Quando me arrastaram até a entrada dos aposentos de Isabela, o céu já começava a clarear.
Uma neve fina caía sobre as montanhas. Os flocos se acumulavam nos degraus de pedra e logo se tingiam de vermelho ao tocar o sangue que escorria pelo meu corpo.
Percebendo que eu mal conseguia continuar de joelhos, um dos guardas do Templo apoiou a bainha da espada sobre meu ombro e me forçou para baixo.
— Lívia, o senhor Henrique ordenou que a senhora permanecesse ajoelhada como deve ser.
Ergui os olhos para ele.
Até ontem, sempre que me viam, aqueles homens me chamavam respeitosamente de dona Lívia.
Nem um dia inteiro havia se passado.
E até isso já tinha mudado.
O portão do pátio se abriu.
Isabela apareceu vestida com um traje cerimonial de um vermelho intenso.
No instante em que meus olhos pousaram sobre o bordado na manga, meu corpo enrijeceu.
Entre os ramos floridos entrelaçados, quase escondida, havia uma pequena letra "H".
Eu mesma a tinha bordado.
Para terminar o vestido que usaria na cerimônia do meu pacto matrimonial com Henrique, passei sete noites praticamente sem dormir.
Naquela época, ele se sentava ao meu lado sob a luz da lamparina. Enquanto massageava meus pulsos doloridos, dizia em voz baixa:
— Lívia, não precisa correr.
Então sorria para mim.
— Ainda temos muito tempo pela frente.
E eu acreditei.
Só muito depois entendi que o tempo que duas pessoas permanecem juntas nunca depende do destino.
Depende apenas de quanto cada uma ainda deseja ficar.
Isabela acompanhou meu olhar até o vestido e, fingindo só então perceber o detalhe na manga, cobriu o bordado com a mão.
— Lívia, não entenda mal.
Sua voz continuava doce.
— Henrique disse que o vestido já estava pronto e que seria um desperdício deixá-lo guardado. Eu só quis experimentar. Juro que nunca pensei em tomar algo que era seu.
Ela falava com uma delicadeza quase ofendida.
Ao mesmo tempo, seus dedos acariciavam devagar o bordado que eu passara noites fazendo.
Olhei para ela por alguns segundos.
De repente, não senti raiva.
Só cansaço.
— Pode ficar com ele.
Isabela pareceu surpresa.
Continuei, num tom baixo:
— Afinal, se não se incomoda em vestir o que pegou de outra pessoa, pode continuar usando.
Seus lábios perderam a cor, e as lágrimas logo vieram.
— Por que você insiste em falar comigo assim?
Uma voz masculina surgiu do outro lado do corredor.
— Lívia Duarte.
Rafael vinha em nossa direção.
Ao perceber Isabela chorando, apertou o passo.
— Depois de tudo isso, você ainda não entendeu onde errou?
Mal terminou de falar e me empurrou pelo ombro.
Eu já mal conseguia me sustentar.
Com o impacto, rolei escada abaixo.
Minhas costas atingiram com violência uma escultura de pedra no pátio, e o gosto de sangue encheu minha boca antes mesmo que eu conseguisse respirar.
Isabela deu dois passos apressados na minha direção, mas parou logo depois.
— Rafael, não faz isso. Eu entendo que a Lívia esteja sofrendo.
Ela abaixou os olhos.
— Antes, ela tinha o núcleo mágico intacto, tinha a própria espada do pacto... E tinha Henrique.
Fez uma pausa curta.
— Agora perdeu tudo. É normal que guarde rancor de mim.
Cada frase saiu de sua boca com uma delicadeza impecável.
E cada uma acertou exatamente onde ainda doía.
Meu núcleo mágico havia sido arrancado do meu corpo pelas próprias mãos de Henrique.
Naquele dia, Isabela fora invadida por magia sombria, e a maldição já havia alcançado seu coração.
O curandeiro dissera que somente uma parte de um núcleo mágico puro e poderoso seria capaz de conter aquela força dentro dela.
Henrique passou a noite inteira ao lado da minha cama.
Quando acordei, seus olhos estavam vermelhos de cansaço.
Ele segurou minha mão e falou com a voz rouca:
— Lívia, Isabela não vai sobreviver até o amanhecer.
Olhei para ele.
— E daí?
Henrique ficou em silêncio por muito tempo.
No fim, abaixou a cabeça e beijou de leve a ponta dos meus dedos.
— Sua magia é muito poderosa.
Sua voz saiu quase como um pedido.
— Perder uma parte do núcleo não vai causar nenhum dano irreversível a você.
Naquela noite, eu descobri o quanto uma pessoa podia sentir dor sem morrer.
No fim, cheguei a quebrar entre os dentes o pedaço de madeira que haviam colocado na minha boca para me ajudar a suportar.
