CAP. 3 - Vestida para Matar

(POV Sky)

Batidas violentas na porta me arrancam do sono. Meio-dia. Minha cabeça parece um bloco de concreto e o cheiro no quarto é uma mistura azeda de Vodka e tinta fresca. Levanto-me com dificuldade, o mundo girando, e acabo tropeçando no vestido pichado que descansa no chão.

Abro a porta e o Alex trava no corredor. Ele é meu melhor amigo, designer na Gouveia e a única pessoa que me faz rir quando o mundo está desabando. O Alex é negro, tem a pele retinta impecável e um corte de cabelo na régua que eu sempre invejo. Ele me encara de cima a baixo, os olhos quase pulando da cara.

— Nossa, amiga... você está um lixo — ele solta, sem filtro.

Ele entra, desviando das garrafas espalhadas, e para diante da zona de guerra: manchas de tinta nas paredes e o meu cabelo ruivo, que parece um ninho de mafagafos.

— Que despedida de solteiro foi essa, criatura? Você brigou com um urso?

— Mais ou menos — respondo, a voz rouca. — Fala baixo, Alex. Sinto que minha cabeça vai explodir.

— Tá parecendo que sobreviveu a um atropelamento de caminhão de tinta!

Solto uma risada seca que vira uma tosse ruidosa. Fecho a porta do quarto e me jogo de volta na cama, sentindo o estômago revirar enquanto o Alex puxa a cadeira para se sentar.

— Minha despedida foi com a realidade. O Victor está me traindo. Com a Sofia. — Sério? Puta que pariu, Sky... — Ele se aproxima, a voz mudando para uma preocupação real. — Você está bem?

 — Depois de duas garrafas de sanidade, não me pergunte o que está bem — afirmo, encarando o teto. — Eu ainda vou para o altar e vou vestida para matar. Mas você vai me ajudar.

Entrego o celular na mão dele com o vídeo da noite passada. Tomo seis aspirinas de uma vez, engolindo o amargor com o resto da vodca quente que sobrou no fundo de um copo a única forma de fazer a dor na têmpora ceder.

— Na hora certa, você dá um jeito de espelhar isso no telão da igreja.

— Tem certeza? — ele pergunta, com o aparelho na mão.

Aceno que sim. Ele abre um sorriso cúmplice.

— Considera feito.

Vomito três vezes seguidas no banheiro até sobrar apenas bile. O Alex faz um café tão amargo que trava a língua, mas o calor do líquido me faz despertar à força. A Moon ainda não voltou do trabalho. Ótimo. Eu não teria estrutura para o otimismo dela agora.

Caminho pelo corredor em silêncio. A porta do quarto do meu pai está entreaberta. Ouço o som rítmico do respirador e a voz baixa da enfermeira. Dou uma espiada rápida e fecho a porta devagar, sentindo um aperto no peito. É por ele que eu ainda estou de pé.

É hora de me arrumar para o meu "grande dia".

Ligo para o salão e dispenso todo mundo. Entro no chuveiro frio. A água gelada b**e nas minhas costas como agulhas, levando embora o cheiro de suor e o rastro da noite passada. Me arrumo ali mesmo. O Alex me ajuda com os fechos do vestido. Minha maquiagem é pesada: olhos extremamente pretos, em luto pela mulher que morreu ontem.

Encaixo o vestido sereia pichado, que agora parece uma armadura rígida de tinta seca, e pegou o buquê de rosas pretas e vermelha que eu enfiei na tinta, não ficou bonito, mas o Show ao vivo vai ser o complemento perfeito. Como toque final, o véu preto. O relógio marca 17:40. Olho para o espelho uma última vez. Eu não pareço uma noiva normal. Estou mais para a noiva cadaver.

— O carro chegou, Sky — Alex avisa.

— Ótimo — digo, ajustando o véu sobre o rosto. — Noivas sempre chegam atrasadas. E eu não quero perder um segundo da cara do Victor quando ele perceber que a noivinha dele morreu.

****

O motorista do carro de luxo me olhou pelo retrovisor várias vezes e desviou o olhar rápido, como se estivesse vendo um fantasma. Ele parou em frente à Igreja de Nossa Senhora das Dores e ficou em silêncio. A fachada de pedra parecia um muro intransponível.

A família Gouveia era mestre em aparências. Assim que meu pai ficou paralisado, o Paulo assumiu a Tríade, mudou o nome para Gouveia Construtora e seguiu a vida como se os Bittencourt nunca tivessem existido. Eu engoli o choro e trabalhei até meus dedos doerem para retribuir os anos de hospital que o Paulo pagou. Eu amava o Victor. Doía admitir, mas ele foi meu porto seguro por mais de dez anos. Eu confiei nele para ser o meu primeiro homem.

Agora, cada lembrança me dava vontade de vomitar.

Desci do carro e o silêncio na calçada foi imediato. Calcei meus tênis All Star surrados por baixo da seda pichada.

— Você vai entrar assim? — a assessora sussurrou, pálida.

— Qual seria a graça de ser igual a todo mundo? — Dei um sorriso de lado, sentindo o amargo da bile entalado na garganta.

O Alex passou por mim, deu o sinal, e as portas se abriram.

A marcha nupcial tropeçou. Os músicos erraram as notas assim que viram me viram de véu preto e o vestido manchado. Caminhei reto, o som dos meus tênis abafado pelo tapete, segurando o buquê de rosas. Eu não tinha classe, só tinha ódio.

Vi o Paulo Gouveia na primeira fila, confuso. Ao lado do altar, estava a Sofia. Minha melhor amiga. A "irmã" que me incentivou a emagrecer, vestida de pêssego com cara de santa. Minha madrinha. Lá no fundo, vi a Moon com as mãos na cabeça, visivelmente nervosa. Ela sabia que eu tinha perdido o controle.

O Victor coçou o maxilar, as mãos tremendo. Quando parei ao lado dele, o cheiro do perfume dele fedia a traição.

— Sky... o que é isso? Você está bem? — ele sussurrou, desesperado.

— Estou ótima, querido. Sou uma artista, lembra? — Me esquivei bruscamente quando ele tentou tocar meu rosto.

O Padre começou a cerimônia, visivelmente desconfortável. Victor recitava votos de amor eterno enquanto eu só lembrava do som da carne dele batendo na mesa ontem à noite. As luzes do altar giraram. O Padre pigarreou:

— Se alguém aqui presente souber de algum impedimento... fale agora ou cale-se para sempre.

Olhei para o Alex. Ele estava posicionado.

— Eu tenho — minha voz cortou o ar, seca. — Tenho uma apresentação completa. —  Apontei para o telão. —  Antes do "sim", eu queria passar um vídeo dos nossos dez anos.

Alex acionou o telão. As primeiras imagens surgiram: fotos de infância, nós dois rindo em um parquinho, promessas de adolescentes. Eu o conhecia desde os nove anos, e era por isso que cada pixel ali doía. O Victor sorriu ao meu lado, tentando pegar minha mão, mas eu a puxei de volta. O vídeo continuou com fotos da nossa formatura, do dia em que passei no ENEM. Vi minha sogra, Dona Eliana, limpando uma lágrima no primeiro banco. Ela foi minha segunda mãe, a mulher que me acolheu quando a minha morreu. Os flashes disparavam. O prefeito observava tudo com um sorriso político da segunda fileira.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App