6- Liberdade em risco.

Quando me aproximei, senti o perfume dele mais uma vez, havia algo nele que me deixava confusa, como se meu corpo reagisse sem meu consentimento.

O estacionamento era frio… e minhas roupas ainda úmidas não ajudavam.

Ele não se moveu. Apenas ficou ali, esperando que eu fosse até ele...E eu fui.

Assim que parei a poucos passos, ele se virou e seguiu em direção ao elevador, como se já soubesse que eu o seguiria. Minhas pernas tremiam, mas me obedeceram.

Ele passou um cartão, e a porta se abriu em silêncio.

Quanto dinheiro e poder aquele homem tinha? Político? Banqueiro? Ou algo pior?

Entrei no automático, ficando no canto oposto ao dele.

Tentei controlar a respiração, com a sensação absurda de que ele podia ouvir meu coração. E, de algum jeito… parecia mesmo.

O ar ali dentro era pesado. O elevador era amplo e, ainda assim, claustrofóbico.

Quando as portas se abriram, não havia corredor, era um hall, pequeno e elegante, tão luxuoso quanto a cobertura.

Ele tirou o casaco com naturalidade e jogou sobre uma poltrona. Engoli em seco.

Meus olhos caíram nas costas largas, no movimento calmo, seguro. Ele seguiu sem olhar para trás.

E eu fiquei ali, parada...esperando, sem saber se o pior era o silêncio… ou as perguntas que ele ainda não tinha feito.

— Vai ficar aí na porta? 

A voz veio com leve sarcasmo.

— Não estava tão tímida assim ontem.

Aquilo me irritou quase instantâneamente. Era fácil para ele, alguém que provavelmente nunca precisou fugir de nada.

Respirei fundo e entrei.

— Eu sei que fiz errado, ok? Tentei...

A sala era grande. Vidro, luz, tudo impecável… caro demais, muito distante da minha realidade.

Ele estava de pé, de costas para a cidade, com um copo de uísque na mão. Me observava como se já soubesse exatamente o que eu ia dizer.

E isso me incomodou, mas não recuei. Era a única coisa que eu ainda tinha.

— Você viu. Continuei.  — Aquele homem… o que seu segurança acertou… ele estava me seguindo naquele dia também e ... a fantasia chamou a atenção da Amy. Eu fiquei com pena, não queria invadir sua casa, eu só…

— Mas invadiu. Ele me cortou, frio. Sem elevar o tom.

Aquilo me desestabilizou.

— Sim, mas eu não pretendia ficar. Era só por alguns minutos e...

— Você nos usou. Outro corte. Mais preciso. — A mim… e à minha filha.

Meu estômago apertou.

— Eu sinto muito.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Sente?

— Sim. Não estou orgulhosa do que fiz… mas eu precisava.

Um segundo de silêncio, que pareceu uma eternidade.

Ele me olhou de cima a baixo, sem pressa, como se estivesse decidindo algo.

— Hum… precisava. Repetiu, pensativo.

Depois deu mais um gole no uísque.

— Talvez eu possa esquecer esse… evento.

Meu corpo ficou rígido.

— Esquecer?

Ele não respondeu de imediato, mas os olhos passearam pelo meu corpo outra vez… subiram devagar até o meu rosto.

— Depende.

Algo dentro de mim se fechou na hora.

— Esquece. Eu disse, sem pensar.

Ele soltou um sopro baixo, quase um riso.

— Você é sempre tão ansiosa assim?

Ele caminhou até uma mesa, abriu uma pasta e voltou com um papel e estendeu na minha direção.

— Leia.

Peguei, segurei o papel, mas as palavras não faziam sentido. Eu entendia o suficiente… mas não o bastante.

— Eu consigo ler… mas não tudo. Admiti.

Ele estendeu a mão, recuei um pouco, mas entreguei.

Ele nem olhou o papel. Apenas o deixou de lado… e puxou outro.

Quando colocou na minha frente, meu coração falhou uma batida.

Era todo escrito em russo, perfeito, sem erros.

Levantei os olhos devagar, ele já estava me observando.

— Fica mais fácil assim? A pergunta veio calma, quase educada. Mas não era gentileza, era controle.

Meu estômago contraiu, causando um desconforto horrível, estava vazio.

— Você investigou minha vida?

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Eu sei o suficiente sobre tudo e todos que entram na minha casa. Não negou, nem se quer justificou.

Meus dedos apertaram o papel, agora eu conseguia ler. Cada linha, cada palavra.

E, de repente… Aquilo não parecia um contrato.

Parecia uma sentença, outra prisão.

— Eu não posso aceitar isso. Falei, recuando um passo.

Foi um acidente...uma coincidência.

Ele se moveu no mesmo instante, sem pressa. Mas suficiente para me fazer recuar um passo e depois outro, até minhas costas encostarem na parede. Deixei de respirar.

Ele parou à minha frente, perto demais, podia sentir o calor que vinha dele, perigoso.

Não me tocou, não precisou.

— Pode. Disse, baixo.

Como um fato.

— Isso não é um emprego… Eu disse, a voz quase falhando, voltando a buscar o ar misturado ao perfume dele.

— Não, é um acordo. Disse ele.

O silêncio pesou.

— Eu explico. Continuou, calmo, seguro e sem pressa.

— Você mora lá. Tempo integral.

Meu coração acelerou.

— Amy não fica com estranhos. Você não entra e sai quando quer.

Ele pausou, eu suava.

— Sigilo absoluto.

Os olhos dele prenderam nos meus.

— Nada do que acontece naquela casa sai de lá.

Um arrepio subiu pela minha espinha.

— Sem visitas.

Minha respiração falhou, novamente.

— Sem exceções.

Engoli em seco.

— E uma folga por mês.

Quase uma concessão, um presente.

— Estou sendo generoso, considerando as circunstâncias.

— Circunstâncias? Levantei as sobrancelhas, confusa.

Ele deu meio passo à frente, ainda mais perto.

— Você está ilegal no país.

Ele não julgava, constatava. Esfregava na minha cara na verdade.

— Está sendo seguida.

Outro golpe, preciso.

— Entrou na minha casa.

Eu não tinha defesa.

— Lá dentro… ninguém te alcança.

— Isso não é proteção. Sussurrei. — É controle.

Um leve sorriso surgiu, nos lábios dele.

— É a mesma coisa… dependendo de onde você está.

Olhei para o papel e depois para ele.

Depois para a porta, estava sem saída, de novo.

— E se eu disser não?

Ele não respondeu na hora, só me olhou, os olhos indecifráveis, frios.

— Então eu faço aquela ligação.

— Ou você volta para a rua...onde aquele homem está... A voz dele era baixa.

Meu corpo travou.

— E, dessa vez… talvez eu não esteja por perto.

Aquilo não foi uma ameaça, era a constatação da verdade. Respirei fundo, abri os olhos.

Olhei para o papel… depois para ele e entendi e ele sabia, desde o início, que eu não tinha escolha.

Minhas mãos tremiam, então apertei o contrato com mais força, como se aquilo pudesse me dar algum controle sobre a situação, mas não dava.

Se eu não assinasse… na melhor das hipóteses, seria entregue... presa e depois deportada.

E, se assinasse…

Meu peito apertou, minha liberdade acabava ali.

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