Quando Isabela acordou, começou a chorar e disse que não tinha coragem de aceitar uma parte do meu núcleo.
Henrique apenas a abraçou e a acalmou em voz baixa.
— Já passou.
Já passou.
Duas palavras tão simples.
Foi assim que ele resumiu tudo o que eu havia perdido em carne, sangue e magia.
Desde aquele dia, sempre que eu tentava empunhar uma espada, minha mão direita tremia sem controle.
Mais tarde, até minha espada se partiu.
Eu ainda conseguia ver Isabela pisando sobre os fragmentos da minha espada do pacto, os olhos avermelhados enquanto perguntava:
— Lívia, você não vai ficar com raiva de mim, vai?
Fechei os olhos.
Quando os abri novamente, Henrique já havia entrado no pátio.
Ele viu Isabela chorando.
Viu também meu corpo coberto de sangue.
E a primeira coisa que perguntou foi:
— O que você disse para ela desta vez?
Pensando bem, eu já nem deveria me surpreender.
Apoiei a mão no degrau de pedra e consegui me sentar devagar.
Meus olhos voltaram para o vestido vermelho que Isabela usava.
— Desejo felicidades aos dois.
Ela ficou imóvel.
Encarei-a e pronunciei cada palavra com clareza:
— Espero que você use o meu vestido de casamento, fique com o núcleo mágico que tiraram do meu corpo e continue pisando sobre os restos da minha espada do pacto...
Parei por um instante.
— E que vocês envelheçam juntos.
O pátio inteiro mergulhou em silêncio.
Isabela ficou ainda mais pálida.
Henrique veio na minha direção com passos rápidos, a barra do casaco longo varrendo a fina camada de neve acumulada diante dos degraus.
Assim que ele se aproximou, Isabela praticamente se jogou em seus braços.
— Henrique, eu realmente não queria irritar a Lívia.
Ele a segurou pelos ombros.
Depois olhou para mim.
Por um segundo, eu ainda esperei.
Esperei que me perguntasse uma única coisa.
Se ainda estava doendo.
Mas Henrique apenas disse:
— Lívia, hoje é a cerimônia do Templo.
Uma risada baixa escapou de mim.
— E daí?
A mandíbula dele se contraiu.
— Você precisa mesmo fazer esse escândalo e transformar nós dois em motivo de piada para o Templo inteiro?
Um escândalo.
Era assim que Henrique enxergava tudo o que haviam feito comigo.
Como drama.
Como capricho.
Como uma cena desnecessária.
Fitei-o e respondi devagar:
— Henrique, você realmente sabe sair de qualquer situação com a consciência limpa.
Por um instante, ele ficou sem reação.
Meu sorriso se aprofundou.
— Usou a minha vida para salvar a dela. Pegou o vestido que eu preparei para o nosso casamento e transformou em traje para a cerimônia de vocês.
Minha voz saiu cada vez mais calma.
— E, no fim, ainda acha que o problema sou eu por não aceitar tudo isso em silêncio.
Henrique agarrou meu pulso.
A pressão atingiu exatamente o ponto onde o cravo antimagia estava enterrado, fazendo o metal raspar contra o osso.
— Chega.
Sua voz saiu baixa, carregada de tensão.
— Lívia, não precisa falar desse jeito.
Ouvir meu nome naquele tom ainda fez meu coração reagir por puro hábito.
Antes, bastava Henrique me chamar assim para que eu cedesse.
Mas, daquela vez...
Não senti nada além de frio.
Isabela puxou a manga dele, chorando.
— Henrique, então eu não participo da cerimônia.
Ela respirou fundo, como se tentasse conter as lágrimas.
— Eu não quero que, por minha causa, a Lívia passe a odiar você desse jeito.
Henrique ficou em silêncio por alguns segundos.
Então ergueu a mão e enxugou as lágrimas dela com o polegar.
O gesto foi tão cuidadoso que assistir àquilo doeu mais do que eu gostaria de admitir.
Quando tornou a me encarar, porém, toda aquela delicadeza havia desaparecido.
— Você vai ficar viva e assistir à cerimônia inteira.
Meus dedos começaram a esfriar.
Henrique fez uma breve pausa.
Quando voltou a falar, sua voz estava ainda mais baixa.
— Quando a cerimônia terminar, se você ainda estiver ressentida comigo, eu explico tudo.
Mas eu já não queria explicação alguma.
A voz do sistema soou em minha mente.
— O nível de afeição da Hospedeira caiu.
— Nível atual de afeição: 7.
Henrique também ouviu.
Dessa vez, eu vi.
Por um instante, o pânico atravessou seu olhar antes que ele conseguisse escondê-lo.
Mas Henrique desviou o rosto quase imediatamente.
Mesmo agora, ainda se recusava a acreditar.