Capítulo 02 - Todas são iguais

Philip Caldwell – Narrando.

Eu havia acabado de sair do hospital.

Precisei tomar um antialérgico antes que eu me complicasse; eu não poderia ter uma crise agora.

Respirei fundo e sai do carro, ajustando a minha roupa.

A noite já havia caído e, mesmo depois de chegar em casa, o trabalho ainda não saía de mim.

— Mande um aviso. Providencie uma notificação formal à cafeteria. Quero isso documentado ainda hoje — ordenei à minha assistente. — Quero o nome da funcionária, o horário do ocorrido e o comprovante do pedido.

Antes que eu pudesse ouvir a resposta, meu pé se afundou em algo, fazendo um ruído engraçado e irritante. – Era um pato de borracha.

Meu corpo se estremeceu de nervoso e antes que eu pudesse reclamar, um par de braços envolveu meu corpo.

Meu corpo se enrijeceu imediatamente.

— Que diabos pensa que está fazendo? — perguntei em tom baixo e duro, enquanto via a babá ajeitar a roupa, tentando se aproximar novamente.

— O senhor deve ter tido um dia cansativo… deixe-me o ajudar com o terno. – Disse ela, levando o par de mãos ao meu peito, mas antes que ela encostasse, dei um passo para trás.

— Não toque em mim. —Falei segurando as mãos dela no ar. — Essa bagunça. Oque dignifica isso?

— Ah, os docinhos estavam brincando. Eu os mandei tomar banho e os coloquei para dormir mais cedo… — disse ela, ajustando o decote do vestido. — Assim poderíamos ficar mais à vontade.

— Ficar à vontade? — repeti, virando o rosto levemente enquanto sentia o maxilar travar. — Senhorita, recomponha-se. Eu a contratei para cuidar dos meus sobrinhos. Nada além disso.

Ela parecia não me ouvir. – Parecia que eu estava falando em outro idioma.

— Eu só queria ajudar… O senhor parece tão tenso. – Disse ela dando a volta atrás de mim, tocando em meus ombros.

— Eu disse para não me tocar. — Minha voz saiu firme, sem espaço para discussão. Eu me desvencilhei do toque, ficando novamente de frente para ela. — Não preciso mais dos seus serviços. Pegue suas coisas e saia.

— Senhor Caldwell… Por quê?  — ela tentou argumentar, deixando a voz falhar. —Pensei que estivéssemos nos dando bem...

Eu a olhei completamente desacreditado com o que eu ouvia e arqueei uma sobrancelha.

—Não, nós não estamos. Existe um certo limite entre chefe e funcionária e a senhorita ultrapassou todos eles. Pegue suas coisas e saia.

— Senhor Cald...- Eu estava no meu limite e não consegui me segurar.

Pontei para a porta da entrada, olhando-a com frieza.

— Saia. Agora.

Ela não insistiu novamente.

Observei enquanto a via pegar a bolsa às pressas, deixando a casa. O perfume doce e enjoativo ficou no ar, fazendo meu estômago se revirar.

Soltei um resmungo irritado e caminhei até a poltrona, empurrando alguns brinquedos com o pé.

Minha cabeça parecia querer explodir. E além do caos de sempre, agora eu tinha mais um problema com outra babá. – Todas pareciam iguais. Aceitavam a vaga apenas para poder tirar proveito disso.

Passei a mão pelas têmporas e peguei o celular novamente, lembrando da ligação interrompida. Disquei para minha assistente e esperei até que atendesse.

— Senhor Caldwell?

— Senhorita Morgan — respondi, com a voz cansada, porém firme. — Vou precisar de outra babá. Com urgência.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha.

— Mais uma, senhor? — ela perguntou com cuidado. — A última não durou nem duas semanas… houve algum problema específico desta vez?

— Falta de profissionalismo, como sempre. — Respondi sem hesitar. — Essa ultrapassou limites que foram claramente estabelecidos.

Ela suspirou discretamente.

— Entendido. Vou providenciar imediatamente.

— Antes disso, deixe três pontos absolutamente claros no anúncio — continuei. — Primeiro: experiência comprovada com crianças. Segundo: estabilidade emocional e psicológica.

Fiz uma breve pausa, passando a mão pela testa.

— E terceiro: nenhum tipo de interesse pessoal em mim. O vínculo será estritamente profissional. E o valor não é um problema.

— Sim, senhor. Vou cuidar disso agora mesmo — respondeu ela, profissional como sempre.

Desliguei o telefone e fiquei alguns segundos parado antes de me levantar.

Subi as escadas lentamente até o quarto das crianças. A porta estava entreaberta, e a luz dos abajures criava um ambiente tranquilo. Eles dormiam profundamente.

A cena sempre me causava um aperto estranho no peito.

Desde a morte dos pais deles, assumi a responsabilidade de cuidar dos dois e garantir que nada lhes faltasse. Ainda assim, eu nunca havia sido bom com crianças.

Talvez nunca fosse.

Fechei a porta com cuidado e segui até o final do corredor, onde encontrei uma das empregadas caminhando pelo lugar.

— Senhor Caldwell, posso ajudá-lo em alguma coisa?

A olhei e soltei um respiro cansado.

— Não. Apenas certifique-se de que nada do que aconteceu hoje chegue até eles.

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