Aliança de conveniência: Promessas de vidro
Aliança de conveniência: Promessas de vidro
Por: Victoria Barros
Quem você quer ser?

​O som da terra batendo na tampa da urna de madeira era seco e final. Era o som do encerramento de um livro que eu não estava pronta para terminar de ler. Eu estava ali, parada diante da cova aberta no cemitério municipal de Nova Alvorada, sentindo o vento frio da tarde bagunçar meu cabelo ruivo e arder em minhas bochechas cobertas de sardas. Meu pai se fora. O homem que me ensinou a amar a poesia, a história e o cheiro de livros antigos agora era apenas memória e poeira.

​Senti uma mão trêmula apertar o meu ombro. Era minha mãe, Elena. Ela estava pálida, o uniforme de governanta da Fazenda Alvorada aparecendo por baixo do casaco preto pesado. Ela olhava para os lados com uma aflição que me cortava o peito.

​— Eu sinto muito, minha filha... Eu queria tanto ter passado as últimas noites com ele... — a voz dela falhou, sumindo em um soluço sufocado. — Mas o Silas... ele disse que o trabalho na mansão não podia parar. Que se eu saísse para cuidar do seu pai antes da hora, eu não precisaria mais voltar. E nós precisávamos do dinheiro para o tratamento dele, Sofia. Eu não tive escolha.

​Olhei para ela com uma mistura de mágoa profunda e uma compreensão amarga. Meus pais não eram mais um casal há anos, mas a amizade entre eles era a coisa mais sólida que eu conhecia. Quando eu completei doze anos e a saúde do meu pai começou a declinar por causa de problemas respiratórios crônicos, eles decidiram que o melhor seria eu morar com ele na parte central da cidade, onde os hospitais eram perto e os meus estudos seriam facilitados. Minha mãe ficou na fazenda, nos confins de Nova Alvorada, trabalhando dia e noite para enviar cada centavo para o nosso sustento. Ela era o nosso alicerce invisível, a força que mantinha as luzes acesas enquanto meu pai e eu tentávamos sobreviver à doença dele.

​— A culpa não é sua, mãe. É dele — respondi, minha voz saindo mais dura do que eu pretendia. Eu nunca tinha visto o rosto de Silas Lancaster, mas o ódio por ele já estava criando raízes em meu coração. O homem que negou a uma esposa e filha o direito de uma despedida digna.

​— Preciso ir, Sofia. O carro da fazenda já está parado no portão. O Silas não tolera atrasos, nem em dias de luto. — Ela me deu um beijo rápido na testa, o cheiro de lavanda de seu sabonete barato tentando me acalmar. — Arrume o que puder no apartamento. Venda o que não der para carregar. Eu espero por você na fazenda. Estaremos juntas agora, eu prometo.

​Eu a vi caminhar apressada, uma mulher que não tinha o direito de chorar em paz porque o seu tempo pertencia a patrões cruéis.

​Quinze dias depois...

​O ônibus sacolejava na estrada de terra batida, levantando uma cortina de poeira que parecia apagar o meu passado para sempre. Eu olhava pela janela, vendo os prédios de Nova Alvorada serem substituídos por muros altos, cercas elétricas e, finalmente, pela entrada monumental da Fazenda Alvorada. Aos 18 anos, eu carregava o peso de uma mulher de quarenta. Minhas malas estavam gastas, e minha única herança era a teimosia que meu pai dizia ser a minha melhor e pior característica.

​Quando o portão eletrônico se abriu, o luxo do lugar me atingiu como um tapa. Gramados que pareciam pintados à mão, estátuas de mármore e uma mansão que parecia um castelo europeu perdido no interior. Elena me recebeu nos fundos, com um abraço apertado que quase me fez desmoronar.

​— Você vai me ajudar na limpeza da ala leste, Sofia — explicou ela, enquanto me guiava por corredores que brilhavam de tão limpos. — É uma área mais isolada. O jovem mestre, o Julian, vive trancado lá desde o acidente que matou os pais dele há dois meses. Ele é... difícil. Não tente falar com ele, apenas faça o seu serviço e saia. O Silas está vigiando tudo, e ele não quer você aqui, só permitiu porque eu implorei e disse que você trabalharia de graça até pagar as despesas do seu pai.

