Capítulo vinte e quatro
Desirée

A manhã começa antes do sol.

Não porque eu esteja disposta, mas porque meus sentimentos não me deixam dormir além das seis.

Levanto da cama com o corpo pesado, como se estivesse carregando cem versões de mim mesma.

Vou até o ateliê, meu santuário, meu exílio, e acendo as luzes amareladas que deixam tudo com cara de amanhecer, mesmo quando o mundo lá fora ainda dorme.

O quadro está lá.

Do jeito que deixei ontem.

Do jeito que eu tento terminar há semanas.

Helena.

Ou melhor: a tentativa desesperada de capturá-la.

A tela é grande, imponente, maior do que eu costumo fazer. Preciso de espaço para comportar tudo que sinto e que não digo. O fundo é um degradê suave de cores quentes, como se o sol estivesse sempre nascendo atrás dela.

Começo a misturar tintas, criando tons de ouro, âmbar, pêssego…

Tons que nunca ficam exatamente como eu quero, porque nenhuma cor consegue reproduzir o que ela provoca em mim.

Com o pincel fino, trabalho nos detalhes do cabelo. As
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