Mundo de ficçãoIniciar sessão
O portão gigante de ferro à minha frente me deixava assustada. Eu nunca tinha trabalhado em uma casa tão chique em todos os anos como babá. Enquanto aguardava o interfone ser atendido, ajeitei a bolsa no ombro e respirei fundo, tentando ignorar o nó insistente no estômago. Mansão Montenegro. O nome soava pesado, quase intimidante. Não combinava comigo, com meus sapatos simples nem com a vida prática que aprendi a levar desde cedo.
— Senhorita Lívia Rocha? — a voz masculina soou metálica pelo interfone.
— Isso, sou eu — minha voz quase não saia.
O portão se abriu devagar, revelando um caminho longo, impecavelmente limpo, ladeado por jardins perfeitos demais para parecerem reais. Cada passo que dei foi acompanhado por uma certeza incômoda, eu estava entrando em um mundo que não me pertencia. A porta principal se abriu antes mesmo que eu tocasse a campainha. Um homem de terno escuro me aguardava. Alto, postura impecável, olhar atento demais para alguém que se dizia apenas um funcionário.
— Seja bem-vinda. O senhor Montenegro a aguarda no escritório.
Assenti, seguindo-o em silêncio. O interior da casa era bonito, luxuoso, frio. Tudo ali parecia organizado demais, como se a vida tivesse sido cuidadosamente retirada de cada canto. Foi quando ouvi uma risada infantil ecoar pelo corredor que algo dentro de mim se aqueceu.
— Theo… — murmurei sem perceber.
O funcionário me lançou um olhar curioso, mas não disse nada. O escritório ficava no fim do corredor. A porta estava entreaberta e antes que eu pudesse anunciar minha presença, ouvi a voz dele.
— Entre, por favor…
Arthur Montenegro não precisou levantar os olhos do tablet para dominar o ambiente. Era o tipo de homem que carregava autoridade até no silêncio. Quando finalmente me encarou, senti o impacto direto no peito. Ele era bonito, não do tipo óbvio, mas perigoso. O olhar sombrio, cansado, analisava tudo com precisão. Não havia um mini sorriso sequer.
— Lívia Rocha — disse, confirmando meu nome como se já soubesse tudo sobre mim — Vinte e quatro anos. Formada em pedagogia -incompleta-. Três recomendações excelentes. Engoli em seco. Ele sabia tudo.
— Sim, senhor — minha voz saiu mais trêmula do que eu pretendia.
— Aqui não gosto de informalidades — Ele se levantou. Era alto, muito mais alto do que eu esperava — Meu filho precisa de estabilidade, não de afeto exagerado nem distrações emocionais.
A frase doeu em mim mais do que deveria.
— Eu entendo — respondi, mesmo discordando de cada palavra.
— Theo é sensível — Sua voz falhou por um segundo, quase imperceptível — Não lida bem com mudanças.
Antes que eu pudesse responder, uma pequena figura apareceu na porta. Cabelos castanhos bagunçados, olhos curiosos e um sorriso tímido.
— Você é a nova babá? — perguntou o garotinho que me encantou em suas primeiras palavras.
Seu sotaque sulista me deixou derretida. Ajoelhei-me no mesmo instante, ignorando completamente a presença imponente do pai atrás de mim.
— Sou, sim. E você deve ser o Theo.
— Você pode ficar? — ele questionou segurando minha mão.
A pergunta simples atravessou meu peito como uma flecha. Levantei o olhar para Arthur Montenegro e pela primeira vez, vi algo diferente em seu rosto. Não frieza. Não controle. Medo.
— Se você quiser — respondi ao menino, apertando sua mão com cuidado — eu fico.
Naquele instante, sem saber, eu aceitei muito mais do que um emprego. Aceitei o começo da história que mudaria a minha vida para sempre. Eu não sabia o que esperar daquele emprego, mas sabia que seria um desafio que eu nunca tinha enfrentado em toda minha vida. A presença do senhor Montenegro era assustadora, até para o próprio filho e isso não seria nada fácil.
Depois da rápida entrevista e da interação com Théo, eu fui contratada e recomendada.
— Não gosto de atrasos, nem de desorganização. Os detalhes de tudo, será passado pela governanta, dona Berta — ele dava ordens como se eu fosse um funcionário da sua big tech — espero você as seis da manhã na segunda. Aproveite o final de semana para se organizar e não ter imprevistos.
— Ok. Obrigada, senhor. Não vou decepcioná-lo — estendi a mão em confirmação e fiquei sozinha com a mão no ar, feito uma boba. Ele virou as costas e saiu atendendo o celular que vibrava.
Olhei em direção à porta e vi a dona Berta me encarando e meneando a cabeça em negativa. Eu não sabia um terço do que viria a seguir, mas tive certeza naquele instante que eu iria lidar com um grande desafio.
— Espero que você dure pelo menos um mês, menina — Berta me alertou.
— Por quê? É tão difícil assim, ser babá? — perguntei inocente. Berta sorriu.
— Você é a terceira garota, somente esse mês. Ninguém aguenta mais de uma semana — Berta parou na minha frente e virou-se para mim — o senhor Montenegro é um homem amargo, frustrado. Principalmente depois da morte súbita da sua esposa Lindsay. Uma mulher maravilhosa — Berta ficou pensativa.
Esperei que ela dissesse mais, porém, era só o que ela tinha a dizer naquele momento. Me mostrou as partes da casa que eu poderia frequentar e as áreas proibidas. Saí da mansão com a certeza de um bom salário que pagaria meu aluguel e as faturas do cartão e ainda sobraria um pouco de dinheiro para mandar para minha mão no norte de Minas. Só não imaginei que, naquela mesma noite, ao conferir os documentos esquecidos na minha bolsa, eu descobriria que o nome Arthur Montenegro não estava ali apenas como meu empregador, mas ligado ao passado que eu passei a vida inteira tentando esquecer.







