Na sala lateral, queimava o incenso de cedro de que eu tanto gostava antigamente.
Quando Henrique mandou que me trancassem ali, ainda fez questão de instruir a criada:
— Mantenha a lareira acesa. Ela sente muito frio à noite.
A criada respondeu em voz baixa.
Recostada junto ao divã, ouvi aquilo e não consegui evitar uma risada.
Então ele ainda se lembrava de que eu sentia frio.
Ainda se lembrava do aroma de cedro de que eu gostava.
Mas havia esquecido que uma parte do meu núcleo mágico já tinha sido arrancada e que, naquele estado, eu mal conseguia suportar o vento cortante da área de confinamento da Torre Norte.
Também parecia ter esquecido que minha espada do pacto havia sido destruída.
Ela estava ligada diretamente à minha alma.
Desde que tinha se partido, a dor nunca havia cessado. Era como se incontáveis agulhas atravessassem minha alma sem parar.
De tempos em tempos, o sistema emitia um novo alerta.
— A estabilidade da alma da Hospedeira continua diminuindo.
— Preparando o caminho de volta.
Henrique estava parado perto da porta.
Ao ouvir o aviso, hesitou por um instante.
Ergui os olhos.
— Você ouviu.
Ele não negou.
Apenas se aproximou e parou diante de mim.
— Lívia, quantas coisas você ainda está escondendo de mim?
Levei alguns segundos para reagir.
Então, mesmo depois de tudo, aquela ainda era a primeira coisa que ele queria saber.
— O que eu escondi de você?
Henrique sustentou meu olhar, a voz carregada de uma frieza contida.
— Você não é deste mundo.
Meu coração afundou.
Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios, sem qualquer vestígio de humor.
— Então foi isso desde o começo?
Ele continuou:
— Você se aproximou de mim, casou comigo e ficou no Templo só para cumprir essa tal missão?
Fiquei em silêncio.
Demorei alguns segundos para entender o que realmente estava acontecendo.
Henrique tinha ouvido o sistema.
Mas, entre tudo o que poderia ter compreendido, escolhera justamente a possibilidade que mais temia.
Ele acreditava que eu só havia me aproximado dele por causa da missão.
Que poderia abandoná-lo a qualquer momento.
Que aqueles três anos nunca tinham significado que eu realmente quisesse permanecer ao seu lado.
Minha garganta se apertou.
Doía.
E, ao mesmo tempo, parecia que tudo dentro de mim estava ficando frio.
— Henrique.
Encarei-o.
— E se eu disser que não foi assim?
Parei por um instante.
— Você acreditaria em mim?
Ele não respondeu.
Às vezes, o silêncio machucava muito mais do que um simples "não".
Passos soaram do lado de fora.
Isabela entrou carregando uma tigela de remédio.
Já havia tirado o vestido vermelho e agora usava um vestido longo de cor clara. Seus olhos ainda estavam um pouco inchados de tanto chorar, o que a fazia parecer ainda mais frágil.
— Rique, eu trouxe o remédio da Lívia.
Henrique não a impediu de entrar.
Isabela veio até mim e estendeu a tigela.
— Lívia, toma um pouco.
Sua voz era suave.
— Você está muito machucada. No fundo, o Rique também está sofrendo com tudo isso.
Baixei os olhos para o remédio.
— Sofrendo?
Isabela se inclinou discretamente e falou baixo o bastante para que só eu pudesse ouvi-la.
— Lívia, ontem à noite o Rique ficou ao lado da minha cama o tempo todo. Não dormiu nem por um minuto.
Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
— Ele disse que você é teimosa demais. Que, depois de sofrer um pouco, acaba cedendo.
Ela fez uma pausa.
— E que, quando a cerimônia de hoje terminar, vai resolver tudo com você.
"Resolver tudo comigo."
Quase ri.
No fim, tudo o que restava entre nós era um "vai resolver tudo com você".
De repente, Isabela girou o pulso.
A tigela escorregou de sua mão e caiu no chão.
A porcelana se despedaçou com um estalo seco.
Um dos cacos raspou o dorso da mão dela.
Foi apenas um corte superficial.
Uma única gota de sangue apareceu sobre a pele.
Henrique, porém, segurou sua mão no mesmo instante.
— Como você consegue ser tão descuidada?
Isabela balançou a cabeça, com lágrimas já se acumulando nos olhos.
— Não foi culpa da Lívia.
Sua voz tremeu.
— Eu que não segurei direito.
Henrique então se voltou para mim.
Havia reprovação em seu rosto.
Cansaço.
E aquela decepção que, no passado, eu mais temia encontrar nele.
— Lívia...
Eu o interrompi.
— Eu não encostei nela.
Henrique ficou em silêncio por um segundo.
— Eu sei.
Parei de respirar por um instante.
Ele sabia.
Sabia perfeitamente.
E, ainda assim, continuava ao lado dela.
Henrique baixou os olhos para mim e disse num tom quase indiferente:
— Mas a cerimônia começa hoje. Eu não posso deixar Isabela passar por mais nenhum abalo.
Fiquei encarando-o.
E foi ali que finalmente entendi.
Isabela nunca o enganava de verdade.
Henrique simplesmente escolhia não enxergar.
Porque quem acabava sofrendo era eu.
Porque, até então, não importava o que ele fizesse...
