Mundo ficciónIniciar sesiónA biblioteca parecia menor agora, como se as paredes estivessem se fechando em torno de nós dois enquanto os termos do nosso destino eram redigidos. Julian buscou uma folha de papel timbrado e uma caneta-tinteiro pesada. Ele não parecia um homem prestes a casar, mas um general traçando uma estratégia de invasão.
— Se vamos fazer isso, Sofia, faremos com ordem. Silas é um predador; ele fareja fraquezas e inconsistências. Precisamos de regras. Cinco minhas, cinco suas. E uma em comum que serve como base para tudo. — Ele me encarou, a luz fria do entardecer destacando o cinza cortante de seus olhos. — A primeira regra, que pertence aos dois e é inegociável: Ninguém pode saber que este casamento é um contrato. Nem mesmo a sua mãe. Engoli em seco. O pensamento de mentir para minha mãe pesava como chumbo. Ela era minha confidente, minha base. Mas Julian tinha razão. Se ela soubesse, Silas poderia pressioná-la, e qualquer hesitação no olhar dela nos entregaria. Além disso, nós precisávamos construir essa farsa de forma inteligente. — Tudo bem. Minha mãe fica no escuro, por mais que isso me doa — respondi, pegando a caneta da mão dele para escrever minha primeira exigência. — Minha primeira regra: Você vai garantir uma pensão vitalícia para a minha mãe. Independentemente do que aconteça após esses dois anos, ela nunca mais precisará trabalhar se não quiser. Ela deu a vida por esta fazenda, e agora esta fazenda vai dar o descanso que ela merece. Julian assentiu, um brilho de respeito cruzando seu rosto. — Justo. Minha segunda regra: Fidelidade absoluta perante o público. Você está proibida de se envolver com qualquer outro homem. No papel e na rua, você é minha. Não vou permitir que Silas use um deslize sentimental seu para alegar que nosso casamento é uma farsa e tomar o controle. Senti um arrepio. A possessividade na voz dele era puramente estratégica, mas ainda assim, era intensa. — Não se preocupe. O último homem que me fez acreditar em algo me ensinou que o silêncio é melhor que a decepção — falei, lembrando do riso de Gustavo. — Segunda regra minha: Proibido qualquer contato físico sem o consentimento de ambos. Fora das vistas do Silas ou de qualquer convidado, você não me toca. Não somos um casal de verdade e não quero que você esqueça isso. Julian soltou uma risada seca, quase um sopro de escárnio. — Acredite, Sofia, autocontrole é a única coisa que me sobrou. Minha terceira regra: Você terá aulas de etiqueta e protocolo. Silas vai tentar te diminuir pelo seu vocabulário ou pelo jeito que segura um talher. Você vai se portar como uma Lancaster, mesmo que sinta vontade de gritar. — Eu aprendo rápido — retruquei. — Minha terceira regra: Você vai financiar meus estudos. Quero cursar Medicina Veterinária em uma universidade de elite assim que o contrato permitir as saídas. E você não vai questionar minha escolha de curso. Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso com o fato de eu querer trabalhar com animais, mas anotou sem contestar. — Quarta regra minha: Transparência total sobre tudo. Se houver qualquer "fantasma", ex-namorado ou dívida na cidade grande que Silas possa usar, eu preciso saber agora. Sem surpresas. — Já disse que não tenho nada a esconder que seja do interesse dele. Quarta regra minha: O quarto de minha mãe é território sagrado. Você ou o Silas nunca entrarão lá para dar ordens ou intimidá-la. É o único lugar onde ela precisa se sentir realmente em casa. Julian anotou, o semblante cada vez mais fechado. — Minha última regra: Você nunca, sob hipótese alguma, deve se aliar ao Silas. Se ele te oferecer o dobro do que eu ofereci para você me trair, saiba que ele vai te descartar assim que conseguir o que quer. Lealdade a mim é a sua única proteção. — Eu não vendo minha alma