Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Lara Bellini
Retocar a maquiagem pela quarta vez naquela noite pareceu um ritual fúnebre. Eu não estava apenas escondendo o tapa da minha mãe; eu estava tentando esconder a alma que William Weiss acabara de confiscar na biblioteca. Saí do cômodo sentindo o peso do novo contrato queimando contra a minha pele, dobrado de forma invisível sob o tecido caro do meu vestido. Quando cheguei ao salão principal, a cena era um quadro perfeito de falsidade aristocrática. O piano de cauda tocava uma melodia suave, e o som de risadas polidas flutuava pelo ar como fumaça. No centro de tudo, William Weiss permanecia como um sol radiante, atraindo toda a atenção e gravidade para si. Ele não estava sozinho. Ao seu lado, uma mulher que parecia ter saído diretamente das páginas de uma revista de alta moda segurava seu braço com uma familiaridade que me fez parar no último degrau. Era Camille Laurent. Elegante, com um vestido vermelho que gritava confiança e um sorriso que nunca chegava aos olhos. Eu a reconhecia das colunas sociais: a ex-namorada "perfeita" que a família Weiss sempre adorou exibir, mesmo que William não existisse na mídia. — Ah, aí está ela! A joia da coroa — a voz de William cortou o salão, atraindo todos os olhares para mim. Ele se afastou de Camille com uma polidez gélida e caminhou em minha direção. Seus olhos me percorreram, verificando se eu tinha seguido suas ordens de "sorrir e parecer apaixonada". — Você demorou, querida. Eu estava começando a achar que tinha se perdido nos seus próprios pensamentos — ele disse, envolvendo minha cintura com um braço possessivo. A pressão de seus dedos era um lembrete: eu sou o dono das regras agora. — Estava apenas garantindo que a máscara estivesse bem colada, William — respondi, entredentes, forçando o sorriso mais plástico que consegui moldar. — Lara, querida, você conhece a Camille? — William nos apresentou, o tom de voz carregado de um sarcasmo que só eu conseguia detectar. — Uma velha amiga da família. — "Amiga" é um termo tão modesto, Will — Camille disse, estendendo uma mão impecavelmente manicurada. Seus olhos escanearam meu rosto, detendo-se por um segundo a mais na cobertura da minha maquiagem. — Lara Bellini... a noiva secreta. Devo admitir, você é muito mais... interessante do que eu imaginei. Quase parece que está escondendo algo sob toda essa seda. — Todos nós escondemos algo nesta sala, Camille — retruquei, sentindo uma faísca de adrenalina. — Algumas escondem segredos, outras apenas a falta de relevância no presente. Vi a mandíbula de Camille travar por um segundo, mas William soltou uma risada baixa e rouca, puxando-me para mais perto de seu corpo. O calor dele era uma traição aos meus sentidos. — Ela é afiada, não é? — William comentou, olhando para Camille, mas dirigindo a frase a mim. — Eu sempre apreciei uma mercadoria que sabe morder antes de ser domada. Caminhamos em direção ao centro do salão, onde meus pais nos esperavam. Albert Bellini estava radiante, uma taça de Cristal na mão e um sorriso que desafiava a gravidade e as costelas quebradas. Ele parecia ter rejuvenescido dez anos com a segurança do contrato assinado. Ao seu lado, Elisabeth brilhava, a encarnação da matrona vitoriosa que acabara de realizar o negócio do século. Eles não viam a filha. Viam o recibo de quitação de suas dívidas. — Atenção todos! — Henrik Weiss elevou a voz, fazendo o salão silenciar. — Hoje, celebramos mais do que a união de dois nomes. Celebramos o futuro da Weiss Corporation e da Bellini Industries. Um brinde aos noivos, William e Lara! Que a pureza desta união seja o alicerce de um império inabalável! — Aos noivos! — O coro de vozes ecoou, seguido pelo tilintar metálico de centenas de taças de cristal. William ergueu a dele, seus olhos fixos nos meus, brilhando com um triunfo sombrio. Eu ergui a minha, sentindo o espumante caro ter gosto de cinzas e bile na minha boca. Eu estava cercada por luxo, flores importadas e as pessoas mais poderosas do país, mas nunca me senti tão sozinha. De um lado, meus pais me usavam como escudo contra a própria incompetência. Do outro, William me usava como um troféu conquistado através de chantagem e uma noite de erro. Eu era uma propriedade compartilhada entre a gratidão forçada e a posse implacável. — Sorria, Lara — William sussurrou enquanto encostávamos nossas taças. — O mundo está assistindo. E você não quer que eles vejam o quanto você está gostando de ser minha, quer? — Eu te odeio — murmurei, mantendo o sorriso fixo enquanto os fotógrafos disparavam flashes que me cegavam. — Ótimo — ele respondeu, bebendo o espumante sem desviar os olhos dos meus. — O ódio é uma base muito mais sólida para um contrato do que o amor. O amor é volúvel. O ódio... o ódio é para sempre. O brinde terminou, os aplausos começaram, e eu percebi, com um terror mudo, que o meu "prazo de validade" tinha acabado. Eu não era mais uma pessoa. Eu era uma cláusula. E a noite de celebração era apenas o início da minha sentença sob o teto de William Weiss.






