Mundo de ficçãoIniciar sessão(POV Sky)
Minha cabeça parece um canteiro de obras em dia de demolição. No banco de trás do táxi, o som das garrafas de Vodka e vinho batendo uma na outra é um tintilar torturante. Minutos depois, o carro para em frente à minha casa. O prédio é simples, mas é o que o "Tio" Gouveia gentilmente nos ajuda a manter com aquele aluguel de miséria, em troca do terreno que era do meu pai.
Entro e sinto o cheiro de mofo e umidade que me persegue desde os quinze anos ainda está lá, por mais que eu tente disfarçar as paredes com as amostras de tecidos caros que peguei na Gouveia Construtora. Vou direto para o quarto do meu pai. O silêncio ali é quebrado apenas pelo ritmo do respirador. Olho para ele, paralisado naquela cama: um gênio da arquitetura reduzido a um espectador da própria desgraça.
Ele era o cérebro da Tríade & Enterprise. O Gouveia entrou com o dinheiro, o Lacerda com os contatos e meu pai com o terreno da família e o talento que o mundo cobiçava. Meu pai criou a ideia do século: uma tecnologia capaz de revolucionar a engenharia, mas foi roubado pelo sócio, o Lacerda. No dia em que ele descobriu a traição e saiu para lutar pelo que era dele, o acidente levou a vida da minha mãe e o deixou assim, preso nesse corpo morto.
O pior não foi o acidente. Foi o que veio depois. O Lacerda não apenas roubou a patente; ele usou o poder dele para processar meu pai por plágio. Ele inverteu a história e enterrou o nome do meu pai na lama. Sinto um nó na garganta que nem a Vodka dissolve. Como vou olhar para ele amanhã e dizer que o filho do homem que nos sustentou por dez anos é um lixo? Eu sou grata ao Gouveia por pagar os médicos, mas não consigo esquecer aquela cena na mesa de reunião.
— Sky? É você? — A voz da Moon vem do corredor.
Moon Bittencourt. Minha irmã caçula, a razão de eu nunca ter desistido. Ela é quatro anos mais nova que eu, mais bonita e mais magra. Diferente de mim, ela herdou os fios claros da nossa mãe, enquanto eu fiquei com os olhos dela e esse ruivo acobreado indomável que insiste em ficar bagunçado. Minha mãe, Estela, era uma astrônoma apaixonada e decidiu que teríamos nomes de outro mundo. Eu sou Sky, o Céu; ela é Moon, a Lua. Sofremos bullying a vida inteira por isso. Éramos "as irmãs lunáticas" e, quando a pobreza bateu, viramos as "lunáticas da favela".
— Sou eu, Moon. Vai dormir — respondo, tentando esconder as garrafas atrás das costas.
Ela aparece na porta com os olhos brilhando. Moon tem excesso de otimismo, o oposto de mim.
— Eu estava te esperando. Tenho duas notícias: uma boa e uma maravilhosa. Qual quer primeiro?
— Nenhuma — caminho até os aparelhos do meu pai, confiro o oxigênio, dou um beijo em sua testa e escoro a porta.
— Azar o seu, vou falar assim mesmo. A primeira: o seu vestido de noiva chegou. A Sofia deixou lá no seu quarto. E tenho certeza de que não foi você que escolheu, porque aquele lá é bonito demais para o seu gosto básico.
Aperto os olhos com força. O vestido. Eu não escolhi nada; a Sofia escolheu "o que o Victor gostaria", moldando meu corpo para um padrão que nunca foi meu.
— E a segunda... — Moon se aproxima, sussurrando como se o mundo fosse acabar. — Lembra daquele concurso que eu te falei? O do Complexo Blackwood Horizon? Aquele que você disse que era marmelada.
Meu estômago dá um solavanco. A Blackwood. Uma das maiores construtoras do mundo e a empresa que eu mais odeio. Eles foram os primeiros a comprar a tecnologia que o Lacerda roubou do meu pai e ainda o processaram por plágio. Eles deram o dinheiro que financiou a nossa destruição.
— O que tem? — pergunto, seca.
— A Zênite Arch Design passou para a segunda fase, Sky! O seu projeto está entre os vinte melhores. Eles querem o anteprojeto técnico em duas semanas.
— Moon, eu te disse para não mandar nada! Se o Lacerda for um dos avaliadores e descobrir que eu estou por trás da Zênite, ele acaba com o pouco que sobrou da gente. Ele enterra o papai de vez.
— Ele não vai descobrir, Sky! — ela diz, chegando mais perto. — O concurso é Double-Blind, seleção às cegas. Na primeira fase eles só avaliam o conceito e a filosofia. Não tem nome, não tem assinatura. O projeto passou pelo seu talento.
