4. JONAS

Quando chego à boate, Marquinhos já está me esperando. O lugar está lotado de mulheres bonitas, música alta e gente por todos os lados. Dou os parabéns para a aniversariante e sorrio de canto.

Hoje eu pretendia aproveitar a noite.

Dou uma rápida olhada ao redor quando um feixe de luz ilumina uma mulher sentada sozinha no bar, segurando uma bebida entre os dedos delicados. Meu corpo inteiro fica em alerta.

Eu a reconheço imediatamente.

É a garota que atropelou a minha mãe.

Um sorriso surge em meus lábios.

Hoje ela não me escapa.

Quero fazê-la engolir cada palavra que me disse naquele dia.

— Já achou a presa da noite, Miller? — Marquinhos pergunta, seguindo a direção do meu olhar.

Cruzo os braços e solto uma risada baixa.

— Essa daí é brava, hein, Marquinhos? Observa daqui para você ver.

Piscolo para ele e sigo em direção ao bar.

Quando paro bem na frente dela, percebo o exato momento em que me reconhece. O semblante muda imediatamente. Os olhos estreitam e os lábios se comprimem numa linha fina de irritação.

Ela definitivamente não gostou de me ver.

Por algum motivo, isso me diverte.

Eu já descobri como tirá-la do sério. Basta mencionar o carro e ela fica vermelha de raiva, com uma vontade evidente de me acertar um tapa.

E eu adoro provocar.

Logo percebo que ela não é uma mulher fácil. É arisca, teimosa e responde à altura.

Passamos boa parte da noite como gato e rato, trocando provocações e ofensas.

Eu não desgrudo dela.

Não costumo desistir fácil.

Também não gostei nem um pouco quando ela me chamou de sabugo de milho.

Logo eu.

Um homem bonito, elegante e praticamente uma obra de arte.

Mas, por mais que eu tentasse brincar, era impossível ignorar a atração que existia entre nós.

A química era absurda.

Uma hora a discussão virou provocação.

A provocação virou aproximação.

E, quando percebi, estava segurando sua cintura.

O beijo aconteceu de forma intensa.

Ela tentou resistir por alguns segundos, mas acabou correspondendo.

A sensação foi eletrizante.

Quando finalmente a senti entregue ao momento, uma voz conhecida destruiu tudo.

— Miller!

Fechei os olhos e respirei fundo.

Não.

Não podia ser.

Virei a cabeça e encontrei Marquinhos acenando para mim.

Bufei de ódio.

— Espero que seja algo muito importante, Marquinhos — rosnei. — Porque, se não for, eu acabo com você.

Ele ergueu as mãos em rendição.

— Relaxa, Miller. A menina é uma tremenda gata. Quero te apresentar.

Cerrei os dentes.

A vontade era mandar ele para o inferno.

Antes de sair, voltei a olhar para Mia.

— Me espera.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— E quem disse que eu vou esperar você?

— Eu estou dizendo.

Ela revirou os olhos.

— Convencido.

Sorri.

— Você gosta.

Ela tentou esconder o sorriso.

Mas eu vi.

Infelizmente, fui arrastado por Marquinhos.

Tudo aquilo para me apresentar uma amiga dele.

Uma garota que não chegava nem perto da mulher que minha mãe chamava de anjo.

A mesma mulher que tinha acabado de bagunçar completamente a minha cabeça.

Acabei indo até o estacionamento para conversar com a garota.

Ela era bonita.

Mas não despertava absolutamente nada em mim.

Tentava me agradar o tempo todo, sem personalidade, sem atitude.

A cada minuto que passava, eu me arrependia mais de ter saído de perto da Mia.

Quando finalmente consegui me livrar daquela situação e voltei para dentro da boate, procurei por ela em todos os cantos.

No bar.

Na pista.

Nas mesas.

Nada.

Meu coração afundou.

Ela tinha ido embora.

Passei a mão pelos cabelos e soltei um palavrão baixo.

Tudo que consegui lembrar foi do gosto do seu beijo.

— Como estava lá, Miller? — Marquinhos apareceu com a maior cara de inocente.

Olhei para ele incrédulo.

— Eu devia acabar com você.

— Nossa, tudo isso?

— Você me apresentou uma garota quase virgem. Obrigado por enterrar minha noite.

Marquinhos caiu na gargalhada.

— Eu não sabia, cara!

— Pois devia saber.

— Se eu soubesse que aquela lá era a exclusiva da noite, não teria nem te chamado.

Cruzei os braços.

— Ela não era exclusiva.

— Ah, não? — ele debochou.

— Não.

— Então por que está com essa cara?

Fiquei em silêncio.

Marquinhos me analisou por alguns segundos.

— Estou começando a não te reconhecer.

Revirei os olhos.

— A mulher é demais.

— Opa...

— Linda, cheirosa, gostosa...

— Ih...

— E o beijo dela...

Marquinhos arregalou os olhos.

