Mundo de ficçãoIniciar sessãoA cidade nunca dormia completamente — ela apenas trocava de máscara.
Em uma das boates mais exclusivas de São Paulo, onde luzes vermelhas e violetas cortavam a fumaça artificial como lâminas de neon, o som grave da música fazia o chão vibrar sob saltos altos e expectativas perigosas.
E então ela surgiu.
Sob o foco central, uma mulher vestida em couro vermelho ajustado ao corpo caminhou até o centro do palco com passos lentos, calculados. O salto fino — alto demais para parecer confortável — marcava cada movimento com autoridade. A máscara negra escondia metade do rosto, mas os olhos claros brilhavam por trás dela, frios e hipnotizantes.
A plateia masculina silenciou como se alguém tivesse desligado o mundo.
Ela não sorria.
Ela dominava.
A música mudou para um ritmo mais lento, envolvente. Seu corpo começou a se mover com precisão estudada — quadris marcando o compasso, braços deslizando pelo próprio corpo como se contasse uma história que ninguém ali teria permissão de ouvir até o final.
Ela não dançava apenas.
Ela provocava.
Cada giro fazia o couro refletir as luzes do palco. Cada inclinar de cabeça parecia uma sentença. Alguns homens se aproximaram do palco, outros permaneceram sentados, observando como predadores hipnotizados — mas ali, naquela altura, era ela quem comandava o jogo.
— Domadora… — alguém sussurrou perto do bar.
Era assim que a conheciam.
A Domadora.
O número terminou com ela ajoelhada, a cabeça erguida, o olhar firme atravessando a multidão. O silêncio durou dois segundos — e então veio a explosão de aplausos, assobios e promessas murmuradas.
Ela se levantou sem pressa.
Virou-se.
E desapareceu atrás da cortina preta.
No corredor escuro que levava aos camarins, o som da música ficou distante. Ela soltou o ar devagar, retirando os saltos por um instante para aliviar os pés. O espelho iluminado refletiu sua figura — o couro vermelho, a máscara, os cabelos escuros ondulados caindo pelas costas.
Ali, naquele espaço pequeno e abafado, ela não era a babá carinhosa que passava a tarde trançando o cabelo de uma criança de cinco anos.
Ali, ela era poder.
A porta se abriu sem bater.
— Você incendiou o palco de novo — disse Laura, a dona da boate, encostando-se na parede com um sorriso satisfeito.
Laura era elegante, prática e sabia reconhecer ouro quando via. E Domadora era ouro.
— Foi uma noite comum — ela respondeu, a voz mais baixa, firme.
— Se isso é comum, eu não quero saber o que é extraordinário.
Laura cruzou os braços.
— Você tem agenda cheia hoje.
— Quantos?
— Três encontros privados. Dois antigos, um novo.
Ela ergueu o queixo levemente.
— O novo já conhece as regras?
— Assinou tudo. Pagou adiantado.
Domadora assentiu.
Regras eram fundamentais. Ali, tudo era encenação controlada, acordos silenciosos e limites muito claros. Ela não vendia o corpo. Vendia experiência, fantasia, sensação de entrega — mas sempre sob o comando dela.
— Sala três primeiro — Laura avisou. — Ele pediu especificamente por você.
Ela se aproximou do espelho, retocando o batom vermelho intenso.
— Todos pedem.
Laura riu.
— É por isso que você é a mais disputada da casa.
Antes de sair, Laura a segurou pelo braço.
— Só cuidado.
— Eu sempre tenho.
No corredor reservado, as luzes eram mais suaves. O som da música chegava abafado. Um segurança abriu a porta da sala três.
Lá dentro, um homem de terno escuro aguardava, sentado em uma poltrona. Gravata solta. Postura tensa.
Ela entrou devagar.
— Boa noite — disse ele, a voz levemente trêmula.
Ela fechou a porta atrás de si.
— Aqui dentro, você não fala até que eu permita.
O homem engoliu em seco e assentiu.
Ela caminhou ao redor dele como quem analisa uma peça rara. Não havia pressa. O silêncio era parte da tensão.
— Você sabe por que está aqui? — ela perguntou, a voz baixa e controlada.
— Sim.
— E sabe que aqui quem conduz sou eu?
— Sei.
Ela inclinou o rosto, observando-o através da máscara.
— Então relaxe.
A palavra parecia simples, mas tinha peso. Ali, homens que comandavam empresas, famílias e impérios entregavam o controle voluntariamente. Era essa inversão que os atraía. Não era apenas desejo — era fuga.
Ela tocou o ombro dele com a ponta dos dedos, firme, mas sem agressividade.
— Olhe para mim.
Ele obedeceu.
E ali estava o segredo: ela não oferecia apenas provocação. Oferecia atenção absoluta.
Minutos depois, quando saiu da sala, seu salto voltou a ecoar pelo corredor.
Laura aguardava.
— Satisfeito?
— Como sempre.
— Próximo é na sala cinco.
Ela respirou fundo.
— O novo?
— Sim. Pediu anonimato máximo. Máscara também.
Domadora ergueu levemente uma sobrancelha sob a própria máscara.
— Interessante.
Enquanto caminhava até a próxima sala, sentiu aquela velha sensação — um misto de controle e risco. A vida dupla que levava exigia equilíbrio constante. Durante o dia, mãos pequenas seguravam seus dedos pedindo histórias de fadas.
À noite, homens adultos pediam algo completamente diferente.
Diante da porta da sala cinco, ela ajustou as luvas de couro vermelho.
O segurança abriu.
A sala estava à meia-luz. Um homem estava de pé, também usando máscara.
Ela fechou a porta atrás de si.
— Você conhece as regras? — perguntou.
A resposta veio firme, grave.
— Conheço.
Algo naquela voz a fez pausar por meio segundo.
Mas ela não demonstrou.
— Então ajoelhe-se.
O homem não hesitou.
E, enquanto assumia novamente o papel da Domadora, algo dentro dela sussurrou que aquela noite seria diferente.
Muito diferente.
Porque, por trás de máscaras, o perigo não era apenas ser descoberta.
Era reconhecer alguém que jamais deveria estar ali.







