3. MARIZA

Um dia antes da festa, depois do trabalho, fui comprar uma roupa para o aniversário e também procurar um presente para a aniversariante.

Escolhi um vestido preto elegante e um salto alto. Quando experimentei o vestido, ele ficou perfeitamente ajustado ao meu corpo, valorizando minhas curvas na medida certa. Satisfeita com a escolha, pedi que a vendedora embalasse tudo.

Aproveitei que meu cabelo já estava bastante comprido e fui ao salão para cortar as pontas e renovar o visual. Depois passei na manicure, cuidei das unhas, fiz depilação e tudo aquilo a que tinha direito.

No caminho para casa, entrei em uma loja de bebês e comprei um vestido lindo para Isa.

Quando cheguei ao apartamento, Mila já estava na cozinha preparando o almoço.

— Fiu, fiu! Que arraso, dona Mariza! Olha só como está linda!

Sorri.

— Resolvi cortar um pouco o cabelo. Mudar de vez em quando faz bem. O que está preparando para o almoço?

— Frango grelhado e salada. Você mesma disse que está de dieta.

— Sim, estou mesmo. Ah, experimenta esse vestido na Isa depois. Comprei para ela.

Subi para o meu quarto e parei diante do espelho.

Por alguns segundos fiquei observando meu reflexo.

Era como se uma nova mulher estivesse surgindo.

Mais segura.

Mais confiante.

Mais determinada.

Troquei de roupa e desci para almoçar com Mila, que já havia colocado tudo na mesa.

Como sempre, ela tinha arrasado na comida.

Depois do almoço fui descansar um pouco.

À noite, saí para passear com a bebê.

A brisa suave tocava meu rosto enquanto caminhávamos.

Eu gostava daqueles momentos de tranquilidade.

Mas, às vezes, sentia que algo ainda faltava para eu ser completamente feliz.

Talvez fosse saudade.

Talvez fosse carência.

Talvez fosse apenas a sensação de que minha vida ainda estava incompleta.

Senti saudades da minha família.

Fazia tempo que não os visitava.

Talvez estivesse na hora de voltar para casa.

Quando o passeio terminou, devolvi Isa para a mãe dela e fui para o apartamento.

Escolhi assistir a um filme de romance.

Naquela noite eu estava particularmente romântica.

Mas o cansaço venceu.

Acabei adormecendo antes mesmo de descobrir como a história terminava.

---

Na manhã seguinte, fui para a faculdade.

Estava cursando uma pós-graduação na minha área e ainda pensava na possibilidade de iniciar Administração no futuro.

Passei o dia inteiro em aulas.

Durante um intervalo, confirmei a entrega das flores e do presente para a aniversariante.

Quando percebi, já era início da noite.

O trânsito estava simplesmente infernal.

Eu estava tão cansada que nem sabia se realmente iria à festa.

No caminho, parei em um salão para arrumar o cabelo.

Aproveitei para fazer uma maquiagem leve e elegante.

Enquanto me olhava no espelho, comecei a rir sozinha.

Eu estava me arrumando como se fosse para uma grande festa, mas a única coisa que queria naquele momento era ir para casa e dormir.

Quando finalmente cheguei ao apartamento, tomei um banho demorado e relaxante.

Estava terminando de me arrumar quando Mila entrou no quarto sem bater.

— Cadê a Mariza com "Z"? Porque eu não estou encontrando ela aqui nesse quarto!

Revirei os olhos.

— Você me conhece, Mila. Sabe quando fico para baixo. Estou assim desde ontem. Acho que é carência. Estou meio sem ânimo.

Ela cruzou os braços.

— Então vá se divertir! Se a festa não estiver boa, você volta para casa. Agora, comprou uma roupa linda dessas para ficar com cara de quem está indo para um velório?

Acabei rindo.

Talvez ela tivesse razão.

Terminei de me arrumar.

Vesti o vestido preto.

Calcei o salto alto.

Retoquei o batom.

Peguei minha bolsa.

Respirei fundo.

E fui.

---

Ao chegar à boate, entreguei meus documentos na entrada e segui para o estacionamento.

Desci do carro observando tudo ao meu redor.

O lugar era impressionante.

