Mundo de ficçãoIniciar sessão
Me chamo Mariza Duarte… e se existe uma mulher amaldiçoada no amor, essa mulher sou eu.
Nunca conheci alguém com um dedo tão podre para escolher homem quanto o meu. Foi uma tragédia atrás da outra. Relacionamentos destruidores, mentiras, traições, manipulações, humilhações… homens que chegaram na minha vida prometendo amor e saíram deixando cicatrizes. Já fui enganada, passada para trás, quebrada por dentro e até agredida. Em certos momentos achei que fosse morrer sufocada pela dor que carregava no peito. E mesmo depois de tudo… eu ainda insistia em acreditar no amor. Sonhava em construir uma família, ter filhos, viver aqueles romances intensos que fazem a gente perder o ar só de olhar para alguém. Idealizei o homem perfeito tantas vezes que quase conseguia sentir o toque dele. Mas a vida fez questão de destruir cada expectativa que criei. Uma por uma. Até que um dia eu simplesmente cansei. Cansei de chorar escondida. Cansei de juntar os pedaços do meu coração sozinha. Cansei de acreditar em promessas vazias. Então enterrei todas as ilusões que carreguei durante anos e aceitei a verdade mais amarga da minha vida: talvez o amor não tenha sido feito para mim. Mas existe uma coisa cruel sobre o coração… Ele sempre guarda uma esperança escondida. Porque, lá no fundo, ainda existe uma parte minha esperando aquele homem capaz de me fazer perder o chão… aquele que desperte o famoso frio na barriga e faça meu mundo inteiro pegar fogo outra vez. Hoje vivo diferente. Sem cobranças. Sem promessas. Sem expectativas. O que acontecer, aconteceu. Aprendi da pior forma possível que colocar a felicidade nas mãos de um homem é assinar a própria sentença. Ainda tenho minhas preferências, claro. Detesto homens arrogantes, debochados, frios, aqueles que se acham superiores a todo mundo. Homens com ego inflado me dão nojo. Mas também não virei pedra. Se encontro alguém interessante, se existe química, desejo, tensão… eu vivo o momento. Não estou morta. Só parei de acreditar em finais felizes. Tenho trinta anos, 1,65 de altura, cabelos castanhos longos que descem pelas costas, olhos cor de mel e um corpo que chama atenção sem que eu precise fazer esforço. Por onde passo os olhares vêm atrás, mas sinceramente? Isso já não significa nada para mim. Ultimamente tenho preferido a solidão. Existe paz nela. Moro sozinha em São Paulo desde muito nova. Vim atrás da minha independência enquanto meus pais continuaram no interior, vivendo a vida simples que amam. Eles pertencem à terra, ao silêncio da fazenda, ao cheiro de mato molhado depois da chuva. São pessoas humildes, de coração puro, e sempre me apoiaram mesmo morrendo de saudade. Me formei em Biomedicina graças a uma bolsa de estudos. Trabalhei em supermercado, virei noites estudando, sobrevivi ao cansaço e à fome emocional para conquistar meu diploma. Nada caiu do céu para mim. Tudo foi arrancado com luta. E agora eu estava prestes a entrar no maior laboratório de São Paulo: os Laboratórios Miller. Aquela vaga mudaria minha vida. --- O despertador toca às cinco da manhã e eu levanto imediatamente. Meu coração está acelerado desde a madrugada. Hoje pode ser o começo de tudo. Tomo banho demorado tentando controlar a ansiedade. Escolho a roupa com cuidado, faço uma maquiagem leve e me olho no espelho. — Essa vaga já é sua, Mariza. Repito aquilo como uma oração. Entro no meu carro e sigo para os Laboratórios Miller sentindo minhas mãos suarem no volante. Assim que chego, sou encaminhada para a sala de entrevistas. Outras mulheres aguardam nervosas, mas naquele momento tudo que consigo ouvir é o som descontrolado do meu próprio coração. Até meu nome ecoar pelo ambiente. — Senhorita Mariza Duarte. Levanto imediatamente. Quando entro