Henrique chegou atrasado.
Isso, por si só, não chamava atenção.
O que chamou foi o óculos escuros.
Mesmo dentro do elevador envidraçado, mesmo no corredor iluminado demais para aquele horário, ele não se deu ao trabalho de tirá-los. Caminhava com passos calculados, como se cada luz fosse um ataque pessoal.
Aurora o viu antes que ele chegasse à sala.
Respirou fundo.
— Aurora Boreal — disse Henrique, a voz mais rouca do que o habitual. — Faz um favor.
Ela levantou os olhos do computador.
— Depende.
Ele apoiou a mão na divisória da mesa.
— Aspirina. Ou qualquer coisa que cure a ressaca da noite passada.
Ela o encarou por alguns segundos. Lentamente, fechou o notebook.
— Ressaca?
— Sim — respondeu ele, como se fosse óbvio. — Algum problema?
Aurora cruzou os braços.
— O problema é o senhor chegar assim na empresa.
Henrique inclinou a cabeça.
— Assim como?
— De óculos escuros. Com cheiro de álcool. Pedindo remédio como se estivesse em casa.
— Estou — re