Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Lara Bellini
O clique da tranca da porta da biblioteca soou como o disparo de uma execução. O silêncio que se seguiu foi denso, interrompido apenas pelo som do uísque batendo contra o gelo no copo que William segurava. Eu estava parada no centro da sala, as mãos entrelaçadas na frente do corpo para esconder o tremor que nem mesmo a minha força de vontade conseguia conter.
O cheiro de sândalo dele agora se misturava ao cheiro metálico de sangue que ainda pairava no ar, vindo do lugar onde meu pai fora agredido horas antes. Era uma combinação sufocante.
— Então... — William começou, a voz arrastada, quase casual, se não fosse pelo brilho letal em seus olhos. — Luna. Um nome poético para uma mentirosa tão talentosa. Devo admitir, o seu desempenho ontem à noite foi digno de um Oscar. Aquela resistência, o medo fingido... ou seria o prazer que foi encenado também?
Senti o sangue subir ao meu rosto, mas não era de vergonha. Era de fúria. Dei um passo à frente, ignorando o instinto que me mandava fugir
— Nada foi encenado, William. Nem a minha vontade de estragar o seu contrato, nem o nojo que eu sinto agora ao olhar para você — cuspi as palavras, sentindo o ardor do tapa da minha mãe latejar sob a maquiagem. — Eu queria ser dona de algo antes de você me comprar como um imóvel em liquidação. E eu consegui. A "cláusula da pureza" morreu naquele lençol. Então, por que ainda está aqui? Chame seus advogados, anule esse circo e vá procurar outra virgem para o seu altar medieval.
William soltou uma risada seca, um som sem alegria que fez os pelos do meu braço se arrepiarem. Ele deixou o copo sobre a mesa de carvalho e caminhou em minha direção. Ele não se apressava; ele se movia com a confiança de quem sabe que todas as saídas estão bloqueadas.
— Você acha que é tão simples assim? — Ele parou a poucos centímetros de mim, me forçando a inclinar a cabeça para trás para sustentar o olhar. — Você acha que eu me importo com um pedaço de hímen, Lara? Eu sou um homem de negócios. E você acabou de me dar o maior trunfo que eu poderia desejar.
— Do que você está falando? — Minha voz fraquejou.
— Sua família é uma fraude. Seu pai está falido e deve dinheiro a homens que cortam gargantas antes de fazer perguntas. E agora, eu tenho a prova de que a "joia intocada" dos Bellini é, na verdade, uma pequena rebelde que se entrega a estranhos em bares sujos — ele estendeu a mão, o polegar roçando meu lábio inferior com uma possessividade assustadora. — Se eu contar ao meu pai sobre a sua escapada, o acordo cai. Mas se o acordo cair, seu pai não terá a proteção da Weiss Corporation. E sabe o que acontece com homens como Albert Bellini sem proteção? Eles desaparecem.
O pânico, frio e viscoso, se instalou em meu estômago. Eu vi a imagem do meu pai quebrado na poltrona, sangrando e chorando. William estava usando a vida dele como moeda de troca.
— Você é um monstro — sussurrei.
— Eu sou o homem que vai salvar a sua pele, Lara. Mas o preço subiu — ele se inclinou, seus lábios quase roçando meu ouvido. — A cláusula de virgindade está oficialmente revogada. Em seu lugar, eu vou redigi algo muito mais interessante.
Ele se afastou e tirou um papel dobrado do bolso interno do paletó, se sentou na cadeira e ficou escrevendo por alguns minutos, até que se levantou e me entregou. Não era o contrato pomposo que meu pai me apresentou. Era uma folha simples, com termos escritos de forma clara e letal.
— O que é isso?
— O seu novo testamento — ele disse, com um sorriso de canto de boca. — Cláusula Um: Você manterá a fachada de noiva perfeita diante da imprensa e das nossas famílias. Ninguém, absolutamente ninguém, saberá que você não é o que o contrato original exige. Cláusula Dois: Você viverá sob o meu teto a partir de amanhã. E a Cláusula Três... — ele fez uma pausa dramática, seus olhos escaneando meu corpo com uma fome indisfarçável — ...Exclusividade total. O que aconteceu ontem não foi uma exceção, Lara. Foi o início. Você não terá outros homens. Você não terá segredos. Você será minha, em todos os sentidos que essa palavra permite, até que eu decida que a dívida está paga.
— Isso é escravidão! — gritei, tentando empurrá-lo, mas ele segurou meus pulsos com facilidade, prendendo-os contra o meu peito.
— Isso é um negócio, Lara. E você é o pagamento — a voz dele endureceu. — Assine o anexo, ou eu saio por aquela porta agora mesmo e deixo os cães do Volkov terminarem o que começaram com o seu pai. Escolha. A sua "liberdade" ou a vida das pessoas que te deram esse tapa que você está tentando esconder com maquiagem barata.
Eu congelei.
Ele sabia.
Ele tinha visto a marca, mesmo através do corretivo. William Weiss via tudo. Ele via a minha fraqueza, o meu medo e a minha luxúria traidora que ainda vibrava em algum lugar profundo debaixo do meu ódio.
Olhei para a caneta que ele me oferecia. A biblioteca parecia estar ficando sem oxigênio. Eu era uma Bellini. Fui criada para ser uma princesa, para ser admirada, para ser o topo da pirâmide social. Mas ali, sob o olhar impiedoso de William, eu era apenas uma peça sendo movida em um tabuleiro de xadrez.
— Se eu assinar... você garante a segurança dele? — perguntei, a voz embargada.
— Minha palavra é a única coisa que vale algo nesta sala, Lara — ele soltou meus pulsos e entregou a caneta.
Com os dedos trêmulos, assinei o papel. A tinta preta selava o meu destino de uma forma que o sexo na noite anterior não tinha conseguido. Eu não era mais Luna, a rebelde. Eu era a Noiva sob Contrato de William Weiss.
— Excelente escolha! Vou formalizar e autenticar este documento. — ele pegou o papel, dobrando-o cuidadosamente. — Agora, limpe esse rosto e sorria. Temos um jantar para atender e um noivado para celebrar. E tente parecer apaixonada, querida. Afinal, nós tivemos uma noite inesquecível, não tivemos?
Ele abriu a porta para mim, fazendo um gesto cortês que escondia o veneno de suas palavras. Eu passei por ele, sentindo o peso das correntes invisíveis que agora me prendiam. O jantar de noivado estava apenas começando, e eu teria que atuar como se minha vida — e a do meu pai — não estivesse por um fio de seda.