No fim, eu sempre o perdoava.
A voz do sistema tornou a ecoar em minha mente.
— Nível atual de afeição: 3.
Henrique perdeu a cor no mesmo instante.
Apoiei a mão na beirada do divã e me levantei devagar.
— Henrique.
Ele franziu a testa.
— O que você quer dizer agora?
Fitei-o por alguns segundos.
— Não quero mais ver a aurora boreal do Norte com você.
Seu corpo enrijeceu.
Aquela tinha sido uma promessa dele.
— Também não quero mais o vinho dos votos da nossa cerimônia.
Continuei:
— Nem a chama de proteção que você disse que manteria acesa para mim para sempre.
Minha mão foi, por hábito, até o espaço vazio ao lado da cintura.
Era ali que minha espada deveria estar.
— E o nome que você gravou com as próprias mãos no cabo da minha espada...
Fiz uma pausa.
— Também não quero mais.
Dessa vez, Henrique não conseguiu esconder a reação.
— Lívia, pare de falar coisas da boca para fora.
Balancei a cabeça.
— Não estou dizendo isso por raiva.
Ergui o rosto e o encarei.
— Você me prometeu que nunca me decepcionaria nesta vida.
Minha voz saiu tranquila.
— Agora, eu libero você dessa promessa.
Henrique agarrou meus ombros de repente.
Seus dedos apertaram com tanta força que pareciam prestes a esmagar meus ossos.
Mas sua voz permaneceu perigosamente baixa.
— Quem disse que você pode me liberar dessa promessa?
A dor me fez perder a cor.
Mesmo assim, não desviei os olhos.
Até consegui sorrir.
— Henrique. Você já destruiu essa promessa há muito tempo.
Meu sorriso enfraqueceu.
— Não sobrou nada dela para eu manter.
A mandíbula dele se contraiu.
Ao lado, Isabela começou a soluçar.
— Rique, a culpa é toda minha. Se não fosse por mim, a Lívia não odiaria você desse jeito.
Ela enxugou as lágrimas.
— Ela está tão machucada... É natural que esteja ressentida. Não brigue mais com ela por minha causa.
Quanto mais Isabela tentava acalmá-lo, mais rígido Henrique ficava.
Ele me encarou como se finalmente tivesse esgotado toda a paciência.
— Lívia.
Sua voz saiu baixa.
— Será que eu cedi demais a você todos esses anos?
Não respondi.
Então o sistema tornou a soar.
— Nível atual de afeição: 1.
Por um instante, ninguém se moveu.
Henrique obviamente também havia escutado.
Mas, dessa vez, soltou apenas uma risada curta, carregada de frieza.
— De novo isso.
Ele me soltou.
— Antes, quando você usava essa história de ir embora para me pressionar, eu ainda me dava ao trabalho de acalmar você.
Sua voz foi ficando cada vez mais dura.
— Agora pretende continuar com esse teatro absurdo até hoje?
Fiquei olhando para ele, sem reação.
Então realmente havíamos chegado a esse ponto.
Mesmo agora, Henrique continuava acreditando que eu estava fingindo.
Ele me fitou de cima, e tudo o que restava em sua voz era frieza e decepção.
— Lívia, se você realmente pudesse ir embora, não precisaria fazer questão de me deixar ouvir essas coisas toda vez. Você fez toda essa confusão por um único motivo.
Ele prosseguiu:
— Quer que eu ceda antes do início da cerimônia. Quer que eu abandone Isabela diante de todo mundo e volte para consolar você.
Henrique fez uma breve pausa.
— Mas você se acha importante demais.
Cada palavra acertou meu peito devagar.
Não de uma vez.
Uma após a outra.
Até não restar nada para ferir.
Continuei olhando para ele.
E, de repente, não tive mais vontade de me explicar.
Eu já havia contado a verdade a Henrique tantas vezes.
Ele nunca acreditara.
Com os olhos vermelhos, Isabela puxou de leve a manga dele.
— Rique, não fale assim com a Lívia. Do jeito que ela está, ela não vai aguentar...
Henrique fechou os olhos por um instante.
Quando tornou a abri-los, sua decisão já estava tomada.
— Levem-na para a área de confinamento da Torre Norte.
Ele não olhou mais para mim.
— Ela não sai de lá antes que a cerimônia termine.
Dois guardas do Templo entraram e me seguraram pelos braços.
Quando já estávamos chegando à porta, ouvi Henrique acrescentar atrás de mim:
— Levem uma capa mais grossa para ela.
Uma risada escapou dos meus lábios.
Baixa.
Quase sem força.
Mesmo assim, foi suficiente para silenciar a sala inteira.
Henrique ergueu os olhos. A impaciência já se tornava evidente.
Virei o rosto para ele.
— Henrique. Se você realmente tem medo de que eu passe frio...
Parei por um instante.
— Então não deveria ter me deixado sozinha na neve daquela vez.
Henrique ficou tenso.
— Lívia, até quando você vai continuar com isso?
Não respondi.
Apenas o observei em silêncio, pela última vez.
Naquele instante, alguma coisa dentro do meu peito finalmente se rompeu por completo.
Então era isso.
A pessoa por quem eu tinha feito de tudo para permanecer naquele mundo...
No fim, achava até minhas últimas palavras cansativas demais para ouvir.