03

ZOE MONDEGO

— Boa noite, Moulin Lounge. O meu nome é Helena, em que posso auxiliar hoje? — a voz feminina surgiu na linha com uma calma quase terapêutica, excessivamente educada para alguém que acabara de ouvir a minha respiração irregular.

E por isso, demorei alguns segundos para reagir. Fiquei encarando o telefone como se ele tivesse vida própria, enquanto a minha mente tentava acompanhar a realidade absurda na qual eu me metera. Só recobrei algum senso quando Louise me deu uma cutucada nada sutil no ombro, acompanhada de um sorriso que claramente dizia vai, fala logo.

— Boa noite — comecei, pigarreando. — Eu… gostaria de informações sobre contratação de acompanhante.

 Perfeitamente, senhora — respondeu Helena, sem mudar o tom. — Para que possamos direcioná-la da melhor forma, o serviço seria para um evento social, compromisso recorrente ou acompanhamento pontual?

Engoli em seco.

— Evento social. Na verdade… mais de um.

Louise levantou as sobrancelhas, acenando também com os polegares, claramente satisfeita.

— Entendido — continuou a atendente. — Poderia informar a cidade, a duração média dos compromissos e se há necessidade de viagens?

— Centro de Los Angeles — respondi. — Jantares formais, um evento corporativo e possivelmente uma cerimónia familiar, então viagens provavelmente acontecerão.

— Ótimo. Agora, quanto ao perfil do acompanhante — continuou a atendente — a senhora teria preferência quanto ao sexo?

— Masculino.

— Faixa etária aproximada?

Olhei para Louise, que fez um gesto vago com a mão, como quem diz adulto funcional já serve.

— Entre vinte e oito e trinta e cinco — respondi, tentando parecer uma pessoa que sabia o que estava a fazer.

— Alguma preferência estética ou comportamental? — perguntou. — Por exemplo: estilo clássico, executivo, perfil mais discreto ou extrovertido?

Louise inclinou-se até mim e sussurrou:

— Que saiba usar talheres e não envergonhe a humanidade.

— Clássico — respondi. — Discreto e que saiba se portar em ambientes formais e conversar com executivos sem parecer... um idiota.

— Compreendo — disse Helena, sem a menor sombra de julgamento ou de divertimento. — A senhora necessita que o acompanhante seja apresentado como parceiro fixo?

Meu estômago revirou no mesmo instante.

— Sim.

Louise levou a mão ao peito, emocionada.

— Certo. Nesse caso, trabalhamos com perfis treinados para representação social contínua — explicou Helena. — Após essa primeira triagem, encaminhamos uma seleção de até três acompanhantes compatíveis, com material profissional e descrição de perfil.

Louise, que já assumira o controle da situação como se fosse gerente do caos, abriu rapidamente a aba dos pacotes e girou o computador ligeiramente na minha direção, apontando para a tela com entusiasmo como se estivesse a apresentar um cardápio.

Havia quatro categorias de pacotes exibidas na tela, mas foi o premium que imediatamente capturou a minha atenção. Incluía viagens, jantares, eventos sociais e outros fornecimentos pagos pela própria empresa. Em teoria, sairia mais barato a longo prazo. Em prática, custava quase — ou bem mais — do que aquilo que eu normalmente pagaria para manter a minha sanidade intacta.

— Tenho interesse no pacote premium — informei, antes que pudesse reconsiderar. — Mas gostaria de saber se é possível realizar uma entrevista prévia antes de qualquer confirmação definitiva.

— Sim, senhora — respondeu Helena prontamente. — Para contratos premium, a entrevista é fortemente recomendada. Ela ocorre em local público e neutro, definido pela agência, próximo à sua conveniência. A duração média é de vinte a trinta minutos.

Respirei aliviada.

— Caso a senhora não se identifique com o acompanhante apresentado, poderá solicitar outro perfil sem qualquer custo adicional nessa fase — completou.

— Fico satisfeita em saber disso — respondi, sentindo pela primeira vez que talvez eu não estivesse a cometer um erro irreversível.

— Poderia confirmar os seus dados para registo? Nome e idade, por gentileza.

— Zoe Mondego. Vinte e seis anos.

— Obrigada, senhora Mondego. Qual seria a data ideal para a entrevista?

— Segunda-feira da próxima semana — respondi de imediato. — O mais cedo possível.

Louise, nesse momento, levantou-se triunfante, recolhendo as chávenas como se tivesse acabado de fechar um contrato milionário.

— Perfeito — disse Helena. — A nossa equipa entrará em contacto nas próximas horas com as opções disponíveis e a proposta inicial. Agradecemos a sua confiança na Moulin Lounge.

— Obrigada — murmurei.

— Tenha uma excelente noite, senhora Mondego.

A chamada foi encerrada com suavidade.

Fiquei alguns segundos em silêncio absoluto, olhando para o telefone como se ele tivesse acabado de alterar irrevogavelmente o rumo da minha vida.

Louise voltou da cozinha rindo.

— Você ouviu a própria voz? Parecia uma CEO a contratar um ativo estratégico — disse, divertidíssima. — Orgulho define.

— Louise, por favor, cala a boca — pedi, atirando-me de lado e afundando no sofá, derrotada. — Acho que acabei de vender a minha alma.

Isso só fez a gargalhada dela aumentar.

— Bobagem — rebateu. — Você apenas terceirizou o caos, e olha, não podes dizer que eu não fui uma boa amiga — afirmou, enxugando os olhos. — E, se tudo der certo e você for promovida, vou querer um jantar, com direito ao vinho mais caro do restaurante.

— Vamos começar por eu não ser despedida — respondi. — Mas, se tudo der certo e eu for promovida, além do jantar e do vinho caro, eu te darei uma viagem com tudo pago para a França.

Ela levou uma mão dramática ao peito.

— Oh, querida Zoey, você me faz tão feliz — disse, emocionada demais para alguém que me empurrara para um serviço de acompanhantes de luxo. — Mas confesso que estou ansiosa para ver a cara de indignação da Kristen. Eu realmente espero que aquela puta se arraste aos teus pés.

— Um tanto sádico, não achas? — repliquei, rindo da desbocada.

— Não o suficiente para o que ela merece — rebateu sem culpa alguma. — Mas diz-me, por que você vai ao casamento, afinal? Eu, no seu lugar, não iria. Inclusive, achei de extremo mau gosto os seus pais enviarem um convite depois de tudo.

— Mau gosto é o nome do meio deles — respondi. — Mas eu vou. Talvez assim eu prove, de uma vez por todas, que apesar de terem me abandonado naquele momento, eu me reergui. E, no fundo, eu sinto saudades deles, pena que não seja recíproco, não é?

Louise ficou em silêncio por um segundo, avaliando-me.

— Quer que eu abra uma garrafa de vinho? — Sorri, finalmente sentindo algo próximo de conforto.

— E é exatamente por isso que você é a minha pessoa preferida.

Ela sorriu de volta, já se levantando.

— Eu sempre soube.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App