Luxuoso.

Sofisticado.

Cheio de luzes e pessoas elegantemente vestidas.

Na entrada colocaram uma pulseira de identificação em meu braço.

A festa já estava lotada.

Entrei devagar, observando cada detalhe do ambiente.

A música era animada.

As pessoas conversavam, dançavam e brindavam.

Segui até o balcão.

— Um drink sem álcool, por favor.

Recebi a bebida e comecei a tomá-la devagar.

Enquanto isso, observava tudo ao meu redor.

A aniversariante me avistou de longe e veio ao meu encontro sorrindo.

Nós nos abraçamos.

— Feliz aniversário! Que seu novo ciclo seja repleto de alegrias.

— Obrigada, querida! Estou muito feliz que você veio.

Ela sorriu.

— Está gostando da festa?

— Sim, está maravilhosa.

E realmente estava.

Mas, sendo sincera comigo mesma, eu já começava a sentir vontade de voltar para casa.

Algo dentro de mim dizia que aquela noite ainda reservava surpresas.

E eu não fazia ideia de como minha vida estava prestes a mudar.

Tomo mais uma dose de whisky tranquilamente quando um homem loiro se aproxima. Barba bem feita, alto, lindo, cheiroso e com um porte físico impressionante.

Ele abre um sorriso provocador.

— Não está se lembrando de mim, Anjo? Seu carro conseguiu chegar até aqui na boate?

Reviro os olhos imediatamente.

— Não acredito que nem aqui eu vou ter um pouco de sossego. O sabugo de milho está com as palhas alinhadas hoje. Pensei que nunca mais cruzaria com um arrogante como você, mas estou vendo que me enganei. Por isso alguma coisa me dizia para não vir aqui.

Ele ri.

— Além de Anjo, você também é bruxa.

— Não vou ficar ouvindo seus desaforos.

Viro as costas e tento sair, mas ele segura meu braço com firmeza e me puxa para mais perto.

Nesse instante começa uma música em ritmo de forró.

A mão dele pousa em minha cintura.

— Vai dançar comigo ou vai fugir?

Ergo o queixo.

— Está me desafiando, seu amarelo de uma figa? Está pensando que eu não sei dançar?

Aceito o desafio.

E me arrependo no mesmo instante.

O infeliz dança bem demais.

Preciso me controlar.

O perfume dele me envolve de uma forma perigosa.

Ele aproxima o rosto do meu enquanto conduz a dança com facilidade.

Sua mão permanece firme em minha cintura.

O que esse filho de uma mãe está tentando fazer?

— Já chega. Vamos parar por aqui. Sua mão já está abusada demais. Vou embora antes que meu carro resolva não chegar em casa de novo.

Ele dá uma gargalhada.

— Me faça companhia. Venha dançar comigo. Estou aqui com um amigo. Nós não vamos fazer nenhum mal a você.

Ele inclina a cabeça.

— Eu tenho cara de assediador? — Ele perguntou

estendendo a mão. — Prazer. Meu nome é Bruno.

Cruzo os braços.

— É muito convencido. — Disse.

Ele ri novamente.

— E você? Como se chama?

— Só vou responder porque eu quero, não porque você perguntou. Meu nome é Mia. — Minto sem culpa.

Não conheço esse homem.

Não vou sair revelando meu nome verdadeiro para um estranho.

Volto para o lugar onde estava sentada.

Mesmo de longe, sinto os olhos dele sobre mim.

Pouco depois ele reaparece acompanhado de um amigo.

— Este é Marcos — ele apresenta.

Marcos se mostra muito mais educado.

Quando a música "Love Me Like You Do" começa a tocar, não resisto e começo a cantar baixinho.

Adoro música.

Sou completamente eclética.

Logo depois, convido Marcos para dançar forró.

Sempre gostei daquele ritmo.

A proximidade.

A sintonia.

A alegria da dança.

Confesso que fiquei mais animada depois da chegada do sabugo de milho.

Pela primeira vez naquela noite, comecei realmente a me divertir.

As músicas pareciam ter sido escolhidas especialmente para mim.

Pego outra bebida e continuo aproveitando a festa.

A aniversariante aparece alguns minutos depois.