— Mas eu nem tinha terminado, Moon! Parei o desenho assim que descobri que era para essa seletiva da Blackwood. Eles validaram o roubo do Lacerda.
— Pois é! Você nem terminou e já passou — ela sorri, vitoriosa. — Imagina se tivesse finalizado? Temos chance real de ficar entre os dez melhores. O seu talento falou antes do seu nome. Você sempre diz que a IA calcula a luz, mas só o arquiteto sabe onde colocar a janela para aquecer o coração. Alguém na Blackwood enxergou o sol no seu desenho, Sky.
Olho para o meu pai dormindo. Talvez seja o álcool falando mais alto, mas decido:
— Ok. Me mande o que tenho que fazer e qual a ideia central. Vou construir esse projeto, Moon, mas não crie expectativas.
O projeto que o Lacerda roubou do meu pai virou uma máquina fria de fazer dinheiro. Uma IA que mata a criatividade. Agora, eu tenho quatorze dias para provar que o meu traçado manual é melhor. Talvez assim eu consiga salvar nosso sobrenome Bittencourt.
— O vestido chegou, né? — pergunto, mudando de assunto.
— Chegou... está lá no quarto. Quer experimentar? — ela pergunta, alegre.
— Não. — Olho para as garrafas de bebida que cansei de esconder e coloco o dedo nos lábios, antes dela dizer algo. — Shhhiii.
Atravesso o corredor em direção à despensa e a Moon me segue como um cachorrinho assustado. Começo a mexer nos meus materiais de pintura. Eu amo a arte, desenhar é o que me faz querer alcançar o ponto mais alto do céu, como o nome da minha empresa: Zênite.
— Sky, o que você vai fazer? Por que essa Vodka? — ela insiste.
— Vai se deitar Moon. Agora.
— Não vou! Você está estranha demais.
Eu paro. Sinto o peso da bebida no estômago e o gosto amargo da traição na língua. Viro-me para ela.
— Ele está me traindo, Moon. Ela me olha, confusa, arqueando a sobrancelha. — O Victor está me traindo com a Sofia — explico.
Minha irmã recua e cai sentada no banquinho de madeira.
— Puta que pariu. Sofia? Nossa melhor amiga? Aceno com a cabeça e dou um gole na Vodka, empurrando a náusea. Começo a pegar os tubos de tinta acrílica preta e vermelha.
— Sim. É por isso que vou usar essas tintas.
— No vestido? Pichar o seu vestido de sereia vai resolver o quê? — ela pergunta, a voz trêmula. — O Gouveia pagou caro por isso...
Passo por ela e vou direto para o meu quarto. No espelho, vejo que estou horrível: maquiagem borrada e cabelo amassado. Pego meus pincéis.
— Sky, para! Você vai estragar tudo! — Moon grita da porta.
— Eu cansei, Moon! Ele queria uma noiva inocente, virgem e magra? Pois amanhã ele vai ter uma Viúva Negra.
— Você ainda vai se casar com ele?
— Ah, para o casamento eu vou. Fiquei amaciando aquela porcaria de sapato por cinco dias. O Gouveia queria esse casamento mais que o próprio filho, sempre dizendo que "família cuida de família". Pois a nossa "família" estava se comendo em cima da mesa do escritório enquanto eu passava fome para caber na merda desse vestido.
Moon me olha sem ter o que responder.
— Talvez ele tenha feito isso porque eu quis esperar, sabe? Mas isso não é justificativa! — Sinto a bile subir. — Se eu sinto vontade de matar alguém, eu simplesmente vou lá e mato? Não.
— Eu sinto muito, Sky... eu sei que para você é mais difícil se conectar, ter essa confiança toda para sentir alguma coisa.
— Pois é. E agora se ele me olhar, eu vou morrer de ânsia de vomito.
Mudo de assunto perguntando das notas dela na faculdade para cortar o clima pesado. Ela fala sobre o curso de Design e a necessidade de uma mesa digitalizadora.
— Vou dar um jeito nisso — respondo, sem esperança, mas querendo protegê-la. — Agora vá se deitar. E se não quiser ir ao casamento amanhã, será melhor.
Ela segura meu ombro antes de eu me fechar no quarto.
— Pensa direito no que você vai fazer, tá?
Aceno com a cabeça. O vestido de sereia está na cama, brilhando. Pego o pincel e começo a sujar a barra do tecido caro com traços pretos e violentos. Abro a garrafa de vinho e deixo cair gotas vermelhas na seda, como sangue.
No fim, será uma obra de arte fria e cruel. Fria igual aos meus sentimentos que morreram. Cruel igual à ressaca que vou sentir amanhã. Foram dez anos construindo uma ponte mental para aceitar a ideia de uma entrega para esse homem, e ele jogou tudo no lixo. Ele não era obrigado a esperar, mas também não tinha o direito de ser um canalha.







