma ordem direta. Era a primeira mulher que não fazia o que eu mandava. Liguei imediatamente para o motorista. — Onde estão? — Já estamos chegando, senhor. Desliguei e fiquei esperando. Minutos depois, vi Nina entrar pela porta de mãos dadas com Lira. As duas riam. Felizes. Como se fossem mãe e filha. Meu sangue ferveu. — Nilva! — chamei. A governanta apareceu imediatamente. — Leve Nina para o quarto. A menina percebeu meu tom de voz e soltou a mão de Lira devagar. — O que aconteceu, papai? — Nada, princesa. Vá com a Nilva. Ela obedeceu. Assim que ficamos sozinhos, segurei o braço de Lira e a levei para o escritório. — Está me machucando! — reclamou ela, tentando se soltar. Fechei a porta atrás de nós. — O que você pensa que está fazendo? — Levando uma criança para o ensaio dela. — Eu disse para ficar longe da Nina! Lira me encarou sem recuar. — E eu vi uma menina triste porque o pai nunca aparece. A resposta me atingiu como um soco. — Não fale daquilo que não sabe! — Sei o suficiente. Ela apontou para a porta. — Sua filha precisava de alguém lá. E você não estava. Meu maxilar travou. — Você não tem o direito de me julgar. — E você não tem o direito de abandonar emocionalmente uma criança. Perdi a paciência. — Lira, você está proibida de sair sem a minha permissão. Está me ouvindo? Ela respirou fundo. — Estou. — O casamento será no fim de semana. Alguns vestidos chegarão amanhã para você experimentar. Ela permaneceu em silêncio. — Agora pode se retirar. E não me desobedeça novamente. Aproximei-me dela. — Porque da próxima vez posso trancar você neste quarto até o dia do casamento. Os olhos dela se arregalaram por um instante. Mas, para minha irritação, ela não demonstrou medo. Apenas foi embora. Sozinho no escritório, passei as mãos pelo rosto. O pior era que ela tinha razão. Eu não estava presente para Nina. Mas admitir isso era outra história. Naquela noite, recebi uma ligação da minha ex-sogra. Ela queria saber quem era a mulher com quem eu pretendia me casar. Expliquei quem era Lira. Só omiti um detalhe: Que ela vinha de uma família humilde. Esperava ao menos que soubesse se comportar diante da sociedade. Na hora do jantar, pedi que chamassem Lira. Quando ela entrou na sala, Nina correu para o lado dela. Aquilo já estava se tornando um hábito. Levantei-me. — Quero apresentar oficialmente Lira como a nova senhora desta casa. No próximo fim de semana nós nos casaremos. O sorriso de Nina foi imediato. — Papai! Ela bateu palmas, animada. — Estou tão feliz! Vou ter uma mamãe! Meu coração apertou. — Posso ser dama de honra? Por favor! Olhou para mim com os olhos brilhando. Como eu poderia negar? — Sim, filha. Ela gritou de felicidade. Logo depois abraçou Lira. — Posso te chamar de mamãe Lira? Lira ficou emocionada. Seus olhos ficaram marejados. — Se você quiser, pode. Nina a abraçou ainda mais forte. — Eu gosto muito de você! Observei a cena em silêncio. E pela primeira vez senti algo estranho. Ciúmes. Minha filha parecia mais feliz com Lira em poucos dias do que comigo em anos. Durante o jantar, as duas conversaram sem parar. Riam. Contavam histórias. Faziam planos. Pareciam uma família de verdade. — Papai! — chamou Nina animada. — Vamos tomar sorvete depois? Abri a boca para responder, mas Lira falou antes. — Hoje não, princesa. Nina fez bico. — Por quê? — Porque seu pai trabalhou muito hoje. Mas teremos muitos passeios pela frente. Ela olhou para mim. — Não é mesmo? Fuzilei-a com o olhar. Lira apenas sorriu. Depois do jantar, levou Nina para a sala de brinquedos. Respirei fundo. Que caos. Minha vida havia virado de cabeça para baixo. Fui para o escritório. Servi uma dose de bebida. Depois outra. E mais outra. Ontem eu estava sozinho. Hoje havia uma mulher desconhecida morando comigo. E minha filha estava completamente encantada por ela. O celular tocou. Era Silvio. — Está tudo pronto para o casamento. Assim que desliguei, arremessei o copo contra a parede. O vidro explodiu em dezenas de pedaços. — Maldita herança! — rosnei. Meu avô tinha conseguido. Tinha me encurralado. Na manhã seguinte, acordei cedo. Ao descer as escadas, encontrei uma cena inesperada. Lira preparava o lanche escolar de Nina. A menina tomava café sorrindo. — Meu amor, termine de comer — disse Lira carinhosamente. — Hoje vou comer tudo! — respondeu Nina. — Estou feliz. — E por quê? — Porque agora tenho uma mãe. Meu peito apertou. — Meus colegas dizem que eu não tenho pai nem mãe. Lira segurou o rostinho dela. — Não diga isso. Sua voz era firme e doce ao mesmo tempo. — Você tem um pai que ama você. Ele só trabalha demais. Nina sorriu. — E você? Lira acariciou seus cabelos. — Eu também amo você. Foi nesse momento que apareci. As duas se viraram. Lira levou um susto. — Papai! — Nina correu até mim. Ela me abraçou e beijou meu rosto. Retribuí o abraço. — Bom dia, filha. Percebi Lira observando a cena em silêncio. — Termine seu café — falei para Nina. — Você vai se atrasar. Lira organizou a mochila dela e a deixou pronta para a escola. Subi para buscar meu celular no quarto. Mas quando voltei... As duas já tinham saído. Bufei de raiva. Lira havia levado Nina para a escola sem minha autorização. Mais uma vez. Aquela mulher realmente não tinha a menor intenção de me obedecer. E eu já estava chegando ao meu limite.