na sala, encontro uma mulher elegante que se apresenta como Bárbara. Ela sorri para mim de forma simpática, mas logo em seguida sinto um olhar pesado sobre meu corpo. Um homem. Mais velho. Imponente. Intimidante. Ele me observava em silêncio como se tentasse ler minha alma inteira. — O presidente dos Laboratórios Miller está acompanhando pessoalmente todas as entrevistas — Bárbara explica. Meu estômago revira. A entrevista começa. Perguntas difíceis. Pressão. Olhares atentos. Mas eu respondo tudo com firmeza porque lutei demais para chegar até ali. No fim, o homem finalmente se pronuncia. A voz grave atravessa a sala inteira. — Bom dia, Mariza. Está tudo bem com você? — Sim… senhor. Ele continua me observando por alguns segundos antes de se levantar. — Me chamo Misael Miller. Sou fundador dos Laboratórios Miller… e reconheço talento de longe. Você é exatamente o tipo de profissional que procuramos. Meu coração falha uma batida. — Considere-se contratada. Seja bem-vinda. Por um instante achei que minhas pernas fossem ceder. Depois de tantos anos sobrevivendo… finalmente algo dava certo. Saí daquele lugar querendo gritar para o mundo inteiro que eu tinha conseguido. Quando entro no apartamento, Mila já está me esperando. — Mila… eu consegui! Minha voz sai falha, emocionada. Ela corre para me abraçar. — Eu sabia! Eu sabia que você conseguiria! Olho para Isa dormindo no bebê conforto e sinto meus olhos queimarem. Talvez a vida estivesse finalmente começando a sorrir para mim. --- Naquela noite resolvemos sair para comemorar. Coloco um vestido leve, prendo parte do cabelo e tento me sentir bonita outra vez. Mas bastou entrar na churrascaria para o passado bater na minha cara. Meu ex. Justamente o homem que me traiu sem piedade. O ar parece desaparecer dos meus pulmões por alguns segundos. Antigamente eu teria chorado. Hoje… só sinto desprezo. — Eu devia ser proibida de me apaixonar — murmuro para Mila. Ela ri fraco. — Você realmente só escolhe homem lixo. — E o pior é que eu amei cada um deles de verdade. Aquilo dói mais do que deveria. Porque ninguém sabe o quanto uma mulher quebra quando entrega amor sincero para pessoas erradas. --- No dia seguinte começo oficialmente nos Laboratórios Miller. Tudo corre perfeitamente… até a volta para casa. Estou dirigindo tranquilamente quando uma senhora surge do nada na frente do meu carro. Piso no freio com força. O grito escapa da minha garganta. Desço desesperada. — Senhora! Fala comigo, por favor! Ela abre os olhos lentamente. — Você parece um anjo… Antes que eu consiga ajudá-la, uma voz masculina explode atrás de mim. — O QUE VOCÊ FEZ COM A MINHA MÃE? Viro imediatamente. E então eu o vejo. Alto. Loiro. Lindo. E completamente insuportável. Os olhos claros queimam de raiva enquanto ele me encara como se eu fosse criminosa. — Abaixa a voz — rebato no mesmo tom. — Sua mãe entrou na frente do meu carro! Ele ri sem humor. — Você chama isso de carro? Talvez essa lata velha nem tenha freio. Meu sangue ferve na mesma hora. — Escuta aqui, seu arrogante de merda… — Mal-educada. — E você é um imbecil convencido! A senhora segura o braço dele. — Não brigue com ela… a culpa foi minha… Mas ele sequer parece ouvir. Os olhos dele continuam presos nos meus de uma forma irritantemente intensa. E eu odeio perceber aquilo. Odeio mais ainda perceber que, mesmo sendo um arrogante insuportável… aquele homem é absurdamente bonito. — Se quiser tirar satisfação, procura as câmeras da rua — digo irritada. — Porque eu não fiz nada. Entro no carro e arranco dali tremendo de raiva. Mas durante todo o caminho até em casa… os olhos daquele homem continuam grudados na minha cabeça. E pela primeira vez em muito tempo… Meu coração parece perigosamente acordado outra vez.