para quem impediu minha mãe de se despedir do meu pai — falei, sentindo as lágrimas queimarem, mas recusando-me a deixá-las cair. — Minha última regra: Ao final de dois anos, o divórcio será silencioso e rápido. Você me dá a minha liberdade e a independência da minha mãe, e eu sumo da sua vida como se nunca tivesse existido. Julian ficou em silêncio por um longo tempo, observando as dez cláusulas escritas naquele papel. Ele parecia estar processando não apenas as palavras, mas o fato de que aquela garota ruiva e cheia de sardas tinha acabado de ditar termos para ele. — Precisamos fazer isso parecer o mais real possível, Sofia — ele disse, largando a caneta. — Se eu anunciar do nada que vamos casar, Silas vai direto ao juiz contestar o testamento. Ele vai dizer que é um golpe. Precisamos que o relacionamento pareça orgânico. Deixe ele ver o meu interesse em você primeiro. Um flerte, uma aproximação natural nos próximos dias... Isso vai desarmá-lo. — Concordo — sussurrei, cruzando os braços. — Deixamos que ele tire as próprias conclusões antes de darmos o xeque-mate. {Pensamento de Julian): Veterinária? Eu esperava que ela quisesse joias ou roupas caras, mas ela quer cuidar de animais e salvar a mãe. Há uma pureza nela que me incomoda, porque eu não sei o que fazer com a pureza. Ela acha que o contato físico é o perigo, mas o perigo real é o jeito que ela me olha, como se pudesse ver através de toda a minha armadura de uísque e arrogância. Eu preciso manter a distância. Se eu me aproximar demais desse fogo, vou acabar queimando o que resta de mim.} Antes que pudéssemos guardar o papel, fomos surpreendidos. O som de passos pesados no corredor parou abruptamente. Sem aviso e sem bater, a porta da biblioteca se abriu. Silas entrou com seu sorriso predatório, os olhos pequenos vasculhando o ambiente como se procurasse algo para destruir. Julian, em um reflexo impressionante, escondeu o papel sob o bloco de notas e mudou sua postura instantaneamente. Ele deu um passo à frente, aproximando-se de mim com uma naturalidade assustadora, diminuindo o espaço entre nossos corpos. Sua mão subiu pelas minhas costas, os dedos quentes se aninhando na minha nuca, puxando-me de leve para perto, como se estivéssemos prestes a compartilhar um beijo interrompido. Meu coração disparou com a audácia do gesto, mas sustentei o papel. — Julian! Achei que estivesse aqui sozinho, bebendo seu luto em silêncio. Mas vejo que encontrou uma... distração — Silas disse, olhando para nós com um desprezo que ele nem tentava esconder. — A filha da Elena, não é? Sabrina. Sua mãe disse que você ajudaria na limpeza, não que se tornaria uma peça de decoração da biblioteca. Julian não me soltou. Em vez disso, manteve o braço ao meu redor de forma possessiva e virou o rosto lentamente na direção do primo, com um brilho desafiador nos olhos azul-acinzentados. — O nome dela é Sofia, Silas. E ela não é uma distração — a voz de Julian saiu calma, mas perigosamente firme. Ele desceu o olhar para o meu rosto, suavizando a expressão de forma extremamente convincente. — Na verdade, ela é a primeira pessoa honesta e interessante que encontro nesta fazenda em muito tempo. Estou apenas conhecendo melhor a nossa nova moradora. Silas arqueou uma sobrancelha, o sorriso predatório vacilando diante daquela demonstração explícita de interesse. O veneno estava plantado. (Pensamento de Julian): O rosto do Silas mudou de cor. O golpe foi certeiro. Mas agora o jogo realmente começou. Sinto a Sofia tensa sob a minha mão, o coração dela deve estar batendo como o de um pássaro engaiolado. Ela é corajosa, mas não tem ideia de que acabamos de declarar guerra. Agora, eu preciso protegê-la não só do meu primo, mas desse plano que, de repente, parece muito mais real do que eu pretendia.






