Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio que se seguiu à saída de Silas da biblioteca era tão pesado que eu podia ouvir o eco dos meus próprios batimentos cardíacos. Assim que a porta de madeira maciça bateu, eu me afastei de Julian de um salto, desfazendo o contato de sua mão na minha nuca como se a pele dele queimasse a minha. Levou alguns segundos para que o ar voltasse aos meus pulmões.
— Você é completamente louco? — sussurrei, a voz trêmula de adrenalina enquanto eu limpava as palmas das mãos suadas no tecido da minha calça gasta. — Ele quase pegou o papel sobre a mesa! E o que foi aquilo? Você me puxou como se... — Como se eu estivesse interessado em você — Julian me interrompeu, a voz retornando instantaneamente àquele tom frio e monocórdico de antes. Ele caminhou até a mesa, pegou o papel com as nossas dez regras e o deslizou para dentro de uma gaveta de fundo falso na escrivaninha. — E funcionou. Você viu os olhos dele? Silas achou que tinha encontrado uma fraqueza minha para explorar. Ele acha que sou um herdeiro solitário e carente tentando se divertir com a filha da governanta. É exatamente isso que precisamos que ele pense por enquanto. Eu cruzei os braços, tentando conter o tremor que subia pelos meus braços. — Isso é perigoso, Julian. Minha mãe trabalha aqui. Se ela nos vê em uma situação daquelas, ela vai sofrer. Ela tem expectativas reais sobre mim, ela acha que vim para cá para me reerguer após a morte do meu pai, não para me tornar o caso do patrão. Julian serviu-se de mais um gole de uísque, os olhos fixos na janela que dava para os estábulos ao fundo. A luz do sol já havia sumido completamente, deixando apenas a escuridão da noite rural engolir a propriedade. — Sua mãe está segura contanto que o Silas acredite que eu estou no comando ou prestes a assumir — ele disse, sem se virar para mim. — Mas você está certa em uma coisa. Para que isso funcione, o teatro não pode acontecer apenas a portas fechadas. Amanhã cedo, o jogo começa de verdade. {Pensamento de Julian: Ela está assustada, mas a teimosia ainda a mantém firme nas próprias pernas. Quando segurei a nuca dela, pude sentir o quanto ela estava trêmula, mas ela não desviou os olhos do Silas nem por um segundo. Há uma força bruta nessa garota que me fascina e me assusta na mesma proporção. Eu preciso focar. O Silas não é idiota; ele vai testar os limites desse suposto interesse. Eu preciso fazer com que cada olhar, cada aproximação pareça tão real que até eu comece a esquecer que é um negócio.} O dia seguinte amanheceu com aquela névoa densa típica das manhãs na periferia rural de Nova Alvorada. Meu corpo doía pelo colchão antigo da casa de apoio onde eu e minha mãe estávamos acomodadas, mas a obrigação me chamou cedo. Às seis da manhã, eu já estava ajudando na cozinha principal da mansão, organizando as louças de porcelana que seriam usadas no café da manhã de Silas. Minha mãe cantarolava baixo enquanto passava o café fresco, o cheiro forte trazendo uma sensação efêmera de lar. — Você dormiu bem, minha filha? — ela perguntou, ajeitando o avental engomado. — Vi que voltou tarde da ala leste ontem. O jovem Julian deu muito trabalho? Engoli em seco, lembrando da primeira regra do nosso contrato. Ninguém pode saber. Nem mesmo minha mãe. — Não, mãe. Só... havia muitos livros antigos para espanar. O lugar estava abandonado há meses — menti, focando os olhos em um pires de cristal para não vacilar. — Ele é um bom menino, Sofia. Só está quebrado — minha mãe suspirou, colocando a garrafa térmica em uma bandeja de prata. — O Silas tem sufocado o rapaz. Fico feliz que você esteja aqui para ajudar a manter aquela ala limpa. É o único lugar onde o Julian encontra paz. Eu balancei a cabeça, sentindo um nó de culpa apertar minha garganta. Se minha mãe soubesse o tipo de "ajuda" que eu estava oferecendo