​Senti meu estômago embrulhar. Eu estava ali como uma dívida a ser paga.

​Mais tarde, com um espanador na mão e o coração ainda pesado, entrei na biblioteca da ala leste. O lugar era imenso, com estantes de carvalho que iam até o teto e um cheiro reconfortante de couro e papel velho. Eu estava organizando uma prateleira de clássicos quando um estalo de vidro quebrando ecoou pelo silêncio.

​Meu corpo gelou. Virei-me lentamente e o vi.

​Julian Lancaster estava parado diante de uma mesa maciça. Cabelos pretos bagunçados, olhos de um azul-acinzentado que pareciam duas pedras de gelo esculpidas pela dor. Ele era absurdamente bonito, de uma forma que chegava a ser agressiva, mas havia uma sombra de abandono ao redor dele. Ele segurava uma garrafa de cristal, e aos seus pés, os restos de um copo estraçalhado.

​— O que você está fazendo aqui? — a voz dele não foi um grito, foi um rosnado baixo e perigoso. — Eu não pedi por uma babá nova. Saia.

​— Não sou babá. Sou a Sofia, filha da Elena — respondi, sustentando o olhar dele. Meu pai sempre dizia para eu nunca baixar a cabeça para quem achava que o dinheiro comprava respeito. — Vim trabalhar para pagar a "caridade" que o seu primo acha que está fazendo por nós. E se você acha que a dedicação da minha mãe é algo que pode descartar com essa arrogância, saiba que ela é a única pessoa nessa casa que não está esperando você cair para saquear o que sobrou.

​Julian deu um passo à frente, ignorando os cacos de vidro que estalavam sob sua bota de couro cara. Ele parou a poucos centímetros de mim, e eu pude sentir o cheiro de uísque e perfume amadeirado. Ele me analisou com uma intensidade desconfortável — meu cabelo ruivo preso em uma trança frouxa, as sardas que eu tentava esconder e o desafio que queimava nos meus olhos castanhos.

​— Você tem a língua afiada para alguém que não tem onde cair morta, Sofia — ele disse, com uma risada amarga que não chegou aos olhos. — Você precisa de dinheiro? Ou só de um lugar para chorar a morte do seu pai?

​— Eu preciso de justiça. Coisa que parece não existir nesta fazenda.

​O maxilar de Julian travou. Ele olhou para a porta, depois voltou para mim, e pela primeira vez, a máscara de herdeiro prepotente escorregou, revelando um desespero calculado.

​— Justiça? Eu também. O Silas controla cada centavo que eu deveria herdar. Pelo testamento, eu só posso administrar as propriedades e as contas quando me casar. Até lá, ele é o administrador. Ele está vendendo o gado, demitindo as pessoas que meu pai amava e me tratando como um prisioneiro na minha própria casa.

​Ele se aproximou ainda mais, baixando o tom de voz.

​— Ele quer expulsar sua mãe daqui, Sofia. Ele já tem os papéis prontos. A menos que eu tome o controle.

​Meu coração disparou. A ideia de ver minha mãe na rua por causa daquele homem era insuportável.

​— O que você quer de mim, Julian?

​— Case-se comigo. No papel. Um contrato de dois anos. Eu assumo a herança, coloco o Silas para fora e garanto que você e sua mãe nunca mais precisem se curvar para ninguém. Você pode continuar sendo a filha da governanta... ou pode ser a mulher que vai me ajudar a retomar o que é meu.

​Eu olhei para a mão dele estendida sobre os cacos de vidro. Era um pacto com o caos, mas em Nova Alvorada, o gelo de Julian Lancaster parecia um refúgio muito mais seguro do que o veneno de Silas.

​(Pensamento de Julian): Ela é pequena, mas o fogo naquele cabelo ruivo parece queimar também nos olhos. Ela não se parece em nada com a doçura da Elena. Sofia tem algo que eu perdi há muito tempo: a vontade de lutar. Ela é a peça que faltava para eu destruir o Silas, mesmo que eu tenha que arrastá-la para o meu inferno pessoal para isso.

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