Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando me aproximei, senti o perfume dele mais uma vez, havia algo nele que me deixava confusa, como se meu corpo reagisse sem meu consentimento.
O estacionamento era frio… e minhas roupas ainda úmidas não ajudavam.
Ele não se moveu. Apenas ficou ali, esperando que eu fosse até ele...E eu fui.
Assim que parei a poucos passos, ele se virou e seguiu em direção ao elevador, como se já soubesse que eu o seguiria. Minhas pernas tremiam, mas me obedeceram.
Ele passou um cartão, e a porta se abriu em silêncio.
Quanto dinheiro e poder aquele homem tinha? Político? Banqueiro? Ou algo pior?
Entrei no automático, ficando no canto oposto ao dele.
Tentei controlar a respiração, com a sensação absurda de que ele podia ouvir meu coração. E, de algum jeito… parecia mesmo.
O ar ali dentro era pesado. O elevador era amplo e, ainda assim, claustrofóbico.
Quando as portas se abriram, não havia corredor, era um hall, pequeno e elegante, tão luxuoso quanto a cobertura.
Ele tirou o casaco com naturalidade e jogou sobre uma poltrona. Engoli em seco.
Meus olhos caíram nas costas largas, no movimento calmo, seguro. Ele seguiu sem olhar para trás.
E eu fiquei ali, parada...esperando, sem saber se o pior era o silêncio… ou as perguntas que ele ainda não tinha feito.
— Vai ficar aí na porta?
A voz veio com leve sarcasmo.
— Não estava tão tímida assim ontem.
Aquilo me irritou quase instantâneamente. Era fácil para ele, alguém que provavelmente nunca precisou fugir de nada.
Respirei fundo e entrei.
— Eu sei que fiz errado, ok? Tentei...
A sala era grande. Vidro, luz, tudo impecável… caro demais, muito distante da minha realidade.
Ele estava de pé, de costas para a cidade, com um copo de uísque na mão. Me observava como se já soubesse exatamente o que eu ia dizer.
E isso me incomodou, mas não recuei. Era a única coisa que eu ainda tinha.
— Você viu. Continuei. — Aquele homem… o que seu segurança acertou… ele estava me seguindo naquele dia também e ... a fantasia chamou a atenção da Amy. Eu fiquei com pena, não queria invadir sua casa, eu só…
— Mas invadiu. Ele me cortou, frio. Sem elevar o tom.
Aquilo me desestabilizou.
— Sim, mas eu não pretendia ficar. Era só por alguns minutos e...
— Você nos usou. Outro corte. Mais preciso. — A mim… e à minha filha.
Meu estômago apertou.
— Eu sinto muito.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Sente?
— Sim. Não estou orgulhosa do que fiz… mas eu precisava.
Um segundo de silêncio, que pareceu uma eternidade.
Ele me olhou de cima a baixo, sem pressa, como se estivesse decidindo algo.
— Hum… precisava. Repetiu, pensativo.
Depois deu mais um gole no uísque.
— Talvez eu possa esquecer esse… evento.
Meu corpo ficou rígido.
— Esquecer?
Ele não respondeu de imediato, mas os olhos passearam pelo meu corpo outra vez… subiram devagar até o meu rosto.
— Depende.
Algo dentro de mim se fechou na hora.
— Esquece. Eu disse, sem pensar.
Ele soltou um sopro baixo, quase um riso.
— Você é sempre tão ansiosa assim?
Ele caminhou até uma mesa, abriu uma pasta e voltou com um papel e estendeu na minha direção.
— Leia.
Peguei, segurei o papel, mas as palavras não faziam sentido. Eu entendia o suficiente… mas não o bastante.
— Eu consigo ler… mas não tudo. Admiti.
Ele estendeu a mão, recuei um pouco, mas entreguei.
Ele nem olhou o papel. Apenas o deixou de lado… e puxou outro.
Quando colocou na minha frente, meu coração falhou uma batida.
Era todo escrito em russo, perfeito, sem erros.
Levantei os olhos devagar, ele já estava me observando.
— Fica mais fácil assim? A pergunta veio calma, quase educada. Mas não era gentileza, era controle.
Meu estômago contraiu, causando um desconforto horrível, estava vazio.
— Você investigou minha vida?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Eu sei o suficiente sobre tudo e todos que entram na minha casa. Não negou, nem se quer justificou.
Meus dedos apertaram o papel, agora eu conseguia ler. Cada linha, cada palavra.
E, de repente… Aquilo não parecia um contrato.
Parecia uma sentença, outra prisão.
— Eu não posso aceitar isso. Falei, recuando um passo.
Foi um acidente...uma coincidência.
Ele se moveu no mesmo instante, sem pressa. Mas suficiente para me fazer recuar um passo e depois outro, até minhas costas encostarem na parede. Deixei de respirar.
Ele parou à minha frente, perto demais, podia sentir o calor que vinha dele, perigoso.
Não me tocou, não precisou.
— Pode. Disse, baixo.
Como um fato.
— Isso não é um emprego… Eu disse, a voz quase falhando, voltando a buscar o ar misturado ao perfume dele.
— Não, é um acordo. Disse ele.
O silêncio pesou.
— Eu explico. Continuou, calmo, seguro e sem pressa.
— Você mora lá. Tempo integral.
Meu coração acelerou.
— Amy não fica com estranhos. Você não entra e sai quando quer.
Ele pausou, eu suava.
— Sigilo absoluto.
Os olhos dele prenderam nos meus.
— Nada do que acontece naquela casa sai de lá.
Um arrepio subiu pela minha espinha.
— Sem visitas.
Minha respiração falhou, novamente.
— Sem exceções.
Engoli em seco.
— E uma folga por mês.
Quase uma concessão, um presente.
— Estou sendo generoso, considerando as circunstâncias.
— Circunstâncias? Levantei as sobrancelhas, confusa.
Ele deu meio passo à frente, ainda mais perto.
— Você está ilegal no país.
Ele não julgava, constatava. Esfregava na minha cara na verdade.
— Está sendo seguida.
Outro golpe, preciso.
— Entrou na minha casa.
Eu não tinha defesa.— Lá dentro… ninguém te alcança.
— Isso não é proteção. Sussurrei. — É controle.
Um leve sorriso surgiu, nos lábios dele.
— É a mesma coisa… dependendo de onde você está.
Olhei para o papel e depois para ele.
Depois para a porta, estava sem saída, de novo.
— E se eu disser não?
Ele não respondeu na hora, só me olhou, os olhos indecifráveis, frios.
— Então eu faço aquela ligação.
— Ou você volta para a rua...onde aquele homem está... A voz dele era baixa.
Meu corpo travou.
— E, dessa vez… talvez eu não esteja por perto.
Aquilo não foi uma ameaça, era a constatação da verdade. Respirei fundo, abri os olhos.
Olhei para o papel… depois para ele e entendi e ele sabia, desde o início, que eu não tinha escolha.
Minhas mãos tremiam, então apertei o contrato com mais força, como se aquilo pudesse me dar algum controle sobre a situação, mas não dava.
Se eu não assinasse… na melhor das hipóteses, seria entregue... presa e depois deportada.
E, se assinasse…
Meu peito apertou, minha liberdade acabava ali.