— Pronto. Está apaixonado.

— Cala a boca.

— Você falou do beijo.

— Porque foi bom.

— Você nunca fala do beijo.

Suspirei irritado.

— Ela disse que se chama Mia.

— E você?

— Disse que me chamo Bruno.

Marquinhos arregalou os olhos.

— Era só o que me faltava. Mentir o nome.

Dei de ombros.

— Ela deve ter mentido também.

— E mesmo assim está obcecado.

— Não estou obcecado.

— Está sim.

Ignorei o comentário.

O resto da festa ficou sem graça.

Dancei algumas músicas.

Fiquei com outra garota.

Mas nada parecia suficiente.

No fim da noite ainda precisei levar Marquinhos para casa porque o sujeito mal conseguia ficar em pé.

— Você é um péssimo amigo — resmunguei enquanto o ajudava a sair do carro.

— Eu te amo também — respondeu ele, completamente bêbado.

Balancei a cabeça.

Meu fim de carreira.

Depois segui para a casa dos meus pais.

Ao chegar, tomei um banho demorado.

Enquanto escovava os dentes, só conseguia pensar nela.

Onde eu encontraria aquela mulher de novo?

Porque, definitivamente, nossa história não tinha terminado naquela boate.

Deitei nu, me cobri com o edredom e adormeci.

No dia seguinte, acordo quase às dez da manhã.

Através da janela vejo minha mãe no jardim.

Hoje ela está pintando.

Aquela cena sempre me traz de volta à realidade.

Por mais que eu tente ignorar, ainda dói vê-la naquela situação.

O dia está perfeito.

Sol forte.

Céu azul.

Vontade de pegar uma prancha e correr para Santos.

Levanto da cama, tomo um banho rápido e me arrumo.

O café da manhã ainda está posto na mesa.

Enquanto como, envio uma mensagem para Ingrid.

Pergunto se havia alguma convidada chamada Mia na lista da festa.

Algo me diz que aquele não era seu verdadeiro nome.

Depois de terminar o café, pergunto a Dina pelo meu pai.

— Ele saiu para jogar tênis.

Pisquei algumas vezes.

— Meu pai?

— Sim.

— Jogando tênis?

Ela riu da minha expressão.

— Todo domingo.

Definitivamente eu não sabia disso.

Vou até o jardim.

Minha mãe continua concentrada na pintura.

Quando me aproximo, meu coração dá um salto.

O rosto desenhado na tela é familiar.

Muito familiar.

Parece ela.

Parece Mia.

— Quem é essa, mãe? — pergunto, beijando seu rosto.

Ela sorri.

— A moça do acidente, filho.

Olho novamente para o quadro.

Até pintada ela consegue ser bonita.

— Estou tentando deixá-la parecida — continua minha mãe. — Eu entrei na rua de repente. Ela não teve culpa.

Sento ao seu lado.

— Eu acredito em você, mãe.

Ela segura minha mão.

— Fiquei muito triste naquele dia.

Baixo a cabeça.

— Eu só fiquei preocupado.

— Eu sei.

Suspiro.

— Mas prometo que, se eu encontrá-la novamente, vou pedir desculpas.

Minha mãe sorri emocionada.

— Isso me deixaria muito feliz.

Naquele momento meu celular vibra.

É Ingrid.

Nenhuma convidada chamada Mia.

Sabia.

Ela tinha mentido.

Depois de acompanhar minha mãe na terapia, resolvo passar na casa de Ingrid.

Viagem perdida.

A folgada estava dormindo e não queria ser incomodada.

Pouco depois, meu amigo Olavo me convida para uma festa em sua mansão.

Quando chego lá, encontro exatamente o que esperava.

Mulheres de biquíni.

Roda de samba.

Bebida à vontade.

O paraíso para qualquer homem solteiro.

Ou pelo menos deveria ser.

Passei o dia inteiro por lá.

Conversei com várias mulheres.

Sorri.

Dancei.

Bebi.

Mas nenhuma delas era ela.

No final da tarde, uma garota chamada Bia se aproxima.

— Fica comigo, gato?

Ela passa a mão pelo meu braço e sorri.

— Me diz o seu nome.

— Jonas.

Ela ri.

— Você tem cara de quem mente.

— E você tem cara de quem gosta de mentirosos.

Ela gargalha.

Minutos depois, me beija.

O beijo é bom.

Mas não mexe comigo como deveria.

Mesmo assim, conversamos um pouco e acabamos indo embora juntos.

Horas depois, nos despedimos.

Antes de sair, ela deixa seu contato sobre a mesa.

— Quando precisar de mim, é só ligar.

Forço um sorriso.

— Pode deixar.

Ela vai embora.

Eu fico sozinho.

Encaro o teto por alguns segundos.

Era para eu estar satisfeito.

Era para eu estar feliz.

Mas não estava.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, uma mulher tinha ido embora levando meus pensamentos junto com ela.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App