Claramente já havia bebido além da conta.

Ela me abraça e começa a dizer várias coisas que mal consigo entender.

Dou risada.

Era impossível não perceber que ela não estava aproveitando metade da festa maravilhosa que havia organizado.

Eu tinha chegado desanimada.

Mas agora estava completamente no clima.

Enquanto me servia na mesa de doces, experimentando um docinho atrás do outro, um homem desconhecido se aproxima.

— Está a fim de ficar comigo?

Ele segura meu braço.

Meu sorriso desaparece.

— Não. Por favor, me solte.

Antes que eu precise insistir, uma voz surge atrás de nós.

— Solte ela agora.

O homem me encara.

— Ela está comigo.

Reconheço imediatamente a voz.

O sabugo de milho.

O sujeito me larga e se afasta.

Assim que ele desaparece, cruzo os braços.

— Eu não estou com você, seu mentiroso.

Bruno apenas sorri.

— Mas funcionou.

— Pode se afastar de mim também. Hoje eu não serei sua próxima vítima.

— Talvez hoje não. — Bruno diz convencido.

— Amanhã, quem sabe?

Reviro os olhos.

— Você é impossível. — Disse sem acreditar na sua insistência.

— E você é esquisita. Devia me agradecer por ter livrado você daquele cara inconveniente.

Bruno se aproximou ainda mais.

— Eu não pedi sua ajuda.

Aponto um dedo para ele.

— Desde o episódio do atropelamento você não faz outra coisa além de me tirar do sério. Eu estava quieta no meu canto e você deveria procurar outra pessoa para implicar.

O safado apenas continua sorrindo.

O sorriso mais irritante e bonito que eu já vi.

Por alguns segundos ficamos apenas nos encarando.

A música ao redor parece desaparecer.

Meu coração acelera.

E isso me irrita ainda mais.

Quando percebo, estamos próximos demais.

Próximos o suficiente para eu sentir novamente o perfume dele.

Próximos o suficiente para que meu corpo se esquecesse de toda a razão.

O beijo acontece de forma inesperada.

Rápido.

Intenso.

Capaz de fazer o mundo desaparecer por alguns segundos.

Quando nos afastamos, preciso de alguns instantes para recuperar o fôlego.

Meu coração está disparado.

E o pior de tudo é que eu gostei.

Gostei muito.

Antes que qualquer coisa pudesse acontecer, Marcos aparece chamando Bruno.

— Me espera. Já volto. — Ele pediu. — Não vá embora. — Ele aponta para mim.

Fico parada, observando-o se afastar.

Que homem era aquele?

E que presença...

Passo a mão pelos cabelos tentando me recompor.

Preciso recuperar a sanidade.

Vou até o banheiro.

Enquanto ajeito o cabelo diante do espelho, tento organizar meus pensamentos.

Se um simples beijo já me deixou assim, nem quero imaginar o estrago que aquele homem seria capaz de causar na minha vida.

Escuto algumas garotas comentando sobre um modelo que também estava na festa.

Segundo elas, ele era lindo.

Dou uma risada sozinha.

Não mais bonito que o sabugo de milho.

Tenho que admitir.

Juntando meus cinco ex-namorados não dava um dele.

E admitir isso me irritava profundamente.

Ele me confundia.

Me tirava do eixo.

Me fazia sentir coisas que eu não queria sentir.

Saio do banheiro e sigo para o estacionamento.

Quando entro no carro, olho pelo retrovisor e o vejo conversando com outra garota.

Desvio o olhar imediatamente.

Todos iguais.

Se eu continuasse naquela festa, acabaria sendo apenas mais uma entre tantas.

E eu jamais permitiria isso.

Dou partida no carro.

Durante todo o caminho para casa, ainda me lembro daquele beijo.

Daquele sorriso.

Daquele perfume.

Daquela sensação estranha que insistia em permanecer.

Quando finalmente chego ao apartamento, tomo um banho demorado.

Preciso colocar os pensamentos em ordem.

Visto meu pijama e me jogo na cama.

Encaro o teto por longos minutos.

Tentando entender como um homem que me irritava tanto também conseguia ocupar todos os meus pensamentos.

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