Desirée
A manhã começa antes do sol.
Não porque eu esteja disposta, mas porque meus sentimentos não me deixam dormir além das seis.
Levanto da cama com o corpo pesado, como se estivesse carregando cem versões de mim mesma.
Vou até o ateliê, meu santuário, meu exílio, e acendo as luzes amareladas que deixam tudo com cara de amanhecer, mesmo quando o mundo lá fora ainda dorme.
O quadro está lá.
Do jeito que deixei ontem.
Do jeito que eu tento terminar há semanas.
Helena.
Ou melhor: a tentativa desesperada de capturá-la.
A tela é grande, imponente, maior do que eu costumo fazer. Preciso de espaço para comportar tudo que sinto e que não digo. O fundo é um degradê suave de cores quentes, como se o sol estivesse sempre nascendo atrás dela.
Começo a misturar tintas, criando tons de ouro, âmbar, pêssego…
Tons que nunca ficam exatamente como eu quero, porque nenhuma cor consegue reproduzir o que ela provoca em mim.
Com o pincel fino, trabalho nos detalhes do cabelo. As