ao herdeiro, ela me puxaria pelo braço para fora daquela fazenda no mesmo instante. Vinte minutos depois, eu estava cruzando o pátio central em direção aos jardins de inverno. Minhas mãos carregavam um balde com água e alguns panos de chão. Eu usava uma blusa de algodão simples e trazia o cabelo preso em um coque alto e desajeitado. Eu parecia exatamente o que era: a filha da funcionária desempenhando suas funções. Foi quando ouvi o som de cascos contra o cascalho. Virei-me e vi Julian aproximando-se montado em um imenso cavalo de pelagem negra. Ele vestia botas de montaria, uma camisa escura justa e parecia saído de uma pintura aristocrática. O vento bagunçava seus cabelos pretos, e a rigidez de sua postura exalava o poder que o testamento ainda lhe negava no papel. Eu esperava que ele passasse direto por mim, como costumava fazer com os outros funcionários. Mas Julian puxou as rédeas, fazendo o animal parar a poucos centímetros do meu balde. — Bom dia, Sofia — a voz dele ecoou pelo pátio, intencionalmente alta, clara o suficiente para que os dois jardineiros que podavam as cercas vivas logo adiante pudessem ouvir. — Bom dia, Senhor Lancaster — respondi, adotando a postura formal que minha mãe havia me ensinado. Julian soltou uma risada curta, um som que fez meu estômago dar uma volta completa. Ele desmontou do cavalo com uma agilidade impressionante e caminhou em minha direção. Ele não parecia o homem bêbado e amargurado da noite anterior. Ele parecia focado. — Já passamos da fase do "Senhor Lancaster", não acha? — ele disse, dando mais um passo. Instintivamente, olhei para os lados. Pude ver, pela janela do segundo andar do casarão, a silhueta de Silas observando a cena com uma xícara de café na mão. O espetáculo havia começado. Julian percebeu meu olhar e usou isso a nosso favor. Ele estendeu a mão e, quebrando a nossa própria regra de contato físico, tocou uma mecha solta do meu cabelo ruivo, colocando-a cuidadosamente atrás da minha orelha. Os dedos dele roçaram a pele da minha bochecha, e um calafrio violento percorreu minha espinha. — Você trabalha demais — Julian sussurrou, inclinando o corpo para perto do meu, mantendo os olhos fixos nos meus, mas com uma expressão que, para quem olhava de longe, parecia pura adoração. — Deixe o balde. Vá até os estábulos mais tarde. Quero te mostrar o potro que nasceu na semana passada. Acho que você vai gostar. Minhas bochechas queimaram de verdade. Eu sabia que ele estava jogando a isca para o Silas, mas a proximidade física e a intensidade do seu olhar azul-acinzentado tornavam difícil lembrar onde terminava o acordo e onde começava a realidade. — Eu... eu tenho serviço, Julian — falei, usando o primeiro nome dele pela primeira vez em público, a voz saindo um pouco mais falha do que eu gostaria. — O serviço pode esperar — ele respondeu, com um sorriso enigmático antes de pegar as rédeas do cavalo novamente. — Não se atrase. Eu estarei esperando. Ele montou novamente e partiu a galope, deixando uma nuvem de poeira e o meu coração descompassado para trás. Olhei para a janela do segundo andar. Silas ainda estava lá, mas agora sua expressão não era de deboche. Era de pura especulação. {Pensamento de Julian} O Silas mordeu a isca. Vi o jeito que ele nos olhou lá de cima. Mas o que me preocupa não é o meu primo. É o fato de que, quando toquei o rosto da Sofia e vi a pele dela corar sob as sardas, meu coração também errou a batida. Ela cheira a ar fresco e a terra molhada, longe de toda a falsidade que me cerca. Essa garota é um território perigoso, e o contrato mal começou.} Peguei o balde com as mãos trêmulas. Eu precisava ir até os estábulos. Precisava continuar o teatro. Mas, no fundo, uma parte de mim sabia que aquela aliança de conveniência estava prestes a se transformar em um jogo onde nenhum de nós dois controlava as regras






