Seis

Noah se sentiu impotente pela primeira vez em toda a sua vida.

Quando foi que ele enfrentou uma batalha sem saber o motivo da guerra?

A garota que chorava não parecia uma atriz.

Ou ela era digna de um Oscar, porque seu choro era muito convincente.

Ele não podia devolver a vida dela.

Ele nem ao menos se lembrava do que tinha acontecido!

Sua cabeça doía de tanto forçar as memórias, mas só tinha a vaga lembrança de chegar a Vegas para uma possível aquisição de um hotel em falência.

A Hampton Global vinha crescendo sob sua gestão.

Seu avô teria orgulho dele.

Sua avó, por outro lado...

A Sra. Hampton não era fácil de agradar.

Ela sempre demonstrou sua preferência por Hugo.

O filho de sua primogênita.

A filha favorita.

Se estivesse com o celular, ela já teria ligado para repreendê-lo.

Isso era outro problema.

Não sabia onde estavam seus pertences.

Justin precisava dar explicações!

Os dois viajaram juntos.

Seu assistente deveria acompanhá-lo em todos os lugares, então como ele acabou se casando com uma estranha?

Ele esfregou os olhos pela décima vez e suspirou.

A garota ainda chorava, encolhida em seu canto.

- Você realmente não lembra de nada?

- Não! Quantas vezes preciso repetir?

- Certo, supondo que eu acredite em você, qual é a sua última memória?

Ela ficou olhando para o vazio por um tempo e então falou sobre chegar do trabalho e ir dormir um pouco.

Depois disso, não conseguia lembrar de mais nada.

Ele não poderia dizer que era mentira, dado que também só se lembrava de estar a caminho de Vegas e nada mais.

- Por que não liga para alguém?

- Meu celular não está funcionando. Descarregou, e não estou com o carregador. Você teria um para me emprestar?

- Não. Não sei onde estão meus pertences.

- E o seu amigo?

- Quando Justin voltar, podemos perguntar se ele tem. Hum... fale-me sobre você.

- O que quer saber?

- Qual é a sua idade?

- Vinte. E a sua?

- Tenho trinta e um. Você ainda é uma garota. Por que veio para este lugar?

- Eu já falei que não sei. Eu não lembro!

- Não tem amigos por aqui? Um namorado, talvez?

- Não. Eu não namoro. Não tenho tempo. Eu... Achei que fosse algum plano da Mercedes.

- Quem é ela?

- A esposa do meu pai. Mas, se ela tivesse armado para me prejudicar, escolheria algum velho ou um bandido...

O olhar dela demonstrava certa dúvida quanto à sua integridade, e ele se sentiu pior.

Estava aliviado por ela não ser menor de idade, mas isso ainda não era motivo de tranquilidade.

Ela poderia ser a arma de alguém para atingi-lo.

A pessoa mais provável era Hugo.

Seu primo seria o beneficiado caso ele fosse afastado do cargo.

- Você conhece Hugo?

- Hugo?

- Hugo Drake. Ou Hugo Hampton, como ele prefere ser conhecido. Ele costuma vir para estes lados em busca de diversão. Talvez já tenha se hospedado no hotel em que você trabalha.

- Não me lembro desse nome. Eu não tenho contato com os hóspedes. O que tem ele?

- Nada. Vamos esperar Justin.

Ele não iria deixar que ela criasse uma história mentirosa, caso estivesse aliada a alguém.

Todo cuidado era pouco.

A espera o irritava.

Já estava prestes a sair em busca de seu assessor quando Justin voltou.

- Tenho novidades.

- Fale logo!

- A Catarina não faz parte dos funcionários daqui e veio junto com outras garotas para uma espécie de treinamento.

- E daí?

- O gerente-geral não sabia de nada. Quando descobriu, demitiu a responsável que organizou isso sem o consentimento dele.

- Isso não esclarece nada!

- Não. Ele ficou de nos enviar as imagens do circuito interno. Quando assistirmos, teremos uma explicação.

- Isso pode levar horas ou até dias! Eu quero saber agora!

- Eu fiz o que podia! Ofereci dinheiro ao sujeito para agilizar, mas ele com certeza está receoso de que tenha havido algo mais. É o pescoço dele que está em risco!

- Que hotel é esse? Quanta irresponsabilidade!

- Não se preocupe. Vamos deixar claro para o Arnold que não faremos negócio. O lugar não é agradável e não tem perspectiva de lucro.

- Então esse era o hotel que iríamos adquirir?

- Um deles. Você decidiu vir conhecê-lo ontem.

- E você não veio junto? Honestamente, Justin, onde você estava enquanto tudo isso acontecia?

- Nós viemos juntos, mas eu fui até o escritório com o Arnold enquanto você jantava. Não lembra?

- Não. Eu não lembro de nada! Que inferno!

- Quando eu voltei, você tinha saído. Ouvi alguém falando sobre um empresário louco que estava se casando com uma camareira, mas não achei que pudesse ser você. Pensei que tivesse ido embora sem me esperar.

- Eu não teria essa ideia absurda de casamento nem sob efeito de entorpecentes! Alguma coisa me foi dada, e alguém estava me conduzindo nesse teatro infernal!

- Iremos descobrir. Mas, por hoje, temos que resolver as coisas mais urgentes.

- Quais?

- Sua avó. O conselho. O futuro da Hampton Global.

- Ligue para o Allan. Ele tem que achar uma saída. E nós precisamos ir embora deste lugar!

- A propósito, o Arnold me entregou seu celular. Ele disse que uma das garçonetes o encontrou. Eu mandaria o TI fazer uma varredura. Não confio neles. Com certeza a equipe tem algum envolvimento no que aconteceu.

- Certo. Fique com ele e peça ao Dante para analisá-lo.

Noah virou-se para a esposa e se perguntou o que seria necessário para torná-la minimamente apresentável.

Ele não podia levá-la consigo vestida daquele jeito.

O jeans gasto já tinha visto dias melhores.

A camiseta não ficava atrás.

Até o tênis parecia ter anos de uso.

Não eram apenas os trajes.

Tudo nela parecia insignificante.

Como aquela mulher poderia sair do hotel como esposa do poderoso herdeiro dos Hampton?

Era um ultraje!

Quem a escolheu queria humilhá-lo e torná-lo objeto de zombaria.

Ele tinha passado a juventude com mulheres deslumbrantes.

Aquela mulher não teria sido escolhida nem mesmo para ser sua empregada!

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