Meses se passaram sem que eu percebesse exatamente quando tudo voltou a funcionar no automático.
A rotina estava estável. Jantares, eventos, compromissos sociais que eu cumpria quase por inércia. Patrícia seguia presente, ocupando um espaço confortável, sem ruídos, sem cobranças. Ela sabia estar ali sem parecer demais.
O jantar daquela noite foi ideia dela.
Um restaurante discreto, iluminação baixa, mesas bem espaçadas. Nada chamativo. Patrícia escolhia lugares como quem entende que o ambiente também conversa. Sentou-se à minha frente com naturalidade, cruzando as pernas devagar, ajustando o vestido como se fosse apenas um gesto funcional — mas nunca era só isso.
— Você anda mais silencioso — comentou, depois de alguns minutos. — Ou talvez eu esteja prestando mais atenção.
— Trabalho — respondi, simples.
Ela sorriu de canto, levando a taça de vinho aos lábios sem quebrar o contato visual.
— Sempre o trabalho.
Conversávamos sem pressa. Patrícia sabia conduzir o ritmo: fa